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90º Aniversário da Sociedade de Instrução e Recreio Messinense

No dia 24 de Fevereiro de 2019, a Sociedade de Instrução e Recreio Messinense comemorou o 90º aniversário.
A festa de aniversário começou no dia 23 de fevereiro, quando, à tarde, o palco da Sociedade recebeu o “Palhaço Alberto”, um espetáculo que mistura diferentes técnicas circenses, através do trabalho do animador Marco Quintino, da Catapum Produções, Companhia de Novo Circo sediada no Baixo Alentejo.

O Palhaço Alberto com o Afonso
Atuação do Quarteto Ana Alves
Clube da Batucada

Foi também inaugurada uma Exposição Coletiva de Artes, de fotografia e pintura, com trabalhos de Jorge Correia, Nuno Luz, Laura Gomes, Bruno Cortes, Tânia Cabrita, Hélia Coelho e Cuca Fiadeiro.
À noite, foi a vez de atuar o Quarteto Ana Alves (jazz) que apresentou vários dos clássicos de jazz que se tornaram imortais ao longo do tempo. Ana Alves foi acompanhada pelos músicos Alexandre Dahmen (piano), Maximiliano Llano (bateria) e Hugo Santos (contrabaixo).
No dia 24 de fevereiro, a festa começou na rua, com a atuação do Clube da Batucada, um grupo de percussão desenvolvido no âmbito do projeto de desenvolvimento e valorização da pessoa deficiente “Sorrir M” mas que se encontra aberto a toda a população. Junto à sede da Sociedade, o Clube da Batucada realizou a sua primeira apresentação pública em São Bartolomeu de Messines, com muita animação e alegria.

Seguiu-se depois a parte protocolar da cerimónia, em que estiveram presentes na mesa a presidente da Câmara Municipal de Silves, Rosa Palma, o presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines, João Carlos Correia e o dirigente da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto, Vítor Carapinha, que se juntaram à presidente da Direção da Sociedade, Paula Bravo.
A presidente da Direção da Sociedade fez a primeira intervenção, incindindo sobre a história da coletividade e sobre as incertezas do futuro.
Seguidamente os restantes convidados da mesa, usaram da palavra sendo unânimes em dar os parabéns aos órgãos sociais da Sociedade pelo seu empenho na continuação deste projeto associativo, o mais antigo da Freguesia de São Bartolomeu de Messines.

Víctor Carapinha, Rosa Palma, Paula Bravo, João Carlos Correia
Mialves

A tarde prosseguiu depois com a participação de dois jovens, Mialves (Miguel Alves) que executou vários números de magia e Rita Silva, que interpretou algumas músicas. 

Humbertino Pontes, da Banda Filarmónica de Paderne e sócio da Sociedade, fez a última atuação do dia.

A festa encerrou com o tradicional bolo de parabéns, momento em que toda a sala se levantou para cantar em conjunto “para a menina Sociedade, uma salva de palmas”!

 

Intervenção do 90º aniversário
Da presidente da Sociedade

Há 90 anos atrás, houve um burburinho no povo de Messines, andavam por aqui uns jovens com umas ideias modernas e revolucionárias, queriam trazer para Messines o conceito das sociedades de instrução e recreio concebidas para ajudar na educação de quem não ia à escola, ou de quem só ia até ter de ir trabalhar, ainda criança, e para criarem um espaço onde as pessoas do povo pudessem divertir-se, sem ser só nas tabernas ou nas festas religiosas.
Devem ter importado essa ideia de Lisboa, aqui no concelho ainda não havia nenhuma sociedade e juntaram-se 20. O que sabemos dos nossos fundadores? Eram todos homens, o mais velho teria 32 anos. Eram proprietários, industriais corticeiros, comerciantes, sapateiros, carpinteiros, pedreiros, padeiros:
Serafim António Pacheco / Álvaro Correia / João dos Reis (Delgadinho) / João Ambrósio Neto / Manuel Guerreiro Galinha / Joaquim Correia / Joaquim Mascarenhas Gomes / Cesário da Silva / José Correia Pires / António Silvestre Rodrigues /Manuel João / José Correia / António Gonçalves Matias / Joaquim Brás /José Pedro Machado / Joaquim Pedro Machado / Manuel Pedro Machado / Joaquim Henrique do Carmo / Eduardo Augusto Calado / Manuel Lúcio Ramos.
Devem ter conversado com o Amadeu Campanelas, guarda-livros que é o sócio nº 1, e com o moleiro José Gama, o sócio nº 2, com o comerciante Joaquim Afonso da Silva, sócio nº 3, e com o barbeiro Paulo Ambrósio Neto e muitos outros, em 1928, e todos juntos aprovaram os estatutos em assembleia geral realizada a 10 de abril de 1929.

