Na unidade socio ocupacional (USO), da Casa do Povo de São Bartolomeu de Messines, os dias começam com rotinas simples, mas cheias de significado. Os cumprimentos tímidos revelam laços construídos ao longo do tempo, os sorrisos discretos são gestos de acolhimento, e os olhares atentos demonstram a importância de ser ouvido. Para quem vê de fora, são apenas “malucos”, “doentes”, “alucinados”, “deficientes”, entre muitas outras coisas. Infelizmente, a sociedade ainda utiliza muitos termos pejorativos e estigmatizantes para descrever as pessoas com doença mental. Para quem está dentro, são histórias de superação, fragilidades partilhadas e pequenas vitórias diárias.
A sociedade gosta de rótulos. A doença mental, tantas vezes incompreendida, reduz-se a palavras frias em relatórios clínicos. Mas nenhum diagnóstico explica a ternura com que a E. fala dos tempos em que trabalhava no banco, da paixão do R. por livros ou o talento do M. para o andebol. Nenhum diagnóstico traduz o medo de serem olhados como “diferentes” ou a frustração de quem sente que a mente, por vezes, lhe prega partidas.
Aqui, cada um carrega a sua história. Há dias bons, em que a conversa flui e os risos enchem a sala. E há dias difíceis, em que a ansiedade aperta e a realidade parece pesada. Mas há sempre um ponto comum: a necessidade de serem vistos para além da doença. Porque, no fundo, não é isso que todos queremos?
A USO é mais do que um espaço. É um refúgio, um lugar onde a rotina traz segurança e onde pequenos progressos são celebrados. Aqui, ninguém é definido pelo diagnóstico, mas sim pela força de continuar. Ouvimos histórias, partilhamos desafios, contruímos laços.
A A., por exemplo, que lida com a esquizofrenia, sente que as pessoas a olham como se fosse instável quando, na verdade, tudo o que quer é ser compreendida. O F., com défice cognitivo, só deseja que lhe perguntem como foi o seu dia- porque, durante anos, ninguém pareceu importar-se. A I., que tem uma perturbação bipolar, pinta como quem respira. No papel, dá vida a mundos que só ela vê. Mas, lá fora, nem sempre lhe dão espaço para mostrar o seu talento.
Depois, há aqueles cujas dificuldades não se veem logo à primeira vista. O R., que já trabalhou em vários sítios, vive com muitas dificuldades na regulação das suas emoções. Para os outros, ele pode parecer impulsivo, difícil de lidar, mas, na verdade, tudo o que precisa é de alguém que o ajude a regular as emoções, que nem sempre consegue controlar. A A., que sofre de depressão crónica, tem dias em que até se levantar da cama é um desafio. Mas, quando chega à unidade, sabe que encontra um espaço seguro onde não precisa de fingir que está bem.
Nem todos conseguem estar presentes na unidade todos os dias. Alguns, devido a limitações físicas, falta de apoio ou outras circunstâncias, acabam por ficar em casa, muitas vezes isolados do mundo. É aqui que entra a Equipa de Apoio Domiciliário (EAD), que leva até eles aquilo que mais precisam: escuta, compreensão e presença.
A G., por exemplo, vive sozinha desde que a mãe faleceu. A bipolaridade roubou-lhe a vontade de sair de casa e, por muito tempo, sentiu que era invisível para o mundo. Mas, quando recebe a visita da equipa, o dia ganha outra cor. Há conversas que lhe trazem conforto, pequenos exercícios que a ajudam a manter-se ativa e, acima de tudo, a certeza de que alguém se importa.
O J., diagnosticado com esquizofrenia, sente que o mundo lá fora é demasiado ruidoso e ameaçador. Os dias passam entre quatro paredes, num espaço onde se sente seguro, mas também prisioneiro. A EAD ajuda-o a criar pontes com o exterior, respeitando o seu ritmo, mostrando-lhe que há formas de se conectar sem medo.
A equipa não leva apenas acompanhamento clínico ou atividades. Leva humanidade. Leva paciência para escutar as mesmas histórias quantas vezes forem precisas. Leva o toque de uma mão amiga que diz “estamos aqui”. Porque, no fundo, ninguém deveria enfrentar a vida sozinho.
Talvez o maior desafio da doença mental não esteja na doença em si, mas na forma como a sociedade a encara. Ainda há medo, preconceito e um silêncio desconfortável quando o tema surge. As pessoas afastam-se porque não sabem o que dizer ou porque têm uma ideia errada do que significa viver com uma perturbação mental. Mas e se, em vez de nos afastarmos, nos aproximássemos? E se ouvíssemos, sem pressa, as histórias por trás dos diagnósticos?
Trabalhar neste espaço é aprender, todos os dias, que a empatia pode ser transformadora. A cada conversa, a cada partilha, percebemos que estas pessoas não precisam de piedade, mas sim de oportunidades. Precisam de ser vistas, respeitadas e incluídas.
Fala-se muito de integração, de inclusão, de dar voz a quem tantas vezes é silenciado. Mas essas palavras só fazem sentido quando passam à prática. Quando um empregador decide dar uma oportunidade à D., mesmo sabendo que ela tem dificuldade em lidar com o stress. Quando a vizinha da G. decide visitá-la porque percebeu que a solidão também é um peso para a saúde mental. Quando uma criança aprende que a doença mental não é um bicho-papão, mas algo que pode acontecer a qualquer um.
E, no fundo, não é isso que todos nós queremos? Ser reconhecidos pelo que somos, para lá dos desafios que enfrentamos?
A verdadeira inclusão acontece quando percebemos que, por trás de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa- com sonhos, medos e um desejo simples de ser compreendida. Que possamos aprender a ver para além dos rótulos. Afinal, compreender a saúde mental é compreender a essência do que significa ser humano.
Gonçalo Paulino (Psicólogo)
Catarina Basílio (Psicóloga Estagiária)








