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Opinião

O navio de Teseu

António Eugénio
Última Atualização: 2021/Mai/Qua
António Eugénio
5 anos atrás
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Quando Teseu desembarca do navio, a população acolhe-o como um herói. Derrotara o monstruoso Minotauro, e salvara a juventude de Atenas, relutantemente enviada pela cidade como sacrifício. Gratos pela salvação dos seus filhos, os atenienses zelariam pelo navio que transportou o herói, como um monumento ao feito de Teseu. Mas a passagem do tempo é impiedosa; à medida que os invernos chegam e os verões partem, o navio desintegra-se: o leme é corroído, os remos abolorecem e decompõem-se, as velas apodrecem. Os atenienses, obrigados pela gratidão ao herói de gerações, substituem cada componente carcomido do barco por um novo, num esforço inesgotável. Uma centena de anos depois da chegada de Teseu, o seu navio permanecia para gáudio e orgulho dos atenienses. A questão é: será que ainda é o navio de Teseu, quando todas peças do navio foram substituídas por outras?

Foi recentemente apresentado o projeto de requalificação do Centro Histórico de São Bartolomeu de Messines, cuja transmissão nas redes sociais segui com alguma atenção. Depois do definição da área de reabilitação urbana, este é o próximo passo para a ideia que a autarquia tem para a vila. O investimento de 4 milhões de euros promete reavivar uma parte substancial da vila, especialmente depauperada em termos de infraestruturas urbanas e de saneamento. Os centros mais antigos das cidades e vilas constituem sempre um desafio para a renovação das infraestruturas. O centro antigo de São Bartolomeu de Messines não é exceção; muitas das infraestruturas que o servem sofrem com a intempestividade com que foram instalados, muito pouco dimensionadas para as exigências atuais e deficientemente acondicionadas. A visão de cabos elétricos a calcorrearem os telhados é uma constante e as quebras no abastecimento de água dificulta a vida dos messinenses que lá têm os seus lares. Com tais problemas de utilização das infraestruturas, há um trabalho de fundo a ser efetuado para normalizar o acesso. O pavimento das ruas encontra-se, em certas partes, severamente desgastado e danificado. Tornou-se imperativa uma intervenção. A grande questão prende-se com a forma; em projetos de revitalização urbana, levantam-se sempre grandes polémicas em relação à implementação. Tal é especialmente verdade quando se referem a centros históricos, pois há sempre um equilíbrio delicado a manter entre autenticidade e modernidade.

Sou apologista que quaisquer trabalhos que levem à melhoria das condições e da qualidade de vida dos habitantes, especialmente no que toca ao melhor fornecimento de energia elétrica, saneamento e telecomunicações, como os previstos na proposta de requalificação do centro histórico, são bem-vindos. É especialmente importante para os centros das vilas e cidades que estes sejam “vivos”, com ruas que permitam a vivência das gentes, acessíveis e agradáveis, com pavimentos regulares e esteticamente agradáveis e iluminação pública de alguma qualidade. A proposta de pavimentação para as Ruas João de Deus e Cândido dos Reis, com o nivelamento da rua, a ausência de bermas e a coexistência de espaços para os peões e para o estacionamento de veículos assemelha-se ao aplicado nalgumas ruas da cidade de Silves; numa primeira análise, e tendo apenas o conhecimento retirado da apresentação pública, parece-me esteticamente e funcionalmente melhor do que a solução atual. A solução para as ruas “históricas” passa pela aplicação de material semelhante; embora não consubstancie uma solução que seja “historicamente” exata, poderá ser suficientemente rústica para não destoar no âmbito do centro histórico. Já a utilização de betão armado e betão desativado, referidos na apresentação, fazem-me torcer o nariz pelo facto de constituirem materiais mais modernos, que, dependendo do local de aplicação, poderão apresentar-se como elementos díspares. Outro elemento algo preocupante, prende-se com a ausência de uma solução para estacionamento.

Em jeito de conclusão, um investimento de 4 milhões de euros é substancial para uma vila como São Bartolomeu de Messines. Se do ponto de vista económico, é uma benesse que poderá servir como um dínamo para a economia local, do ponto de vista urbanístico é uma oportunidade única de reabilitar e requalificar uma zona da vila extremamente depauperada e com problemas infraestruturais profundos. No entanto, e como em qualquer operação do género, surgem riscos associados a questões de perda de autenticidade histórica.

No fim de contas, é como a metáfora sobre o navio de Teseu; ao substituirmos todos os componentes carunchosos e depreciados, deixamos de ter o navio que Teseu navegou. E, no entanto, o navio permanece.

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PorAntónio Eugénio
Natural de São Bartolomeu de Messines, nascido em 1983. É licenciado em Economia e Mestre em Marketing pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, tendo efectuado pós-graduações na área das Finanças Empresariais e da Fiscalidade. É membro efetivo da Ordem dos Economistas e da Ordem dos Contabilistas Certificados. Gestor de profissão, interessa-se especialmente por desenvolvimento regional e territorial e é doutorando em Gestão de Inovação e do Território na Universidade do Algarve.
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