No dia 20.09.2025, a Coleção Luís Negrão e Família, em colaboração com a Câmara Municipal de Silves, apresentou no Centro de Exposições de Alcantarilha a exposição “Homenagem”, com obras do artista plástico alcantarilhense Inácio José de Oliveira Mendonça.

Como o seu nome refere, a exposição foi concebida e apresentada como homenagem e tributo a uma das pessoas mais notáveis de Alcantarilha do século XX.
O conjunto da sua obra pictórica denota, como escreveu na folha de sala Hugo Santos Silva, curador da exposição, “uma leitura sensível de um território afetivo, em transparências plenas de nuances cromáticas… Largos horizontes etéreos traduzem a ruralidade algarvia, com reminiscências de autores do naturalismo português, como Silva Porto, Marques de Oliveira…”.
O refúgio em Alcantarilha e o autodidatismo não o isolou do mundo e a sua obra de arte reflete e acompanha os movimentos artísticos da época em que viveu, o que confere ao conjunto da obra uma modernidade e atualidade que persistem até aos nossos dias.
A notável obra artística produzida, nunca sujeita a inventário, nem objecto de estudos académicos, aguarda a atenção adequada e necessária da Câmara Municipal de Silves. A constituição de um acervo municipal com a sua obra é uma obrigação, para memória futura.
Para que não caia no esquecimento o seu trabalho e a sua memória seja recordada, publica-se a nota biográfica apresentada na folha de sala que acompanhou a inauguração da exposição.
Exposição: Homenagem
Inácio José de Oliveira Mendonça
Fase 1
Inácio José de Oliveira Mendonça nasceu no sítio do Monte de Boi, freguesia de S. Bartolomeu de Messines, concelho de Silves, no dia 02/11/1914 e faleceu em Faro, no dia 05/07/1984.
Ainda criança, acompanha os seus pais na mudança de residência para Alcantarilha, onde frequenta a escola primária, ingressando posteriormente no Seminário de Faro, cuja frequência é interrompida por dificuldades de integração social, e regressa a Alcantarilha.
No fim da adolescência recebe de herança de um tio paterno vários prédios rústicos e urbanos. Adquire a sua independência económica, o que vai proporcionar, saindo de Alcantarilha, conhecer novas pessoas em ambientes mais urbanos e ecléticos, como Lisboa.
Adulto jovem, bem-educado e com bom aspeto físico e possuidor de extraordinários atributos artísticos, é rapidamente aceite e integrado no mundo artístico lisboeta, então dominado por António Ferro e sua esposa Fernanda de Castro, que ficará sua amiga e confidente, para sempre.
Faz parte do corpo de baile e do grupo coral do Teatro Nacional de São Carlos e simultaneamente aprende a tocar piano e violino com Luís de Freitas Branco.
Apesar da atividade profissional artística ser de um nível superior, não lhe garante a independência económica desejada e com a redução progressiva dos recursos financeiros, é obrigado a regressar a Alcantarilha no início da década de 40, para nunca mais regressar a Lisboa.
Fase 2
Só em Alcantarilha e sem atividade profissional estável, vive tempos difíceis, sendo novamente obrigado a recorrer à alienação de bens patrimoniais.
Compra uma propriedade em Alcantarilha localizada a montante do lavadouro e junto à ribeira de Alcantarilha e que será a sua residência futura e definitiva.
Adquire um piano de cauda e um violino, aperfeiçoando a técnica de execução de ambos os instrumentos e inicia-se na pintura, num ato de puro autodidatismo, sendo os obras de arte, óleos sobre tela e aguarelas, o seu legado artístico mais notável e duradouro.
Pessoa de contato fácil, bom conversador e sem espírito de acumulação material (foi sempre materialmente pobre), viveu de forma simples e frugal, muitas vezes de dádivas de familiares e amigos, aos quais agradecia com a oferta das obras de arte que produzia.
Produziu centenas de obras de arte, as quais tinham a particularidade de não serem assinadas e datadas, e que hoje se encontram espalhadas pelas casas dos familiares e amigos, sem referenciação ou catalogadas.
Nunca vendeu uma única obra de arte. Não viveu ou sobreviveu com o recurso ao comércio de arte – não fazia parte da sua natureza.
Nos momentos mais difíceis da sua vida nunca exigiu nada a ninguém e a humildade foi sempre o seu cartão de visita que perdura até hoje na nossa memória.
Colaborou com as entidades públicas (Câmara Municipal de Silves) e com a Igreja de Alcantarilha, onde tocava órgão e ofereceu diversas obras de arte, para além do desenho e produção dos vitrais coloridos e do grande painel de óleo sobre tela representando a Virgem Maria entre os Anjos e que ainda hoje podem ser apreciadas na Igreja Matriz de Alcantarilha.
Fase 3
A homossexualidade de Inácio José de Oliveira Mendonça formatou toda a sua vida pública, artística e amorosa, e esteve na base das grandes decisões da sua vida, desde os tempos da escola, passando pelo período de “glamour” lisboeta e acabando no isolamento final em Alcantarilha.
Vivendo num tempo e num lugar (Algarve – Alcantarilha, 1914) em que esta orientação sexual não era aceite, foi muitas vezes humilhado e verbalmente agredido ao longo da vida. Vilipendiado na sua dignidade humana, resistiu orgulhoso, nunca abdicou nem recusou a participação na vida pública local, sendo hoje reconhecidamente uma fígura incontornável e marcante no pequeno mundo que é Alcantarilha.
É um privilégio a vila de Alcantarilha ter entre os seus pares uma pessoa com estas qualidades humanas, e é pelo trabalho em prol da comunidade e pela herança cultural que nos deixou, que sugerimos à Camara Municipal de Silves que adote o seu nome na identificação do Centro de Exposições de Alcantarilha.
Post-scriptum: Temos saudades suas quando batia à porta vestindo sobretudo abotoado até ao pescoço, de chapéu na cabeça, “echarpe” no pescoço e luvas pretas e das gargalhadas soltas nas conversas matinais do mês de agosto.
Texto: Luís Negrão
(sobrinho-neto de Inácio José de Oliveira Mendonça)









