Tenho acompanhado, sempre que possível, a campanha das diversas forças políticas que se candidatam aos órgãos autárquicos do nosso concelho de Silves.
No decorrer da campanha constatam-se as mudanças em relação a eleições anteriores. A concentração de recursos nas redes sociais trouxe uma realidade nova, a dos vídeos e dos podcasts de apresentação de candidatos e das suas propostas. Perderam terreno, nota-se, os debates que há anos atrás galvanizavam muitos indivíduos. Na rua, continua a campanha tradicional, porta a porta, mas os programas eleitorais têm cada vez menos páginas e conteúdo.
As causas são amplamente discutidas e consensuais: a maioria das pessoas não quer saber; a maioria dos restantes não quer ler textos longos ou assistir a debates demorados. Ganham terreno os vídeos de poucos minutos, nos quais os candidatos tentam transmitir as muitas ideias e projetos que têm.
Até ao dia em que escrevo, precisamente o dia em que tem início a campanha oficial, reparo, no entanto, que, de entre os temas debatidos, um deles tem estado praticamente ausente. É a Cultura.
Discute-se a habitação, a saúde, a ação social, desporto (muito desporto), fixação de jovens, criação de emprego, educação e o lixo, (muito, muito lixo) e outros temas. Mas a Cultura, essa, tem estado ausente das preocupações e do discurso, relegada para um plano muito secundário.
Nos programas eleitorais aparece referida, mas sem distinção do entretenimento e do património e sem medidas concretas e específicas para esta área do desenvolvimento humano.
Lamentavelmente, nas imensas reivindicações que entopem as redes sociais, manifestadas quer por populares quer por candidatos, não encontrei quem exigisse ações nesta área.
Nada de novo, efetivamente. Mas não deixa de ser triste que aqueles ( e são tantos) que se julgam no direito de ter tudo o que desejam, mesmo quando em nada contribuem para a comunidade, não exijam também ações culturais, fortes e vibrantes, pequenas e simples – mas que façam a diferença.
…
No dia 12 de outubro de 2025, é dia de tomar decisões importantes. Sendo que a primeira delas é a de exercer o seu direito de votar.
Não se trata somente de elegermos os órgãos autárquicos do concelho e com a nossa decisão definirmos muitos aspetos importantes da nossa vida nos próximos anos.
Mas também as autarquias estão a viver tempos de mudança e complexos, com grandes desafios pela frente, que lhes exigem não só maiores meios financeiros, mas igualmente uma muito maior capacidade de gestão e de iniciativa e quadros políticos e técnicos bem preparados. Com a descentralização das competências, as câmaras municipais receberam, desde 2019, mais de 20 competências que antes eram da Administração Central, sobretudo nas áreas da Educação, Saúde, Ação Social e Cultura. Mas os municípios não estão satisfeitos e a Associação Nacional de Municípios tem protestado porque a transferência de competências não tem sido acompanhada pela transferência de verbas.
Também as juntas de freguesia, representadas pela Anafre, exigem mudanças, como o alargamento das áreas da sua competência e que o Governo cumpra a promessa de alargar a possibilidade das freguesias poderem apresentar candidaturas ao Portugal 2030.
E como não há duas sem três, também a Associação Nacional de Assembleias Municipais reivindica um novo quadro legal que torne a sua ação fiscalizadora mais rigorosa e mais transparente.
Neste contexto, em que o Poder Local se debate com grandes desafios, maiores exigências e, frequentemente, falta de recursos humanos e financeiros para responder às necessidades das populações, não é de estranhar que a prioridade dos candidatos se foque nos temas mais urgentes, ou abrangentes.
Mas a Cultura, essa grande ausente do debate político, não merecia tão triste sorte.



Completamente de acordo.
Pena que nao haja em SB de Messines pelo menos uma biblioteca, ou mediateca, pouco importa o vocabulo de momento que se possa encontrar, ler, ouvir ou ver etc… facilement obras da literatura, da musica ou doutros setores de atividade artistica e intelectual. Historia, sociologia, scienças naturais etc… A familarizaçao com os instrumentos de cultura nao é mais dificil que uma pratica quaquer, seja ela desportiva ou outra, mas sim uma questao de vontade …politica e de paciencia. Como a pratica desportiva exige pratica e exige tempo. Mas tambem locais, pessoal competente, encontros em volta de tal e tal obra…
Por outro lado o acesso gratuito a livros e outros medias culturais é uma questao eminentemente politica e que uma democracia digna desse nome se deve de facilitar a abordagem.
A cultura deveria estar na formaçao de base de todo cidadao esclarecido. E o prerequisito para nao se deixar instrumentisar por qualquer forma de demagogia politica.
Sem cultura nao vejo como é que a maioria dos cidadaos, no ato mesmo de escolher os seus dirigentes politicos, pode resistir à demagogia crescente.