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Opinião

Época de fogos na província

Rocha de Sousa
Última Atualização: 2018/Jul/Qua
Rocha de Sousa
8 anos atrás
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Não é uma afirmação gratuita nem uma graçola de mau gosto. Portugal tem sido um país demoradamente votado a épocas de incêndios nas zonas florestais. Quase tudo acontece no interior, espaços da chamada província, (mito dos sítios pobres e abandonados, hoje dividido entre algumas cidades de razoável ou bom perfil e as aldeias meio perdidas, meio abandonadas, por vezes vazias) – afinal todo um território de esplendorosa e poeirenta interioridade, tão subitamente amado pelos nossos políticos da Assembleia da República e da nossa cristã bancada do CDS.

Com efeito, desde os terríveis e virgens incêndios do ano passado, que se ouve um complicado ruído na Assembleia Nacional e mentideiros, sobretudo em torno dos fogos trágicos que fizeram de Pedrógão uma terra de martírios (verdadeiros) e uma vítima do Governo, tão manso estava, habituado às rotinas de mais de trinta anos de factos idênticos para os quais soavam sirenes e comunicações imperfeitas, partindo o que restava de carros e bombeiros, usando a sua habilidade e sentido do sacrifício, sem benefícios. Isto foi verdade. Mas dito em tom de repetição e mentira, sem as devidas ligações ao contexto da história e dos bem-aventurados residentes na faixa litoral, praias, escritórios, secretárias, carros de boa cilindrada e a pior televisão publicitária do mundo.
Logo após essa tragédia (onde o fogo cientificamente posto não foi tratado), outra ainda maior se desenvolveu cá mas para baixo, em pleno Outubro. Ardeu muito mais floresta, anárquica e de excelente ignição, os famosos eucaliptos que se espalham sem custos e enchem as Celuloses de euros e o Tejo de porcaria.

Mal ou assim-assim, o Governo começou a desenvolver um novo plano de prevenção e ataque aos incêndios, gastou milhões em equipamento e pessoal, deu ordens para a limpeza dos terrenos dos tufos daninhos que já submergiam a desactualizada floresta desde o tempo em que Salazar caíu da cadeira.

A Assembleia da República barafustou sempre, mesmo perante o relatório da comissão que avaliou os fenómenos de há doze meses atrás. Montes de atrasos e falta de meios aéreos. Contudo, desde há uma semana, Portugal dispõe de 50 meios aéreos, mais cinquenta viaturas e melhores condições para as comunicações. E Oxalá os políticos de todo o mundo aceitem trabalhar para poupar o planeta Terra. O clima endoidou.

Esperemos. Mas por mim, a melhor prevenção era a de gastar os milhões, para o próximo ano em importantes incentivos num plano de trabalho na faixa interior do país, com habitação e vias de comunicação, nova produção agrícola, a revisão dos projectos florestais, a deslocação radical dos eucaliptos, encurtamento, recolocação das fábricas. E torres de vigilância na floresta. Polos de água. Veredas em rede. Técnicos metodicamente instalados (por tempos intervalados) além de sapadores e auxiliares, tratadores do espaço, solo e requalificação das espécies florestais. Assim, todo o ano, sempre com comunicação para a meteorologia e polos de protecção civil.
Começar assim, pelo início de um projecto, e não pelo fim dos seus esboços.

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PorRocha de Sousa
Natural de Silves. Professor Universitário ( aposentado) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde foi docente. Membro da Academia Nacional de Belas Artes. Com larga atividade artística em vários campos, da pintura, ao cinema, do vídeo à literatura, Participou em dezenas de exposições, em séries de arte para a RTP, tem publicadas vários livros e é colaborador do Jornal de Letras.
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