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Memórias Breves (11) “Viver África em tempo de guerra”

“Viver África em tempo de guerra”

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ADÉRITO FERNANDES VAZ, para além de jurista do CENTRO Regional de Saúde do Algarve, enquanto no activo, nunca abandonou, em jornalismo, os acontecimentos, fazendo parte da “família” jornalística algarvia. Ainda a publicação em edições de temática histórica regional. Vários livros publicados. No seu penúltimo livro editado em 2017, traz uma memória de guerra por Moçambique. Assim foi o tempo moroso, em plena selva daquela antiga colónia africana, gerida pelos governos, antes do 25 de Abril. Sempre trocámos livros, conteúdos históricos, e este viver em África em tempo de guerra tocou-me. É essa memória real e trágica que não deixei de partilhar. Viver África em tempo de  Guerra, ainda com sangue escorrido, é a minha escolha desta memória.

Pinturas de Jorge Bravo

 

Assim foi um tempo moroso, em plena selva de Moçambique, que se desenvolve uma narrativa concreta, no decorrer de um conflito bélico, em que a juventude, entre 60/70 de século XX, suportou em tragédias. E, é, num espaço bélico, em plena selva, em que um quartel feito, construído, em matéria local: barro e troncos de árvores; alimentos  caídos do céu, via aérea, sem outros contactos, que aquela cerca de centena de jovens, na flor das idades, foram coagidos a viver e morrer. O futuro Jurista, hoje em reforma, retrata esse período entre o humor e a dor. Fotografa em memória visual os acontecimentos, as pequenas “alegrias” de convívio com os nativos e camaradas de guerra, os acontecimentos diários.

As palavras escritas, cruzam-se com as imagens: pretos e brancos. O testemunho fotográfico de 64 imagens, numa elocução que cada qual retira com viver em plena selva, num exercício. nas passividades locais e dos seus naturais. O livro é um documento mais fotográfico, por vezes a “banalidade” da palavra perde-se. O relator exerce um certo fascínio de convívio com os naturais, assim como os jovens “guerreiros” que se encontram sob o seu comando, algures, num mundo incerto, onde os perigos, bicho e homem, se confrontavam. As palavras cruzam-se com as imagens: Pretos e Brancos, parecem, (num fotográfico) conviver em costumes rituais, danças, afectos, que todos são humanos, numa vida de pessoas. E o então jovem militar conta: Quando, durante longos meses,  tem à sua responsabilidade as dezenas de jovens, em que se esquecem da guerra. Confraternizam. Partilham os alimentos com os naturais e, quando os aviões sobrevoam num espaço reconhecido, despejando enlatados, num calendário  irregular. É uma festa! Os nativos vêm à comida, sentam-se, bailam, confraternizam nas suas linguagens próprias. Os jovens soldados portugueses assumiram  o compromisso de respeito. E as armas calavam-se, lado a lado. A ciência médica era uma permuta natural e química. As danças, um exclusivo dos nativos, no entanto, o  militar superior tinha o convite de dançar com a mulher do régulo. E assim o destacamento dos jovens soldados portugueses ia aguentando o tempo criado pelo superior do destacamento, numa máxima de sobrevivência e respeito.

O livro coloca o leitor, mediante a observação, de alimentos, acasalamentos, danças rituais fotográficos, como se vive em diferentes conceitos chamados civilizacionais e extrema naturalidade: vivências e sentimentos, costumes, sociabilidade, astrologia, medicina natural. E tudo tão natural ali vivido e aprendido, numa circunstância bélica que mais que enlatados, nada mais davam, em sentimentos ali vividos e aceites. Naturalmente, os medos que afectam as povoações  nativas, quando os “pássaros” de fogo lhes sobrevoam as povoações, logo os batuques, as “vozes” das aves, e as falas das pessoas se silenciavam. Depois vinham as graças das crenças ali criadas e ali sustentadas pelos isolamentos, por onde  os passos do homem branco nunca ou pouco trilhou. E o  destacamento pedia nas suas orações, tal como os nativos, protecção dos deuses. O autor ia guardando imagens visuais e pela escrita, num caderno de campanha, as civilizações da selva e das cidades, afirmando : “ Quando cheguei a África, no território de Moçambique, no fim ocidental do Distrito de Tete, na parte do antigo mapa – Cor-de-Rosa, actual país da Zâmbia, percorreu-se  picadas, passou-se árias de capim que teve de ser segada à catana para proporcionar passagem. Atravessou-se  matopes que eram charcos  de lama sugosa. Caímos em febres ferozes, que as águas dos rios contaminados causavam. Havia que parar e havia que avançar. Voou-se por lianas de altas árvores até chegar  à savana onde abundavam leões, porque capturar um rei da selva seria salvar um engano (…) Havia grandes raízes, cujas pendiam dos troncos, numa Natureza nunca alterada pela mão do homem e, imitando cenas dos filmes de Tarzan. Voou-se como se fosse uma condição de grande pássaro. Eram lianas, como cabos de ferro que nos sustentavam nessa aventura de guerra e de sobrevivência, apoiados na juventude de onde, nos perigos, renascíamos.

Adérito já publicara “Rumo a África”, nessa viagem inicial imposta pelo belicismo da época ditatorial. Um Homem formado em Direito, em que a História lhe ocupou uma responsabilidade complementar.

 

 

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