Constituída a Sociedade, esta desenvolveu-se rapidamente, tomando um lugar central na vida dos messinenses. Durante várias décadas, praticamente todos os homens de Messines eram sócios. As mulheres só entravam acompanhadas, nos dias de festa. No livro de registo de sócios encontrei em 1972 a primeira sócia, mas tenho algumas dúvidas porque refere “doméstica” como profissão, mas com a idade de 13 anos…?

Passam os anos e praticamente não existem sócias, até 1989. Uma data que não é coincidência, é o ano da fundação do Grupo de Teatro Penedo Grande, que nasceu como Grupo de Teatro da Sociedade e ainda hoje nos acompanha, com grande orgulho nosso. Nessa altura o grupo era constituído só por mulheres e foi assim que as mulheres se tornaram sócias.
Por muitas etapas tem passado esta casa. Foi a escola de muitos operários, trabalhadores do comércio, pedreiros, carpinteiros, pequenos comerciantes. A riquíssima biblioteca da Sociedade, com livros, jornais e revistas abria os horizontes de quem tinha saído muito cedo da escola e não conhecia senão Messines e pouco mais. E havia até aulas em grupo, onde os mais instruídos em determinada matéria ensinavam os outros.
E depois houve aquele grande momento em que se comprou a primeira telefonia, uma verdadeira novidade para Messines e as pessoas juntavam-se para escutar as notícias e os programas. E depois a primeira televisão, comprada a prestações, com a ajuda de sócios mais abonados.
E não seria justo falar da Sociedade sem nos referirmos ao seu papel de viveiro de ideias e ideais revolucionários, antifascistas e socialistas. E por isso uma casa sempre vigiada pela PIDE e seus informadores, mas sempre firme nos seus ideais de através da educação e da cultura elevar a consciência e melhorar a vida da população.

Hoje a Sociedade faz 90 anos. Há 10 anos atrás esteve muito próxima de não comemorar os 80. Teria encerrado se não fosse o Grupo de Teatro Penedo Grande, que pagou muitas rendas. Toda a história da Sociedade, como a de todos os organismos vivos, é feita de várias fases, e a Sociedade já passou por muitas crises. Lendo os livros de atas antigos vemos análises que podiam ter sido escritas hoje, o problema dos jovens não se interessarem pelas coletividades, a dificuldade em conseguir dirigentes associativos… a que hoje juntamos a dificuldade de captar novos públicos para as atividades…
Estes problemas são comuns a todas as coletividades e muitas associações e pensamos em como será o futuro. Se chegaremos aos 100 anos. Não sei. Neste momento, a Sociedade tem uma Direção em exercício porque já se realizaram duas assembleias e não apareceu nenhuma lista concorrente.
Por isso, decidimos continuar e iremos apresentar uma lista para ser votada na assembleia que se irá realizar no dia 18 de março e é com alegria que dizemos que iremos contar com novos membros, pessoas que concorrem pela primeira vez para os órgãos sociais.

Este trabalho à frente da Sociedade é um exercício de persistência, é um exercício a que nós damos o nome “para não fechar as portas”. Porque acreditamos que a Sociedade é um bem que merece o nosso esforço, é um ideal que teve o seu lugar na comunidade messinense e que deve ser defendido porque não são assim tão claros os tempos que atravessamos e porque acreditamos que as forças escuras do populismo, do racismo, da discriminação, do machismo, das notícias falsas na internet, só podem ser combatidas através da Educação, da Cultura, da Arte e do Convívio que gera a Amizade.
E também porque acreditamos que ainda temos um papel no aspeto recreativo… não existem já os bailes de antigamente que tantos amores viram surgir, mas continuamos a fazer a nossa matiné dançante às tardes de domingo, proporcionando momentos de encontro e muitas vezes de fuga à solidão desta população messinense tão envelhecida….

