Inaugurado a 28 de junho de 1948, o Mercado Municipal de São Bartolomeu de Messines comemora por estes dias 75 anos, exibindo parcialmente uma nova pintura, na sequência das obras, que se encontram a decorrer.
Velha aspiração dos messinenses, o Mercado foi inaugurado na noite de São Pedro de 1948, pelas 22h00, conjuntamente com a electrificação da aldeia, pelos ministros do Interior (Cancela de Abreu) e das Obras Públicas (Frederico Ulrich), perante uma multidão estimada em 6 000 pessoas.
São Bartolomeu de Messines, segundo a imprensa da época, apresentava um ar festivo, colgaduras pendiam das janelas, as ruas encontravam-se juncadas, enquanto girândolas de foguetes e morteiros crepitavam nos ares. O corte simbólico da fita foi feito pela esposa do ministro Cancela de Abreu, seguindo-se uma visita às instalações. Para solenizar o acontecimento a Junta de Freguesia ofereceu um jantar de 50 talheres no Club Messinense. Ainda nessa noite decorreu, no novo espaço, uma verbena, que se prolongou até de madrugada.
Projeto do arquiteto Jorge Ribeiro de Oliveira, a infraestrutura ficou dotada de 6 estabelecimentos e 6 talhos, 48 bancas para venda de produtos hortícolas e lugares destinados à venda de peixe fresco e salgado, além de instalações sanitárias, arrecadações, etc. Foi construído em terrenos anexos ao velho mercado (demolido), expropriados para esse efeito, ocupando uma área de 1 645 m2. A obra iniciou-se dois anos antes, a 29 de junho de 1946, e ficou a cargo de João Gonçalves Palmeira, das Ferreiras, ascendendo o seu custo a cerca de 700 contos (atualizando, com as taxas atuais, o valor equivaleria hoje a cerca de 390 000 €).
Considerado na época um estabelecimento modelar, a sua construção, bem como a eletrificação da aldeia, tornaram-se prioritárias e urgentes após a Câmara de Silves ter conhecimento, em 29 de dezembro de 1945, que um grupo de messinenses solicitara ao governo a elevação da freguesia a concelho. Terminantemente contra tal pretensão, a autarquia constituiu com estas obras dois fortes argumentos desfavoráveis à emancipação dos messinenses, conseguindo impedir, mais uma vez, a sua autonomia.
Mais de sete décadas volvidas o Mercado Municipal carecia de obras urgentes, de atualização às novas regras de comercialização de alimentos e lhe devolvessem a dignidade de uma obra concebida no formulário arquitectónico comummente conhecido por «Português Suave». Entre outras caraterísticas evidencie-se a cor utilizada, o branco. Infelizmente, nos últimos anos aquela já havia sido substituída por outras, como por exemplo em 2006, quando foi pintado, pela autarquia de Silves, de rosa. Marco Santos, licenciado em Património Cultural, apelava em dezembro de 2006 a uma reflexão sobre a opção tomada, lembrando que «para além de obedecer a uma certa “normalização” arquitectónica, esta tipologia de edifícios estava geralmente sujeita também a um certo controlo da cor, onde a “alvura” do branco era para ser respeitada no programa arquitectónico, sendo este de uma forma geral de cunho mais tradicional que moderno».
Ao que acrescentava: «ora ao se executar uma intervenção deste tipo está-se a praticar a adulteração de um projecto arquitectónico que possui determinadas características porque está inserido num contexto muito específico, e só fará sentido se continuar a respeitar determinados requisitos sendo um deles o cromatismo original». Para depois concluir que tal «descaracterização, apesar de ainda ser reversível, não deixa de ser grave pelo facto de abrir precedentes» (Cf. Blog Cilpes – Património Cultural do concelho de Silves – Novamente a cor – 31/12/2006). Marco Santos voltou ao tema aquando a intervenção no Mercado de Silves, conforme o «Terra Ruiva», n.º 211, de abril de 2019, que contra pareceres técnicos, da opinião pública e de alguns arquitectos, foi pintado de amarelo.

Em São Bartolomeu de Messines, apesar da maqueta da obra exibir a cor branca, parece existir agora uma intenção em comutá-la para vermelho, conforme alguns alçados já exibem, constituindo, a concretizar-se, uma terrível alteração. Note-se que não está aqui em causa o gosto pessoal de cada um, mas uma intervenção num património que é de todos e que representa uma época, onde as caraterísticas, como a cor, têm que ser respeitadas e valorizadas, ou seja, mantendo a dignidade do edifício. Infelizmente os maus exemplos nas intervenções no património do concelho ultrapassam as diferentes cores partidárias, como demonstra a pintura em rosa levada a efeito em 2006 ou a recente em amarelo do Mercado de Silves. Se nos concelhos vizinhos as autarquias ganham prémios pelas intervenções nos seus mercados, em Silves elas são consecutivamente exemplo daquilo que não se deve fazer.
Volvidos 75 anos da sua inauguração, o Mercado Municipal de São Bartolomeu de Messines deve manter a sua cor original, o branco, pois a mudança para vermelho, não é sinónimo de modernização ou evolução estética, mas tão somente uma deliberação desinformada e infeliz, ainda que reversível. Acreditamos que autarquia não cometerá esse erro.







