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Terra Ruiva > Sociedade > Ambiente & Ciência > A borboleta-monarca do Concelho de Silves
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A borboleta-monarca do Concelho de Silves

Susana Amador
Última Atualização: 2016/Set/Sex
Susana Amador
10 anos atrás
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Foi há dois anos atrás que António Duarte, agricultor de 57 anos do concelho de Silves, começou a interessar-se por um fenómeno que lhe chegava literalmente às traseiras de casa. Na zona de Canhestros, onde habita, uma população de borboleta-monarca desenvolveu-se, maravilhando quem por lá caminha com a sua beleza inegável e as suas famosas asas cor-de-laranja.

António Duarte
António Duarte

António não conseguiu ficar indiferente à quantidade de exemplares da espécie de borboleta que começaram a aparecer nos seus pomares, e uma pesquisa rápida levou-o a descobrir que tinha em mãos uma daquelas descobertas que deslumbram qualquer amante da natureza e fascinam mesmo os menos interessados no assunto.

A borboleta-monarca é uma espécie de borboleta que não se encontra muito na Europa, apesar de ser uma espécie migratória. É protagonista da maior migração de borboletas do mundo, que ocorre a partir da América do Norte até uma pequena e única região do México, fenómeno inexplicável que maravilhou biólogos e cientistas durante décadas. Desde há muito, que atravessa também o Oceano Atlântico, fixando-se em certas regiões quando as condições são propícias, como é o caso de ilhas com climas amenos como os Açores, a Madeira ou as Canárias. Estas borboletas voam até 6000 quilómetros para chegarem à ilha da Madeira, revelando a sua resistência enquanto espécie.
Em Portugal Continental seria difícil observar exemplares vivos desta espécie, até que uma variante da planta hospedeira, onde as borboletas depositam os seus ovos, se dispersou por várias zonas do litoral alentejano e interior algarvio, principalmente em zonas ribeirinhas e várzeas fluviais.
É nesta planta, que comummente é chamado de algodão-bravo, que se desenvolvem e alimentam as lagartas, até completarem o ciclo da metamorfose. Esta espécie de planta não tem predadores e é venenosa para a grande maioria dos animais, exceto para a própria borboleta-monarca.
O algodão-bravo ou cotton-bush (devido às parecenças com um arbusto de jardim) não tem qualquer utilidade conhecida na atualidade, tendo sido introduzido na Europa como planta têxtil, para logo ser descontinuada a sua utilização anos mais tarde.
As borboletas começam a depositar os ovos nas folhas da planta hospedeira em finais de Setembro, com a mudança da estação, nascendo uma lagarta de verdes garridos que se alimenta das folhas tóxicas do algodão-bravo, ficando ela própria com toxinas que lhe permitem ser imune a qualquer predador.borboleta-site

A borboleta no Vale do Arade

Foi só em 2001, que o biólogo da Universidade do Algarve, Luís Palma se deparou com alguns exemplares da espécie de borboleta na zona da ribeira de Seixe, em Odeceixe, e decidiu ingressar numa investigação pelas zonas das ribeiras algarvias, que revelou existirem algumas pequenas e dispersas colónias. É nesta zona de Odeceixe que existe a maior colónia conhecida da espécie em Portugal Continental. De onde vêm as borboletas é um mistério, tanto podem ter viajado a partir das ilhas da Madeira ou Açores, como a partir da América do Norte.
E agora é possível encontrá-las também na zona do Vale do Arade onde o algodão-bravo é abundante perto da ribeira que passa no vale, mas também por entre as hortas e pomares daquela zona, condição que proporciona a fixação de uma colónia da borboleta no local.
Basta chegar a Canhestros, ou continuar o caminho estreito e pouco movimentado até ao Vale do Arade, perto do Cerro do Castelo, para se antever as cores características da borboleta-monarca.
António Duarte, que acompanha a visita e nos leva aos locais, explica que sempre se encontraram algodões-bravos naquela zona mas nunca em tanta abundância, e com a propagação da planta chegaram as borboletas, que foram ficando, tendo a população aumentado a olhos vistos, nos últimos dois anos.
É possível observar bastantes exemplares na zona da barragem do Arade, continuando-se por todo o Vale do Arade, e até à cidade de Silves, onde se consegue antever exemplares isolados nos jardins da cidade. Um circuito que pode ser percorrido numa agradável caminhada de manhã ou ao final do dia, altura mais propícia para a observação da espécie. As condições no Vale do Arade são excepcionais para a prosperidade da borboleta-monarca: clima ameno numa zona húmida, abundância da planta hospedeira e a inexistência de predadores.
António defende que este fenómeno merecia maior atenção, não só devido à sua importância do ponto de vista biológico, mas também em relação às potencialidades que traz ao concelho.
Para os amantes da natureza, a observação desta espécie revela-se como uma experiência única e de uma beleza ímpar, algo que pode ser aproveitado pelo turismo local. Este agricultor considera que esse pode vir a ser um projeto de futuro para as borboletas-monarcas do concelho de Silves. O Vale do Arade e a zona de Canhestros, apesar de isoladas, têm boas acessibilidades. Existe ainda a possibilidade de deixar o carro e fazer uma caminhada por entre os pomares em busca das famosas borboletas, no início ou no final do dia.

Por enquanto, a borboleta-monarca do concelho de Silves ainda não vem assinalada nos livros de Biologia, nem nos estudos feitos sobre a espécie em Portugal, mas pouco tempo demorará para se considerar este um ponto de interesse.
À velocidade que a colónia se multiplica, o Vale do Arade ficará pintado de cor-de-laranja com estes belos visitantes a assentarem arraiais.

 

Texto: Susana Amador / Fotos: Laura Gomes

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PorSusana Amador
Natural de S. Marcos da Serra, nascida há 22 anos. “Fui, desde que me conheço, uma curiosa, quis sempre descobrir mais. Identifico-me como uma pessoa das ciências sociais, a Ciência Política fascinou-me e licenciei-me nessa área. Sempre escrevi, a escrita, tal como a leitura, foram uma constante. O Mundo e a Humanidade fascinam-me, serei sempre uma defensora de ambos”.
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