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Opinião

Juízo do Ano

Aurélio Cabrita
Última Atualização: 2019/Jan/Sex
Aurélio Cabrita
7 anos atrás
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Comemora-se em 2019 o 90º aniversário do «Almanaque Borda D’ Água», «Reportório útil a toda a gente», publicação que aqui homenageamos plagiando o título para esta nossa crónica. Na verdade, nos últimos anos, embora a «Folhinha», como também é designado, mantenha na última página o título em epígrafe, este deixou de ter o carácter profético e também divertido que o caraterizava.

A velocidade do nosso mundo não se coaduna com vaticínios, mas há tendências cada vez mais evidentes que nos preocupam, seja a nível mundial, nacional ou mesmo local. Propensões que a maioria dos cidadãos parece ignorar. A comunicação social prescindiu do seu poder de instrução, tal como alguma imprensa, substituindo-o pela estupidificação dos telespectadores/leitores. Só cidadãos conscientes se poderão preparar para um mundo novo que parece emergir a nível político, económico, social e ambiental.

Maus políticos e ausência de líderes mundiais parecem encaminhar a civilização ocidental para o seu fim, tal como a conhecemos. A China, governada por um regime totalitário, a maior ditadura do mundo, desprovida de direitos laborais, ambientais e humanos, afirma-se paulatinamente na chefia do planeta, perante um comportamento errático do presidente Trump. E diz o povo com sabedoria “quem tem dinheiro manda”. Por outro lado a crise económica despoletou a ascensão ao poder de populismos e de forças políticas extremas, já presentes nos governos da Hungria, Polónia, República Checa, Itália, Áustria, Bélgica, Suécia …, mas também nas Filipinas, Turquia, ou no Brasil, entre outros exemplos. A memória do fascismo italiano ou alemão perdeu-se e se Hitler chegou ao poder através de eleições, surgem hoje da mesma forma outros «ditadores» que nos fazem tremer perante as bandeiras que agitam e defendem. As eleições europeias (a 26 de maio) são um teste a uma Europa cada vez mais egocêntrica e desprovida de memória. A extrema direita, que propala a salvação do povo, colhe milhares de admiradores entre os europeus. Força política que se prenuncia a governar a França, a nação da «Igualdade, Fraternidade e Liberdade». Princípios que abomina. A União Europeia está em crise e a saída do Reino Unido, o Brexit, não fez soar as campainhas de alarme em Bruxelas como devia.

As alterações climáticas são cada vez mais inegáveis, de tal forma que a este nível o mundo que conhecíamos já não existe. Fenómenos extremos e raros são hoje frequentes e tendem a agravar-se, as ondas de calor e frio, incêndios avassaladores, inundações devastadoras, secas prolongadas ou ciclones tornaram-se «normais». O gelo acumulado nos pólos durante milénios está a derreter e com o degelo o nível do mar a subir e a ameaçar tragar as áreas costeiras. Todas estas alterações ocorrem sob o olhar impávido da maioria dos cidadãos, que agem como se tudo permanecesse como dantes, preocupados com a sua imagem, num consumismo desenfreado e numa cultura e sabedoria de «centro comercial».

Portugal, por enquanto ainda distante dos populismos não pode ignorá-los. Afinal já por cá houve uma Ditadura sem ditador, mas somente durante 5 anos (entre 1926 e 1933), pois este rapidamente emergiu. O Brexit pode ter efeitos terríveis no país e particularmente no Algarve. O Reino Unido é o principal mercado emissor de turistas para a região, e a nossa economia, assente em quase exclusividade no turismo, perante o Brexit e uma nova crise económica mundial que parece despontar, poderá ser colocada em causa e se isso acontecer as consequências serão inimagináveis nas nossas vidas.
No campo das alterações climáticas é manifesto que os invernos são hoje menos chuvosos e os verões mais quentes. Embora continuemos a consumir água como se ela caísse do céu, com a normalidade a que estávamos habituados, ou a plantar culturas altamente dependentes deste recurso, a sua escassez é inevitável.

No Algarve a região acordou para esta nova realidade, estando em curso um projeto, liderado pela AMAL, para dotar a região para uma estratégia que lhe permita enfrentar as alterações climáticas.
A nível do concelho temos também que enfrentar mais seriamente estes desafios.

Afinal somos dos concelhos com maiores perdas de água (como é analisado nesta edição) e no contexto regional um daqueles com menores taxas de separação de resíduos (nos serviços da autarquia há separação de resíduos? e nas Juntas de Freguesia? onde estão as campanhas de sensibilização?).

Da mesma forma o Município também não é exemplo na poupança de energia. A recente iluminação de Natal, acesa durante toda a noite, ao invés de ser desligada ao princípio da madrugada, é um exemplo flagrante, a que podíamos acrescentar as centenas de luminárias, dispostas ao longo das estradas municipais e nacionais, como se a circulação pedonal fosse a mesma dos anos de 1970, ou ainda junto a habitações há muito abandonadas. No campo dos incêndios a edilidade poderá dar um contributo importante aos proprietários, na reflorestação sustentável das áreas ardidas, fazendo jus ao slogan «da serra ao mar». Temos de ter presente que os recursos da Terra são finitos e há o dever de os legar às gerações vindouras.
Urge dotar os cidadãos de uma consciência política, histórica e ambiental, e aqueles que nos representam têm um dever acrescido.

Não podemos ignorar a importância do futuro, aliás como dizia o cineasta Woody Allen, ele interessa-nos, porque é o lugar onde vamos passar o resto da nossa vida.

Feliz Ano Novo.

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PorAurélio Cabrita
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nasceu em 1978. Licenciado em Engenharia do Ambiente, é mestrando em História do Algarve e técnico superior no Município de Odemira. Tem publicados diversos artigos e livros sobre a história local e regional. É também colaborador no jornal on-line Sul Informação.
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