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Opinião

A Cruz de Portugal

Terra Ruiva
Última Atualização: 2019/Mai/Seg
Terra Ruiva
7 anos atrás
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 “Todavia, apesar do valor incontestável e fragilidade do monumento não foi ainda encontrada uma solução que ponha fim ao estado de erosão precoce e de irreversível deterioração. Devido à fragilidade do calcário onde foi esculpida encontra-se em estado de desagregação, com algumas fissuras, faltam-lhe já alguns fragmentos de pedra e o relevo das figuras e dos ornamentos está muito desgastado. A agressividade dos agentes externos, nomeadamente, a humidade atmosférica, a chuva e a poluição são também principais agentes corrosivos do monumento que necessita de intervenção de modo a preservar-se uma das mais belas peças escultóricas do património algarvio” .

E foi desta forma, em 2016, que o Município veio lançar publicamente o alerta para o estado da Cruz de Portugal, joia icónica de Silves, um dos cinco monumentos que na cidade têm a classificação de Monumento Nacional.

Este diagnóstico causou-nos uma natural preocupação. No entanto sabendo nós que os serviços camarários de património cultural têm desenvolvido sucessivas acções de conservação e restauro dos monumentos, ficamos a aguardar o anúncio de intervenção na Cruz de Portugal. E ele aí está, divulgado no mês de Fevereiro, no Boletim Municipal.

É do senso comum que o zelo para com o nosso património é condição para assegurar a nossa identidade cultural, primeiro garante do enraizamento identitário das nossas gentes e pilar estruturante da criatividade das gerações presentes e futuras.

O natural envolvimento da comunidade, que se revela no orgulho e apego aos seus monumentos, transversal a todos os sectores sociais, tem como primeira exigência a obrigatoriedade das entidades competentes em assegurar os adequados cuidados de manutenção e preservação do património, garantindo que qualquer intervenção decorra com o indispensável rigor, valor estético e apuro técnico.

Vem isto a propósito do “triste” historial da Cruz de Portugal, uma das mais belas peças escultóricas da arte gótica em Portugal, que foi sujeita a anteriores intervenções desadequadas e de pouco rigor, que aqui registamos:

Em 2009, em artigo de caracter divulgativo no seu blog “Algarve – História e Cultura”, o professor Vilhena Mesquita, da Universidade do Algarve, refere-se ao estado da Cruz de Portugal, nos seguintes termos: ”vê-se claramente que se encontra num estado de erosão precoce e de irreversível deterioração, devido à fragilidade do material constituinte e à agressividade dos agentes externos, especialmente ambientais, naturais e até sociais.”

Neste artigo é feita referência à existência dum relatório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), de 1981, que, em análise técnica e investigação geológica, caracterizava o estado do monumento como em “risco de destruição ou, pelo menos, de irreversível fraccionação”.

Neste relatório terão sido formuladas sugestões de “medidas consideradas necessárias para preservar esta obra de arte de reconhecido valor patrimonial”, que terão ocorrido em 1982/3.

Num posterior relatório inspectivo, de 1999, o LNEC vem referir que as intervenções levadas a cabo, na sequência das recomendações de 1981, foram “de realização pouco cuidada, pelo que o resultado se traduz em perda de qualidade estética da obra. …. Os materiais também não foram adequados, pelo que os “remendos” exibem forte fissuração, coloração contrastante com a pedra e manchas diversas, tudo isto afetando negativamente as características estéticas da obra.”

Dá-se também nota da recomendação feita pela Câmara Municipal, em 2011, mas não levada à prática, em que considera “… de maior importância a dignificação do monumento…. a sua substituição por uma réplica e a colocação do original no Museu… parece-nos ser acertado considerar a musealização do cruzeiro, criando de raiz uma estrutura que o albergue…”. Foi aí preconizado o lançamento dum concurso de ideias, que não terá ocorrido.

Das consultas à documentação existente apurou-se que nestes longos anos, abrangendo o período de 1990 a 2018, o monumento só terá sido objecto de cuidados de limpeza e, na sua envolvente, de iluminação e arranjos paisagísticos.

Como acima se refere, a Câmara anuncia, nas acções previstas para 2019, a necessidade de salvaguarda do monumento, explicitando:

“Pretende-se proteger e valorizar o monumento do ponto de vista museográfico, promovendo a criação de estrutura coberta adequada e visitável, com capacidade para oferta de diversos serviços culturais”.

Faltará porventura neste enunciado o “repescar” da ideia Camarária explicitada em 2011 quando referia para a actual localização a substituição da peça por uma réplica, bem como a promoção do preconizado concurso de ideias.

É com satisfação e expectativa que tal anúncio é recebido, afigurando-se-nos ser imperioso atribuir-lhe adequada prioridade, necessariamente urgente, para o que se lança o necessário alerta à Direção Regional de Cultura do Algarve e CCDR Algarve.

Texto: Rui Cabrita

 

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