« Senhor António Costa, eu sou da serra de Silves, e escrevo pra lhe dizer que a minha serra tem vida, ou melhor tinha vida, para além da vida humana. Tinha uma das maiores populações de cervídeos que com todo o esforço trouxemos a este ecossistema nos anos 90, tem javalis, águias, bufos reais, raposas, texugos, saca rabos, coelhos bravos, e esses não se safam, nem têm mangueiras para apagar fogo.
E tem ou tinha uma série de plantas e árvores que nos davam o oxigénio que tanto precisamos para respirar neste momento.
Mas esta vida que lhe falo, está morta e estará durante muito tempo.
Escrevo para lhe dizer que a minha tia que teima em ser pastora, está bem e conseguiu salvar casa só com ajuda dos seus, e digo_lhe mais ela e tantos outros pastores não terão pasto durante tempos para alimentar os seus animais, a outra tia que deixou a cidade para voltar à serra não terá nem um pauzinho de esteva para atear o forno e cozer o seu pão, e nem o seu vizinho terá medronho para a destila que lhe dá de comer, e nem o vizinho da frente terá cortiça durante para reforçar a miséria de pensão que ganha.
E, muitos não terão o porquinho para tirar o presuntinho para a feira local, e veja lá o senhor, que nem o meu marido nem tantos outros apicultores terão mel de rosmaninho, tão apreciado no estrangeiro, mas a portucel e outras celuloses engordarão os bolsos a olhos vistos.
E sabe, será assim com a minha família, e com as famílias dos vizinhos, e ainda com tantas outras família dos serrenhos de silves e de Monchique que praticam uma coisa económica que se chama de economia sustentável.
Sabe os habitantes do Talurdo reabitaram a aldeia, reergueram, até existe um marca de bebidas a talurinha, veja lá o senhor que este neto de gentes dali, foi criar o seu negócio na serra, e agora vê_se em perigo com este fogo.
Sabe, a Quinta esteve em perigo e tanto trabalho que deu construir tudo aquilo, e sabe que mais os postes de electricidade e de telefone que os autarcas anteriores colocaram na expectativa de melhorar as condições das gentes também arderam, olhe e ficaram sem luz, assim não o ouvem, nem assistem ao seu discurso.
Senhor Primeiro Ministro digo_lhe ainda que a minha autarquia vigiou, limpou terrenos, criou linhas de corta fogo, para que carros de bombeiros tivessem acessos e combatessem e nos protegessem, mas a sua Patricinha, não os deixou entrar para o combate, e de nada nos tem valido esse esforço e esse gasto, as coisas mudaram e sabe talvez devessemos ter feito sinalética nos céus, ou comprado drones assim das estradas alcatroadas conseguiriam chegar até nós.
E sabe ainda que mais, então não nos dizem todos os dias que devemos combater a desertificação e viver a serra, eu vivo a serra desde que nasci, os meus avós ensinaram_me a respeitar o ambiente a proteger as espécies porque sem elas algo correria mal., e de repente vimo_nos num deserto negro de cinzas.
Senhor primeiro ministro, escrevo_lhe ainda para lhe dizer que a serra de Silves, cumpre a limpeza de terrenos e todas as distâncias das paredes vizinhas, tá feito o trabalho com a sua ajuda.
Agradecemos o seu empenho e lamentamos ter importunado as suas férias. Digo_lhe ainda que não necessitamos da sua ajuda, porque saberemos reerguer_nos e respeitar o que é nosso. E digo_lhe ainda que há bandos de aves vivas assustadas , mas cerro do Penedo Grande está a alojá_las o barulho foi ensurdecedor hoje de manhã.
EU SOU SERRA DE SILVES, e estou de luto, tenho a alma da cor do céu do Algarve.»
Texto de Hélia Coelho









Eu estou longe, perdido no meio do oceano Atlântico, mas não deixo de estar ao lados dos meus que vivem em Silves e hoje como ontem e amanha, Serei sempre Silvense, tenho os olhos razos de água por ver essa terra toda queimada e os Senhores Ministros, engravatados, a dizerem que não há regra sem excepção. Razão tinha Marcelo Caetano, estávamos a construir uma Suíça nova, agora vieram meia dúzia de Senhores, estragaram tudo o que estava feito. Obrigado por ajudarem a destruir Portugal.
Força Silvenses, havemos dos nos erguer.
Não tenho palavras para descrever o quão triste e desgostosa me sinto por ver que estão a matar o meu país … espero que toda essa escumalha de dirigentes & Co. sejam um dia bem castigados pelo que estão a fazer.