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Memórias Breves (13) – A cidade das minas

ERA véspera de Natal quando desembarquei na gare do primeiro comboio que se iniciara em França, a gare de Chateaucreaux, na capital de La Loire. Caía um nevão, naquela noite, que me reteve no imóvel centenário de tijoleira vermelha, nesse respeito do tempo histórico. Aguardei por um táxi. Mas nada se movimentava nessa noite de 24 de dezembro.

Um funcionário conduziu-me a uma pequena sala de espera onde mais três passageiros  se encontravam, aguardando. Certamente, numa cidade como Paris, tal amabilidade não viria ter comigo. Eu e os outros passageiros ficamos aguardando que o nevão passasse. Éramos todos jovens e todos estrangeiros, e ali estávamos por situação comum. Seriam 23 horas, o funcionário veio e, num cumprimento natalício, o tradicional beijo no rosto de cada, numa tradição secular. Imagino.

E nesse bavardage se iniciou uma tranquilidade à espera da manhã, que chegou, indo cada um aos seus destinos: o espanhol, o polaco e o italiano. A manhã chegou em continuidade de tempestade de neve. A gare num silêncio de pequena cidade de meio milhão de habitantes. Aventurei-me à tempestade. Talvez um táxi!? Mas um vazio se mantinha. Fui andando, num desconhecimento. Um passeio no que me pareceu uma avenida. Um enorme monumento aos mortos da 1.ª Grande Guerra, simbolizando 40 milhões de vítimas. E de entre eles, jovens portugueses. Dava para ver. Fotografei, visualmente o monumento, que me pareceu horrendo, pelo significado, em pedra negra, que os anos marcaram. Andando, topo uma luz de cor viva. A iluminação pública que  era imperceptível, também pelo nevão. Chego a um  bistro: café taberna, muito movimentado por homens, que logo vislumbro serem mineiros. Falavam alto, num francês arrastado e quase incompreensível para o meu conhecimento.

Eu era um estranho, aceite pela indiferença. Peço um café bem quente, acentuei. O rapaz serve um café e um cálice de um conhaque. Repentinamente, uma jovem mulher entre de rompante, sacudindo a neve. Num bon-jour les becs. Num cumprimento aberto. Senta-se à minha mesa, num à vontade natural. Peço mais um café para a minha inesperada convidada. Olhei-a muito bem no rosto perfeito de jovem mulher! Acendeu um cigarro que ficou entalado entre os dedos. Os mineiros continuavam nas suas conversas imperceptíveis, para mim. A rapariga, vestida de negro, como a cidade, pede-me lume para o cigarro. Não fumo, digo. Pergunta-me se sou grego. Que não. Se sou espanhol. Que não. Acrescento: português! E logo eu na pergunta. E a menina? responde-me: Moi? je m´appele Putain. E di-lo numa gargalhada de neve. Pede a um mineiro que lhe dê fogo ao cigarro. Depois, fixando-me, e abalando, lança-me uma baforada de fumo numa saudação: Bien venu, le portugais. Pela vidraça dei um olhar. Mal a vi envolta na imensa neblina matinal. Como numa aparição!

Pedi outro café, só café e bien chaud. Lembrei a minha Mãe na confecção do café, quando a chaleira deitava o fumo, ela lançava uma brasa vermelha, logo a borra descia, dando lugar a uma bebida muito  limpa. Foi uma necessidade para o dia de Natal. Estava a gostar da pequena cidade dos mineiros, de Elise Gervais, de Jules Massenet entre outros. Era o início de um conhecimento profundo que se iniciava em mim, nessa descoberta de cidade dos mineiros, das fundições, dos inventores dos ciclos, do armamento, das sedas, etc, etc. Uma cidade do trabalho, como se afirmava. Cidade de fumos e imóveis cobertos de negritude, nessa noite branca de neve… Ali fiquei, no agasalho do bistro. Não me foi necessário perguntar quem era  aquela gente de lanterna sobre a testa para entender a profissão do mineiro. Que a cidade os tinha aos milhares. Mas trabalhar em dia de Natal!? Interrogava-me.

Na pequena praça quase medieval, assim me pareceu, chamada du peuple, rolou um táxi que me levou a um hotel. Bem precisava! Ao chegar, perguntei a direcção do local: Avenue de la Libertation. Informa-me, num bom, Noel!  Dormi sem me aperceber da festa que se festejava, num sono inteiro.

Não me foi difícil entrar nos meandros da cidade de sete colinas, como Lisboa. Numa vegetação , num bosque imenso que cercava a cidade de Saint-Etienne. Uma terra tranquila, uma população que me surpreendeu pela simplicidade. Nada se parecia com as cidades que deixara, mais perto a Genebra Suíça, mais acima a grande Paris.

Ali estava aguardando um futuro de filhos. Afirmando, no silêncio cognitivo do meu Penedo Grande, quando necessitava de solidão. Procuro trabalho para o meu “sonho”, declarado em mim mesmo: a tese necessária e exigida pelo meu Mestre Armand Guibert: Minas, Fundições tudo se encontrava na cidade do trabalho. Uma população plural: de gente branca, morena negra. De gente simples, ao meu agrado de viver, de conviver. Uma multiplicidade de gentes: Africanos, como tunisinos, argelinos, turcos, etc. Europeus, como gregos, italianos, polacos, espanhóis, entre gente de outros povos. Ali, numa cidade necessitada de ser reconstruída. Cidade produtora de armas, sofrida pela ocupação alemã e bombardeada pelos americanos. Ali estava eu, a ir ao encontro de uma cidade mártir, ainda em recuperação. Como era laboriosa nessa diversidade de homens, mulheres e trabalho. Uma Universidade fresca à minha espera. Uma comunidade europeia e africana, num mélance que não me incomodava. Assim vou aprendendo, vou ensinando, vou escrevendo: “La Nuit de Saint-Etienne”, “L´Agonie de Elise Gervais”, “Massenet un Stephanois dans le  Monde”, “ Picasso et Porfírio “, entre outros escritos. Que as memórias são breves.

 

 

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