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Opinião

Desmascarar a poluição

Frederico Mestre
Última Atualização: 2020/Set/Seg
Frederico Mestre
6 anos atrás
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A pandemia tem sido uma oportunidade para perceber um pouco melhor a sociedade e as pessoas que a constituem, e para analisar os seus sentimentos. Muitos dos sinais, acerca dos movimentos das sociedades, transparecem nas redes sociais. No início havia algum receio acerca deste vírus desconhecido. Depois as redes foram invadidas por um otimismo crescente, fundamentado na ideia de que perceberíamos, finalmente, que somos um grupo de indivíduos – a espécie humana – iguais, interdependentes e dependentes do planeta que habitamos. Viram-se imensas fotografias de animais a “regressar” a locais antes muito perturbados devido ao decréscimo da pressão humana (algumas destas imagens eram falsas ou descontextualizadas, infelizmente).

A seguir a este sentimento positivo, de uma certa inocência, veio o cinismo. Afinal nada vai ficar bem, e as sociedades agitaram-se com perturbações que nada tinham que ver com a pandemia. E surgiram mais fotografias… desta vez das máscaras e luvas que invadiram oceanos e linhas costeiras.

A pandemia criou, é indiscutível, um novo espaço de consumo. Há máscaras de todos os tipos e preços, desinfetantes, frascos e dispensadores para desinfetantes, luvas e viseiras. Este consumo gerou, inevitavelmente desperdício. As fotografias que inundaram as redes sociais retratavam desta vez o chão das nossas cidades, vilas e aldeias com máscaras descartadas, as praias e os oceanos infestados de máscaras, luvas e outros resíduos semelhantes.

No que respeita a resíduos plásticos em geral, as Nações Unidas estimam que 13 milhões de toneladas de plásticos sejam despejadas nos oceanos anualmente, constituindo metade do plástico produzido anualmente objetos não reutilizáveis. Só no Mediterrâneo são despejadas por ano 570.000 toneladas de plástico, de acordo com a WWF. Mas, quando estes objetos de plástico se degradam, assumem dimensões menores. Estudos recentes apontam para que existam entre 12 e 21 milhões de toneladas de microplásticos a flutuar só no Atlântico. Recentemente, microplásticos foram encontrados em órgão humanos, portanto os nossos resíduos acabam por voltar.

Esta nova vaga de resíduos veio piorar, e muito, a situação. Alguns grupos de ambientalistas têm reportado que as máscaras estão hoje entre os mais comuns itens de resíduos encontrados. No Reino Unido estimativas apontam para que, se cada pessoa usar uma máscara por dia, sejam criadas 66.000 toneladas de resíduos contaminados e 57.000 toneladas de embalagens plásticas. De acordo com estimativas do Greepeace, em Taiwan, cerca de 5.500 toneladas de resíduos podem ter sido produzidas entre fevereiro e maio. As estimativas a nível global são ainda difíceis de fazer. Para agravar a situação sabemos que as máscaras não desaparecem, demorando entre 300 a 400 anos para se degradarem no ambiente.
Muitas são as espécies marinhas afetadas por estes resíduos, e das mais diversas maneiras. Há animais que ficam presos (tartarugas e aves marinhas), que ingerem este lixo tomando-o por alimento (as luvas parecem medusas às tartarugas marinhas que as ingerem) ou que sofrem da acumulação de microplásticos.

Enquanto discutimos a COVID-19 os seus impactos fazem-se sentir no ambiente. E, se no início parecia que os ecossistemas rapidamente recuperaram da pressão humana quando todos recolhemos às nossas casas, rapidamente nos apercebemos que havia agora novos resíduos com os quais teríamos de lidar. Esta perturbação profundíssima na nossa sociedade global, teve impactos enormes nos ecossistemas. E, a ter em conta o que se vê nas redes sociais, estes impactos (positivos e negativos) tiveram um impacto emocional na sociedade. Mas deveremos agir em conformidade com esses sentimentos.

A mensagem com que quero deixar é a seguinte: é fundamental usar máscara para debelar os efeitos desta pandemia, não creio que isto seja discutível. No entanto, deveremos dar preferência a máscaras laváveis, de usos múltiplos e não as devemos deitar ao chão para que não cheguem ao oceano.

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PorFrederico Mestre
É natural de Moura, no Alentejo, licenciado em Biologia, mestrado em Biologia da Conservação e doutorado em Biologia pela Universidade de Évora. Desenvolve a sua actividade profissional como investigador pós-doutorado na mesma universidade. O seu trabalho incide sobre os impactos que as alterações climáticas e dos habitats naturais têm na biodiversidade. Tem outros interesses, com a fotografia e o urban sketching. Acredita que a ciência deve ser comunicada de modo claro, numa lógica de partilha de conhecimento com o público em geral.
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