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Opinião

Espetado e consolado

José Alberto Quaresma
Última Atualização: 2021/Mai/Sex
José Alberto Quaresma
5 anos atrás
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Andei tremelicante o fim-de-semana. No dia e hora aprazados, avancei. Rabinho entre as pernas. Aproximei-me do centro de vacinação.
Dois metros de latagão aguardavam-me à porta. O sorriso tatuado intimidou-me. Uma, também fardada, apontou-me a pistola de serviço no meio da testa. Disparou. Era de plástico. Não tinha munição. Nem febril eu estava. Mandou-me avançar. Acalmei.
De dois em dois metros, estacava. Via-me em pé coxinho, numa partida de macaca. À minha frente um jogador da classe dos indignados. Conhecia-me. A máscara era um fole a soprar raivas. Queria conversa. Para quê este disparate? Nós é que pagamos esta alarvice com o nosso dinheiro?!
Já não consegui ouvir o resto do arrazoado. Nem ver a nuvem de perdigotos que engoliu. Bem te conheço ó máscara, regurgitei, sobrolho franzido. Não sei o que fazes aqui. Não te deixes espetar, rapaz. Não aprecias a organização? Dá lugar a outros. O indignado avançava. Mantive a distância social ao blusão do coiro. Deixá-lo ir. Até ser engolido pelo basta.

Sentaram-me a preencher o totoloto. Cruzinhas no meio. Não, não e não. Tudo bem. Avance. Reergui-me. Sentaram-me de novo. Tenda 10. Glúteos free, contraídos. Os do latagão da entrada não deveriam ser tão graníticos.

Temi o pior. Da tenda surgiu um rapaz do sexo masculino. Entre, por favor. Pensei que ia deitar-me numa marquesa. Que não ousasse. Fosse o que Deus quisesse. Tive sorte. Não havia marquesa. Ao computador uma duquesa, loira, aliança no anelar, sorriso macio. Infundia respeitinho, a mim e ao colega enfermeiro.
Sente-se, por favor. O rapaz queria brincadeira. Imaginei. Tire a camisa. Em reservado, põe-se, não se tira. Pensei. Afinal só queria o meu ombro desnudo. E uma lasca de braço gorducho. Amaciou-o com gel embebido em algodão. O algodão não engana. Nem ele, espero. Espetou-me.

Não senti prazer. Nem dor. Nem ui. Nada. Profissional. Eram 12 horas e 35 minutos. Um atraso de 120 segundos. Inadmissível.
Sentaram-me, de novo. Virado para a bancada central. A cadeira tinha um contador de cozinha. Marquei os trinta minutos do prolongamento. Ao cimo, Richard e Filipe sobrevoavam, com o drone do olhar, o recinto de jogo. Não havia indício de fogo.

No terreno a partida era parada. Os jogadores extáticos. E eu entre eles, na fila de trás, na extrema direita. Não gostei deste lugar de indignados. Felizmente, a minha presidente veio trazer-me duas palavrinhas de conforto. Ficava ali a caturrar sem tempo. O chato tinha umas coisinhas para lhe dizer. O chato é redondo. Não tem arestas.

O alarme soou. Ala que se faz cedo. Ainda saí com a esferográfica do totoloto e uma garrafinha de água lisa da Nestlé, um despesão que a câmara pagou. Só faltou o copo de cristal, duas pedrinhas de gelo, um niquinho de irish 12 anos. Acho que mereço.

Em casa não imaginaram como gostei de ser espetado. Tudo como previsto. Organização exemplar. Cada um a saber o que fazia. E eu bem levadinho à certa, até ao espetanço final. Uff.
Um senão. Porquê eu e a vacina de Oxford, a da Astra Zeneca? Sim aquela mesmo que não cumpriu os contratos e falhou nas entregas? E logo direito ao meu bracinho gentil. Eu que não suporto o despenteado oxigenado que debandou da União a querer o melhor dos mundos, o de dentro, ficando de fora. Boris vai lá rejuntar o que ajudaste a escaqueirar. Apaga a mancha que criaste do outro lado do canal. Make you Britain great, again. Trata do teu apartamento. E deixa que alguém por ti regresse à nossa união.
Espetado e consolado? Nem tanto. No dia seguinte, a cabeça chocha, um vazio falhudo, a mona turva. Fadiga, dor nas articulações, arrepios. Tás velho, pá. Não foi o Boris. Ok. Mas a Ursula, como médica, devia impor-se. E mandar dar-me, como à Laura, a outra vacina que tem impurezas nos beiços quando se quer pronunciar, pf… pf…

E por que só daqui a três meses volto a ser espetado de novo? Porque me obrigam a uma fidelidade sonsa com esta que me possuiu sem a escolher? Gosto de ser fiel com as minhas amigas e infiel com as outras. Não queria que a galdéria Astra se me amigasse à força e me fizesse esperar um eternidade. Do mal, o menos. Espetaremos, meu amor, segreda-me ela. Esperaremos, meu estupor, rezingo eu.
Desta parte, reconheço, a organização não tem culpa. Um arraçado de corno também merece penar um pouco, quase nada, coisa leve.

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PorJosé Alberto Quaresma
José Alberto (de Oliveira) Quaresma nasceu em Portimão. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Prosseguiu estudos em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Paris- Sorbonne (Paris IV), com Pierre Chaunu e André Corvisier e em História das Mentalidades Religiosas, no Collège de France, com Jean Delumeau. Foi docente do ensino secundário e formador de professores. Publicou artigos em revistas científicas e apresentou em vários fóruns comunicações sobre História, História das Mentalidades, Sociedade e Sistema Educativo. Tem, como colunista, colaboração dispersa por vários periódicos, nomeadamente, O Independente, Público, Expresso, Correio da Manhã, Domingo Magazine. Obteve o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), pelo livro A Pose Extática, (Afrontamento). Publicou Ecolalia, poesia (Vega) e, na mesma editora, Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal. Foi autor de «Falta de Castigo – O Blogue da Educação e da Falta Dela», no semanário Expresso, entre 2008 e 2014. Coordenou as Comemorações do 122º Aniversário do Nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1982-1983). Foi comissário para as Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes (2010). É autor de Manuel Teixeira Gomes – Biografia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
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