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Ferramentas criativas contra o radicalismo e populismo- Al Teatro participa em encontros internacionais

Elementos da companhia de teatro silvense Al Teatro têm participado em vários encontros internacionais de jovens. Neste último, realizado na Turquia, tiveram oportunidade, entre outras, de conviver de perto com a questão dos refugiados.
Um relato destas experiências, feito por uma messinense que tem participado nestes encontros.

No mês de julho, a companhia silvense Al Teatro participou num encontro transnacional, em representação de Portugal, na cidade turca Diyarbakir. Através do programa Eramus +, promovido pela Comissão Europeia, com o objetivo de debater e trabalhar temas transversais aos diferentes países, bem como promover o diálogo intercultural.
Esta foi a terceira vez que o Al Teatro representou o nosso país em Diyarbakir. A primeira vez foi em 2015, onde estiveram representados oito países: Portugal e Turquia, e também Itália, Bulgária, Letónia, Hungria, Inglaterra e Roménia. O seminário teve a duração de uma semana e foi subordinado ao tema “O desemprego jovem na Europa”. A parceria com a Associação Youth and Change mantem-se, pelo que em novembro de 2016, o Al Teatro esteve presente num outro encontro cujo tema de trabalho foi “O humor nas diferentes culturas”, no qual estiveram presentes Portugal, Espanha, Itália, Turquia, Hungria, Letónia e Bulgária.

O grupo de jovens participantes, de vários países

O tema de trabalho deste último encontro foi dedicado ao radicalismo e ao populismo. O curso de formação “Ferramentas criativas para iniciativas jovens contra o radicalismo e o populismo”, decorreu durante uma semana e contou com a representação de Portugal, Turquia, Alemanha, Bulgária, Hungria, Itália e Espanha.
Debateram-se as diferentes realidades de cada país e também os pontos comuns, partilharam-se experiências e conhecimentos, sempre no sentido de combater e prevenir as posições radicais como o racismo e a xenofobia, junto dos jovens com os quais trabalhamos mais diretamente. Também há sempre lugar para o conhecimento das diferentes culturas e a partilha das características e identidades culturais de cada país.

Os representantes de Portugal, Anabela Lourenço e Pedro Ramos (à direita)

O objetivo geral do projeto consiste em construir a tolerância em relação à diversidade cultural e encontrar raízes europeias comuns ao longo da participação ativa dos jovens, o que poderá ser um grande passo para prevenir a radicalização dos jovens. Os objetivos específicos do projeto: – Aumentar o entendimento nas abordagens educacionais em matéria de direitos humanos, principalmente em conexão com a diversidade cultural; – Desenvolver um entendimento sobre aspetos da participação ativa dos jovens e do modo crítico de pensar com elementos e métodos de educação não formal; – Conhecer a importância da diversidade cultural a nível local, regional e internacional e desenvolver habilidades e atitudes para motivar e envolver ativamente os jovens em projetos de juventude de direitos humanos como prevenção da radicalização dos jovens; – Desenvolver os conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para preparar, executar e avaliar uma oficina de diversidade cultural localmente e dentro dos intercâmbios juvenis; – Oferecer a oportunidade de conhecer grupos parceiros e desenvolver ideias concretas para projetos futuros com foco na diversidade cultural e na participação ativa dos jovens, a fim de evitar a radicalização dos mesmos.
Foi criada uma página de Facebook para divulgação do projecto, fica aqui o convite e o link https://www.facebook.com/Youareu-138643850059639/

Em Diyarbakir
Na primeira vez em que estivemos em Diyarbakir, vivia-se um momento de esperança para a população curda, sendo de referir que esta cidade é uma cidade do Curdistão, com património histórico-cultural, classificado pela UNESCO, com mais de 5.000 anos de história. Em 2015, a presidência da Câmara era do HDP (Partido Democrático dos Povos), em regime de copresidência por um homem e uma mulher, sendo uma das demonstrações da igualdade que o HDP defende e promove. O HDP defende também o ambiente e os direitos das minorias, nomeadamente os direitos do povo curdo. Estávamos em véspera de eleições, o HDP desejava obter 10% dos votos para puder eleger deputados e conseguiu 13,12%, tendo elegido 80 deputados, sendo o terceiro maior grupo politico no Parlamento.
A 15 de julho de 2016, e como foi divulgado pela comunicação social, houve uma tentativa de golpe de estado, que, ao que tudo indica, foi uma manobra de Erdoğan para prender e punir todos os que não estão de acordo com as suas políticas ditatoriais e perseguir o povo curdo. Assim, em pouco tempo assistimos à detenção de políticos do HDP, nomeadamente os presidentes do próprio partido e os presidentes da câmara de Diyarbakir, militares, advogados, professores, professores universitários, jornalistas, empresários e outros civis, só porque são curdos.
O sudoeste da Turquia esteve em guerra e ainda se encontra em estado de emergência. Na cidade velha Suriçi, em Diyarbakir, as suas paredes e os jardins adjacentes de Hevsel, foram classificados pela UNESCO como património da Humanidade em 2015. Contudo, e sem respeitar esta classificação o governo turco, em 2016 inicia um processo de demolição tendo já destruído uma parte significativa da cidade velha e o seu património, que afinal é de todos nós. Neste momento, parece que nada existiu lá antes, a limpeza e a remoção dos vestígios foi executada em tempo recorde, o acesso a esta parte da cidade está interdita pelas forças policiais. Resta-nos perguntar: onde está a UNESCO que fecha os olhos a estas atrocidades contra o património da Humanidade, reconhecido e classificado por ela mesma? Também o edifico da câmara municipal, ocupado e gerido agora por Ankara, que outrora era de livre acesso, neste momento está vedado e sob forte vigilância policial, as inscrições de outrora desapareceram e deram lugar a outras. Estão por todo o lado bandeiras turcas e fotos do seu presidente, para que ninguém esqueça quem manda no país. Assiste-se à construção desenfreada de prisões e mesquitas. *

Campo de refugiados
Para além do exposto, levantam-se inúmeras questões em matéria do respeito pelos direitos humanos. Em 2015, existia um campo de refugiados Jazidis, gerido pela Câmara Municipal, a população curda local também ajudou com donativos de comida, água, roupas e outros bens. Era permitida a entrada e saída destas pessoas, também era permitida a entrada de voluntários da associação que ensinavam as crianças e promoviam diversas atividades. Neste momento, este campo foi encerrado e os Jazidis são discriminados, obrigados a conviver com muçulmanos que os provocam e os agridem sob a conivência da polícia turca. Não podem sair do campo sem autorização prévia e quando a conseguem é apenas por algumas horas. Não podem levar consigo nem roupas, nem livros, nem brinquedos para as crianças, não podem levar nada consigo porque é-lhes retirado na entrada. Os voluntários foram proibidos de lá entrar e de prestar qualquer tipo de apoio. As condições neste campo são indignas para qualquer pessoa humana. Onde se coloca uma outra questão: onde está a comunidade internacional, e a União Europeia que envia dinheiro para a Turquia prestar auxilio a estes refugiados?*

Durante o mês de setembro o Al Teatro estará novamente em Diyarbakir a participar num outro projecto Erasmus+.Texto e fotos: Anabela Lourenço

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