Hoje estamos em festa e olhando para o futuro vemos grandes desafios à continuação da nossa Sociedade, é preciso garantirmos a nossa independência financeira, que passa por conseguirmos ter o nosso bar a funcionar e a trabalhar bem e aproveito por isso para desejar sucesso ao Luís e à Vera que estão empenhados em levar para a frente este espaço, e é preciso que os sócios não abandonem a Sociedade e que venham novas pessoas, com novas ideias e vontades.
Vou dizer a verdade, e dizer que os últimos tempos não têm sido fáceis, vários sócios se afastaram, ou porque não concordam que o bar esteja arrendado, ou porque não lhes são dadas as regalias que acham que têm direito, ou porque não gostam da Direção. A todos esses eu digo o que sempre tenho dito: apareçam, venham às assembleias, conversem connosco, apresentem sugestões. Esta é uma casa de todos os sócios e de todos os que queiram ajudar.

Com o avançar da idade acredito cada vez mais que todos nós nascemos com um propósito na nossa vida. Que a vida não pode ser só comer, trabalhar, dormir. Que a vida não pode ser só vivida em função de nós. Se queremos um mundo melhor, para nós, para os nossos filhos e netos, temos de dar a nossa contribuição. Todos podemos dar. Todos devemos fazer parte da construção. Não por esperarmos ser recompensados, nem tão pouco reconhecidos. Mas porque essa é a prova da nossa Humanidade.
Aqui, nesta mesa estou rodeada de pessoas que muito contribuem diariamente. E nesta sala vejo muitas outras. Umas têm dado o seu contributo aqui na Sociedade, outras em outros locais, não interessa onde. E outras houve que também o fizeram, no seu tempo. E assim chegamos aos 90 anos da Sociedade, de porta aberta, com tantos amigos aqui reunidos. Algures aí no cosmos há de haver um grupo de messinenses a olhar cá para baixo e a dizer “olha lá aqueles maganos, lá conseguiram chegar aos 90 anos…” entre eles, estarão muitas pessoas que nos são queridas… familiares e amigos.

Neste dia que é de festa e de orgulho, um agradecimento especial a todos os que nos precederam, aos Dirigentes e Sócios desta Sociedade que possibilitaram que chegássemos até hoje. E a todos os sócios que continuam a sê-lo, que continuam a pagar quotas, a participar nas assembleias, a vir beber um café, a comparecer nas iniciativas. Pois só assim faz sentido.
E também um agradecimento muito sentido à Câmara Municipal de Silves e à Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines, por todo o apoio que nos têm dado, querendo aqui destacar que, a partir do ano passado, a Câmara de Silves começou a ter em conta que a Sociedade não tem sede própria e que tem uma despesa adicional com a renda, e reforçou significativamente o apoio que nos é concedido. E este ano, com as dificuldades que passamos, esse apoio foi absolutamente essencial.
Quero ainda, em nome da direção da Sociedade, e também em meu nome pessoal, fazer um agradecimento não à Câmara ou à Junta mas à Rosa Palma e ao João Carlos, porque o interesse e a preocupação deles pela Sociedade tem ido muito além dos apoios oficiais… E também à vereadora Luísa Conduto e à Luísa…
E agradecer também ao Vítor Carapinha, dirigente da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura Recreio e Desporto, pela presença constante nos nossos aniversários, mas também o interesse, os conselhos e o carinho que nos tem dado.

E não poderia terminar sem agradecer de uma forma muito especial àqueles que me têm acompanhado nos últimos anos, nesta aventura às vezes tormentosa de “levar a Sociedade para a frente”, como costumamos dizer. Muito obrigado à Lisete Martins, Lurdes Cabrita, Paulo Gomes, Jorge Correia, Bruno Cortes, Hélia Coelho, Fernanda Vieira, Cuca Fiadeiro, Mónica Gonçalves, Luciano Bravo.
Nem sempre foi fácil persistirmos, mas mantivemo-nos unidos, ligados por uma amizade que foi crescendo…

E por último, agradeço a vossa presença, amigos, sócios, convidados. Obrigado por estarem connosco neste dia tão especial e quando saírem daqui passem a palavra de que a Sociedade de Instrução e Recreio Messinense é uma casa que está aberta a todas as pessoas, é uma casa que está viva, tem iniciativas e tem futuro.

Longa Vida à Sociedade de Instrução e Recreio Messinense!

24 de fevereiro de 2019
A presidente da Direção
Paula Bravo

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