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Opinião

Algumas pertinências impertinentes

Paulo Penisga
Última Atualização: 2023/Nov/Sex
Paulo Penisga
3 anos atrás
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Ainda sobre as árvores e na sequência da elucidativa conferência do arquiteto paisagista, Gonçalo Duarte Gomes, promovida pelos Amigos de Silves, algumas breves considerações. De entre várias questões abordadas na comunicação, apraz-me relembrar o princípio de que a árvore é um ser vivo e não um objeto. Parece um entendimento básico, mas a indiferença e até o desprezo com que as ignoramos e tratamos não revela essa evidência.

Assim, mais até do que o conhecimento científico, o qual nem sempre é consensual, basta pensar, por exemplo, que um estudo de impacte ambiental pode ter opiniões tão divergentes, consoante os interesses em jogo. Interessa-me mais a questão da sensibilidade e das mentalidades em relação à presença das árvores no espaço público urbano.

No cemitério de Silves, há uma lápide numa pedra de forma rochosa, com a seguinte inscrição “Árvores (Koelreuteria elegans) plantadas em memória da amante da natureza Ailsa Lambe (1913 – 2001)”.

Fica no lado direito, ao passar o portão principal, no alinhamento do belo contorno arbóreo nascido da concretização deste último desejo expresso por esta cidadã estrangeira. Tomara nós que os pedidos, dirigidos às freguesias e câmaras, pelos nossos cidadãos fossem no sentido de plantar e não de cortar e abater. Esta espécie de árvore que dá umas bonitas flores vermelhas e embeleza o cemitério também já foi, anos atrás, alvo de um corte perfeitamente desnecessário.

É este amor, as emoções e as memórias que compõem os percursos da geografia sentimental da relação entre as nossas vivências e as árvores que me interessam aqui sublinhar, como gostei de ouvir, no decorrer do debate, a professora Margarida Santos dizer, emocionada, a tristeza que sente ao atravessar o jardim entre escolas, das árvores desaparecidas e por ela reconhecidas, tão despudoradamente eliminadas. E o também professor e amigo Jorge André, com quem brinquei nesse mesmo jardim da República, falar do seu desencanto e dos moradores da zona que o designam como Jardim de Pedra.

E termino, com a citação de um texto, íntimo e pessoal, escrito anos atrás, mas pertinente no caso. “Há um escritor libanês, de que não me lembro o nome, que disse que as raízes são um problema, prendem-nos demasiado à terra, ao lugar onde nascemos, ao país a que pertencemos. Às vezes penso que se não tivesse crescido tão ligado à velha casa de Silves, ao seu quintal e às suas árvores (plantadas pelo meu avô, pelo meu pai, por mim), à minha mãe e à sua transmissão de memórias e afetos; penso que talvez a minha vida fosse diferente. Teria ido mais longe, viajado mais. Teria mais distância no olhar e sentir e múltiplos abrigos pelo mundo.

Assim, ainda hoje me lembro das árvores, se não têm falta de água; e os frutos colhidos continuam a ser suculentas fontes de ligação de geração para geração. As árvores têm raízes na terra e os homens nas casas, os pais e os avôs como grandes copas protetoras.”

 

 

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