Estávamos em 1999 quando o fenómeno começou a tornar-se conhecido. No sítio do Corgo da Igreja (ou Corgo da Enforcada ou Corgo da Ermida, como lhe chamam os mais idosos) a poucos quilómetros de São Marcos da Serra, no concelho de Silves, havia um sobreiro que cheirava a rosas. Logo conhecido como o “sobreiro milagroso”, o local começou a atrair muitas pessoas, entre crentes e curiosos. Os primeiros, gente à procura de solução ou esperança para algum problema, começaram por rezar no local, levando depois bocados do tronco do sobreiro, folhas, o que fosse. Os segundos, ouvindo falar de um sobreiro que cheirava a rosas, também ali se deslocavam querendo confirmar a veracidade de tal afirmação.
A afluência de pessoas levou o proprietário do terreno a tentar vedar o local onde se encontrava a dita árvore, enquanto a população de São Marcos da Serra debatia o fenómeno. Um dos descrentes era o padre Augusto Brito, então pároco de Messines e São Marcos da Serra, que dizia ao jornal Público que, na sua opinião, o cheiro vindo da árvore, nada tinha de sobrenatural, tratando-se “de um perfume conhecido comercialmente”. Por sua vez, o presidente da Junta de Freguesia, José Folgado, defendia que devia ser feita uma “análise química do perfume para saber a verdade”.
Verdade ou não, a fama do sobreiro milagroso foi crescendo e pouco tempo depois o local era facilmente identificado pelas viaturas que se encontravam estacionadas no IC- 1, no sentido Algarve-Lisboa.

No mês de abril de 2000, no número zero do Terra Ruiva, publicamos uma reportagem assinada pelo colaborador José Inácio Dias, residente em São Marcos da Serra, que se deslocou ao local onde algumas dezenas de pessoas estavam presentes para assistir à cerimónia que celebrava o primeiro aniversário da aparição de Nossa Senhora de Fátima a Fernando Pires, professor do ensino secundário, que afirma que no dia 16 de fevereiro de 1999 entrou em transe e recebeu uma mensagem.
Segundo a descrição, este professor ”teve a visão perfeita da Santíssima Virgem Maria, vestida de branco e cordão dourado na cintura, sandálias nos pés, uma coroa de doze estrelas na cabeça, pombas pousadas nas mãos, e muitas pombas a voar ao redor”. “Tinha o cabelo longo e ondulado de cor castanho mel coberto por um véu de cor rosa claro, olhos castanhos claros, uma voz indescritível e incomparável de grande suavidade e beleza. A Nossa Senhora revelou ao irmão Fernando Pires que queria que fosse apresentada ao mundo como sendo a Virgem Maria Santíssima Mãe da Bondade”.

16 de fevereiro de 2026
Vinte e seis anos após a reportagem do Terra Ruiva, cerca de um milhar de pessoas acorreu à celebração que assinala o aniversário desta aparição testemunhada por Fernando Pires.
A celebração foi devidamente organizada pela Associação Nossa Senhora Mãe da Bondade que entretanto se constituiu, para dar continuidade e corpo a esta crença (não reconhecida pela Igreja Católica).
Quem circula pelo IC-1, encontra duas cruzes de madeira que permitem localizar o local de culto. Poucas centenas de metros antes, há um terreno descampado que serve de parque de estacionamento. No meio de sobreiros, entre dois montes, desenrola-se a cerimónia. De um lado encontra-se o altar, com a imagem da Nossa Senhora em destaque. No monte em frente, dezenas de assentos de plástico proporcionam o descanso a quem ali vai.
O aniversário da aparição da Nossa Senhora, agora conhecida como Nossa Senhora Mãe da Bondade, é a maior celebração, mas não é a única. No primeiro domingo de cada mês, celebra-se, com missa e terço, a aparição. No último domingo de cada mês é organizada uma excursão a Fátima.
O movimento espontâneo gerado em redor do “sobreiro milagroso” é agora organizado pela citada Associação Nossa Senhora Mãe da Bondade que no seu site dá conta da evolução deste movimento.
Este ano foi anunciado que a Associação já adquiriu dois lotes de terrenos contíguos, no Corgo da Igreja, a norte de São Marcos da Serra, e que as próximas etapas passam por executar as “necessárias intervenções para um melhor acolhimento dos nossos peregrinos”. Mas, o grande objetivo é passar o terreno a um “plano horizontal mais ordenado e favorável, semelhante a outros Santuários Marianos já conhecidos por muitos de vós, para que, em seguida se possa alcançar a tão desejada Capela.”
Para São Marcos da Serra a concretização e desenvolvimento destes objetivos poderiam vir a ser muito interessantes, no âmbito do turismo religioso, como admite e deseja o atual presidente da Junta de Freguesia, Márcio Coelho. Para já, a Junta de Freguesia dá apoio logístico à celebração anual, cuidando da segurança dos visitantes. O mais difícil será encontrar a forma de fazer com que estes turistas religiosos não se limitem a visitar o local de culto.
No inicio de 2000, o sobreiro foi cortado, ficando apenas o seu tronco. A árvore terá renascido, foi dito na altura, e a demanda de pessoas à procura de ajuda ou de um milagre nunca cessou, embora tenha conhecido períodos de menor afluência, como a autora destas linhas registou, algures em 2003. Não foi à procura do milagre mas motivada pela curiosidade muito jornalística de querer ver com os seus próprios olhos. Neste caso cheirar… Viu mas não cheirou. E em 2026 não foi capaz de identificar o milagroso sobreiro no meio de outros, ficando sem saber se ainda existe… Mas admite que o mundo não é todo de uma só cor e há muita coisa que escapa ao entendimento do quotidiano.
No site da Associação da Nossa Senhora Mãe da Bondade há relatos de milagres. Cabe a cada um saber no que quer acreditar. O certo é que, quase três décadas depois, o fenómeno do “sobreiro milagroso” não só está vivo como prospera, com gente vinda de muitas partes do mundo a querer encontrar algo, uma força superior… (um amor incondicional ?)…






Uma correcção:
O vidente não foi professor.
Trabalhou em secretarias de escolas.