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Reading: Memórias Breves (14) – “Les Misérables”
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História & PatrimónioSociedade

Memórias Breves (14) – “Les Misérables”

Teodomiro Neto
Última Atualização: 2019/Fev/Qua
Teodomiro Neto
8 anos atrás
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Iniciei a minha leitura desta obra universal que o escritor francês, Victor Hugo publicou, a 3 de Abril de 1862. Eu era um garoto que havia feito o meu exame, na época, dito de 4.ª classe, quando o meu avô-padrinho me levou à leitura desse admirável romance. Lembro: “Vem cá. Já sabes ler. Já és um “homem”. Dito numa alegria. Fomos ao lugar de guardar o que não deveria estar à vista: num baú, cerrado, estava a sua “biblioteca” coberta de roupa. Retirou um grosso livro. Levou-me para uma pequena divisão a que se dizia ser “sala”. Eu olhei o livro assustado, pelo tamanho e pela capa de coiro. Abre, disse-me, acrescentando: “É um tesouro. Lendo-o, fará de ti um homem . Eu fiquei no futuro, por um tempo de leitura. No entanto, não me foi difícil entender “ Les Miserábles”. A minha primeira cartilha para entender o que viriam a ser os miseráveis do mundo e do meu país.

Nesse período da minha juventude havia uma plêiade de escritores proibidos, ou assim-assim; alguns neo-realistas; os naturalistas como Eça de Queirós com os “Maias”, ou Ferreira de Castro com “A Selva”. “Os Capitães d´Areia” de Jorge Amado. Isso, sim. Era um perigo! Vivíamos em leituras proibidas, “perigosas”, assim classificadas. Mas nada mais me interessava, quando cheguei à leitura do entendimento nos meus anos que se seguiram, que “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. Seria um “romântico” juvenil! Não admira que em fim, quase, de século XIX, a obra de Victor Hugo, chegasse como uma obra avassaladora, mesmo classificada de obra “romântica”.
Há que o aprender! Lendo, entendendo, ouvindo, se diz que o mundo tem duas partes… Temos! Metade dele pertence em riqueza, somente a 26 milionários, que são meio mundo. A outra parte, a enorme de milhões, pertence à metade dos sem fortuna, dos sem nada, mas que a produzem para os tais 26 do meio mundo. Estes alcunham os restantes biliões de indivíduos pobres de todos os epitetes. Mas eles são os “26 MISERÁVEIS”, na óptica que Victor Hugo classifica na sua monumental obra . “Les Misérables”.

Já nosso educador, João de Deus, tão bem o entendo, nesse tempo, nesse século inicial da modernidade política, científica e social, a preparar-se para os inconvenientes dos “miseráveis” poderosos, o sentiu. O educador da nacionalidade portuguesa, nascido ao Sul, sentiu o fim dessa personalidade de cariz mundialmente publicada: amado e odiado. Sentiu a perda dessa figura fulgurante do século XIX. O Victor Marie Hugo, nascido, como o nosso poeta, na província. Victor Hugo, filho de um general do Império, Joseph Hugo, teve uma educação clássica dos latinos e poetas franceses, vindos do século XVIII, fornecendo-lhe vasto campo de leituras. Muito jovem entrou, no que se possa considerar, hoje, no melodrama, com “A Ignez de Castro (1817)”. Abandonou os estudos para se dedicar às letras. Foi um admirador de Camões, nos Lusíadas. Outro vulto universal, renascentista, “esmagado” pelo poder real e dos “miseráveis” do tempo inatendível à personalidade do pensador: Poesia, Teatro, Cartas, Etc.
Victor Marie Hugo é reconhecido como virtuoso no manejo do vocabulário. Aos 25 anos publica Cromwell. Mas é com às classes desprotegidas dos trabalhadores, que o francês dedica a sua imensa obra publicada, amada e odiada. Com os livros: “Les Travailleurs de la Mer” e “La Légende des Siècles”, a grande epopeia que impressiona vivamente as classes mais populares. Em 1871, com a República, é eleito deputado… mas angustiado, abandona a vida pública. É nessa capacidade de simpatia universal, na sua função social e humanista, que surge como um “mago”. A sua obra discutida, exaltada ou censurada, marcou profundamente toda a literatura universal, do século XIX e transportada para o século que se seguiu.

Victor Hugo e João de Deus, cada um na sua dimensão geográfica, cultural, política e económica, marcaram uma irmandade. Um teve o Universo, o outro um canto peninsular. Ambos foram idolatrados e odiados. Foram poetas do Povo, tiveram assento em parlamento. Um morreu sem miséria, o mundo pagou a sua obra. Outro morreu sem casa própria, contando os tostões… A sua fortuna foi a sua “Cartilha Maternal”. Ambos repousam na Casa dos Notáveis, nos seus respetivos Panteões Nacionais: Paris-Lisboa. As suas vidas, no tempo, foram próximas.

Quando o seu admirado Victor faleceu, em 1885 – Paris, João e o mundo ficaram de luto. João de Deus deixou-lhe a sua admiração: VICTOR HUGO / Corre a nação aflita/ A ver se ele está morto / Quem sabe ?/ O mundo absorto / Espera a decisão… / Que as multidões se assomem / Que apalpem, tudo hesita ; / Porque era aquilo, um homem / Um simples homem ? / Não !

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PorTeodomiro Neto
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascido em 1938. Concluiu licenciatura em História e o doutoramento em "História Política Europeia". Professor universitário, em França, ( entretanto aposentado), tem colaborado com diversos jornais nacionais e regionais. Tem publicadas várias obras no âmbito da história regional, teatro e romance. Entre outras distinções recebeu a Medalha de Mérito Ouro da Cidade de Faro.
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