Amiúde, menciona a diretora do «Terra Ruiva», Dr.ª Paula Bravo, nos seus editoriais, as abordagens que lhe são feitas por vários leitores, não raras vezes críticas, sobre a publicação reiterada de textos sobre história no jornal. Para muitos, tal não revela interesse nem utilidade, por se tratar de assuntos há muito esquecidos e perdidos na poeira dos tempos. Mas será mesmo assim?
As necessidades básicas do nosso dia-a-dia serão diferentes do que foram no passado? O modo como agimos e conduzimos as nossas vidas alterou-se substancialmente? Teremos alguma coisa a aprender sobre aqueles que nos antecederam e que viveram no mesmo território, que amanhã cederemos às gerações vindouras?
Se na generalidade os nossos dias se distinguem muito do passado, no essencial os objetivos de vida não são diferentes do que foram há séculos, ou mesmo milénios: alimentação, agasalho/conforto, uma família feliz, a que poderíamos adicionar saúde, entre outros.
Estes são propósitos que acompanham o Homem desde a sua existência. Depois continuamos a ser tão humanos, com os mesmos comportamentos, defeitos e virtudes, como todos aqueles que nos antecederam. É certo que a história não se repete, isto com os mesmos protagonistas, no mesmo local, mas como humanos que continuamos a ser, os erros podem-se repetir, em contextos semelhantes. Além de que conhecer o passado permite-nos um termo de comparação e com ele uma análise crítica e de antevisão ou melhor tendência relativamente ao futuro, ainda que nada esteja pré-determinado.
Por outro lado, conhecer a forma como todos os que nos antecederam e viveram neste mesmo espaço souberam lidar com os constrangimentos e dificuldades advindas deste território e aproveitaram os recursos e potencialidades do mesmo é meio caminho andado para o sucesso.
Imagine-se se a cada três gerações fosse necessário inventar tudo novamente? A roda, o automóvel, etc., etc.
Todos individualmente temos a nossa história, feita de aspetos positivos e negativos, que nos acompanha e ensina a não cometer os mesmos tropeções ao longo da vida. Ora o coletivo é, grosso modo, o somatório de todas essas vivências em torno do bem comum. Podermos aprender com esses erros é uma oportunidade que não devemos desbaratar. Compreendermos que nada é estático e que factores negativos hoje poderão ser uma potencialidade amanhã é estarmos despertos para, de uma forma inteligente, tirarmos partido deles.
Lembrar a índole industrial do concelho e os seus protagonistas, alguns de rara abnegação e altruísmo, como Salvador Gomes Vilarinho (1825-1883) ou Teófilo Fontainhas Neto (1911-1976), é não só um sinal de gratidão e respeito para figuras que marcaram indelevelmente este território, como os seus percursos biográficos e exemplos de vida nos devem inspirar. Desvalorizar personalidades como João de Deus, Ataíde Oliveira ou outras figuras, de diferentes períodos históricos, como os Descobrimentos ou a ocupação islâmica, é negarmos a nossa própria identidade.
Num contexto mais geral, a ascensão dos populismos, que hoje assistimos por esse mundo fora e no nosso país, em particular, não difere muito do que ocorreu há 100 anos e estou certo de que se soubéssemos história não estaríamos a acreditar em promessas vãs, que jamais aquelas forças políticas conseguirão cumprir, como não o conseguiram no passado, ou já nos nossos dias. Basta lembrar o que está a acontecer, desde 2010, na Hungria com a anulação paulatina da independência dos tribunais, da comunicação social, a limitação da liberdade de expressão, ou a alteração da Constituição, em suma a destruição da democracia liberal.
É inquestionável que em Portugal, nos últimos anos, a “utilidade” da história tem sido tema de discussão e de desvalorização no contexto do ensino e da sociedade em geral, tal como a filosofia. Como se o estudo e a compreensão do Homem não fossem necessários e um dever da sociedade.
Afinal, se a filosofia nos apela à interrogação e reflexão (algo em desuso nos tempos acelerados que vivemos), a história permite-nos compreender com humildade, não só quanto a nossa vida é breve, quanto a evolução e os retrocessos da humanidade ao longo dos tempos. A desvalorização de ambas é um erro que não devíamos cometer e do qual os nossos filhos e netos não nos vão perdoar.
Por tudo isto, acreditamos que conhecer a história, seja nacional ou local, constitui uma mais-valia, não só como termo de comparação e reflexão, mas de aprendizagem e de progresso em prol do bem comum.






