No meio da correria do dia a dia, entre o som das imensas coisas e estímulos à nossa volta, há um ruído que nos distrai do essencial: o silêncio. Ou melhor, a escuta.
Lembrei-me de uma história que li, sobre um príncipe que foi enviado por seu pai, o rei, para aprender com um sábio. A missão era simples: escutar os sons da floresta. Mas não bastava ouvir o óbvio — o chilrear dos pássaros, o vento nas folhas, o rugido distante. Era preciso escutar com profundidade, com o coração. A certa altura, o mestre diz-lhe: “Ainda não escutaste tudo. Volta à floresta e ouve o que está para além dos sons.” É uma frase simples, mas que nos desmonta por dentro. Só assim o príncipe começou a perceber os sons invisíveis: o pulsar da vida, o silêncio entre os sons, a sabedoria escondida na natureza.
Há dias em que o concelho de Silves parece falar connosco. Seja no silêncio das margens do Arade ao fim da tarde, no eco das ruas estreitas da cidade antiga ou no murmúrio do vento que atravessa os laranjais de Algoz e São Bartolomeu de Messines, há sempre um som que nos convida a parar. A questão é: estamos realmente a escutar?
Quantas vezes escutamos verdadeiramente os outros? Os nossos vizinhos, os nossos filhos, os nossos idosos que contam histórias à porta de casa? Escutar não é apenas ouvir. É estar presente. É entender o que não é dito. É sentir.
Na nossa comunidade, onde todos se conhecem e os bons dias ainda se trocam na rua, temos uma vantagem: a proximidade. Mas será que estamos a usá-la para escutar melhor? Ou estamos tão ocupados com o barulho do mundo, no ruído que muitos também geram para distrair a nossa atenção, que esquecemos de ouvir o que importa?
Porque, se pensarmos bem, quantas vezes ouvimos sem escutar? No mercado municipal de Silves, onde as conversas se cruzam entre bancas de fruta; nas esplanadas de Armação de Pera, onde o mar dita o ritmo dos dias; ou nas aldeias mais pequenas, onde cada rosto guarda uma história que só se revela a quem sabe ouvir com calma.
Escutar profundamente é um ato de respeito. É perceber o que não é dito, é captar o silêncio entre as palavras, é sentir o que o outro tenta transmitir, mesmo quando não encontra as frases certas. E numa comunidade como a nossa — tão rica em tradições, memórias e diversidade — essa escuta é essencial.
Talvez seja tempo de sermos mais como o príncipe da história. De voltarmos à nossa “floresta” — seja ela o mercado da vila, a bancada do estádio, ou o silêncio da nossa própria casa — e reaprendermos a escutar. Porque quem escuta com atenção, lidera com empatia. E quem lidera com empatia, transforma.
Talvez o maior ensinamento esteja no som que ainda não escutámos.
“Quem aprende a escutar o que não se ouve, descobre o que realmente importa.”
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