Doutor-burro e burro-doutor teriam sido mimos de Pedro José Ramos, dados a dois dos seus filhos, João de Deus e António Pedro.
João de Deus era dez anos mais novo do que o irmão, nascido em 1820, também em Messines. O mimo de doutor-burro colava-se bem ao João. Levara dez anos a concluir o curso de Direito, tantos como a Guerra de Tróia, como dizia.
Canudo obtido, ainda se demorou na rambóia mais três anos. A fazer nada, salva seja, a puir as calças, a rebentar sapatos, a passar fome e matar sedes com zurrapa, a dedilhar a sua viola e a cantar os seus poemas que musicava. A estudantada, muito mais nova, pelava-se para estar na companhia do maravilho bondoso barbudo.
O burro-doutor, António Pedro, nunca estudou. Andava na boa-vai-ela em Messines. Coxeava bastante, mas a falar não metia os pés pelas mãos. Espertalhaço, falava pelos cotovelos, opinando sobre tudo com presuntivo conhecimento. A sua lábia pedia meças ao melhor tribuno, formado pela Universidade de Coimbra. Não falava de cátedra, mas atordoava com a sua verve os avinhados companheiros, ao balcão da venda.
Os manos João de Deus e António Pedro sempre se deram lindamente, embora a diferença de idades fosse grande e as brincadeiras do petiz não deviam entusiasmar o grandalhão, tanto mais que a guerrilha e atrocidades do Remexido não lhes davam sossego.
O João foi para Lisboa para tomar posse como deputado às Cortes e nunca mais regressou à terra. Escrevia amiúde ao irmão. Instava-o a velar pela irmã mais velha, a Justa, que vivia no Algoz. Desconfiava dos negócios do António, quando quis vender casas da herança comum, e amansava-o.
João de Deus pedia-lhe que lhe arranjasse criada para ajudar a mulher, Guilhermina, a cuidar da casa e dos filhos, em Lisboa. E não uma, mas duas, «a casada e a enjeitada», porque só tinha confiança nas mulheres de Messines. Intercedia com o irmão para arranjar também por aqui um miúdo para recolher as esmolas do primo José Ramos que era cego e tocava realejo pelas ruas de Lisboa.
Dava conselhos ao irmão sobre alimentação, para que não abusasse das carnes, nem do repolho que era indigesto. António mandava‑lhe, por encomenda postal, farinha de milho para as papas, mel da serra, figos e bolotas, «um regalo para os pequenos».
João de Deus estava dedicado de alma e coração a alfabetizar crianças e adultos. Não saía de casa e muito menos iria ao Algarve ver a família.
Perto do último Natal, que passou com Guilhermina e os filhos, João de Deus já estava em grande sofrimento. A miocardite de que sofria mal o deixava respirar. Pediu ao António Pedro que viesse, com a sua «senhora», passar o Ano Bom a Lisboa. Ficariam alojados em sua casa, junto à Basílica da Estrela.
Pouco antes João tinha-lhe pedido um ou dois quilos de açaflor, o popular falso açafrão algarvio, de que tinha saudades e a mãe usava nos cozinhados, sendo desconhecido em Lisboa.
Tentou convencer o irmão, com 75 anos, de que estava velho, como ele, e não deviam adiar o encontro. Fazia-se forte. Tinha pavor em viajar por barco ou comboio, mas aconselhava o irmão a não ter medo, porque morria muito mais gente em casa e na cama, do que no caminho‑de‑ferro.
O dia de Ano Novo passou. Onze dias depois, João de Deus morreu. António Pedro e a sua senhora não chegaram a ir à estação, de S. Bartolomeu de Messines, apanhar o comboio que estacava no Barreiro.
Os manos nunca mais se abraçaram desde que o João fora para o Parlamento, em 1868. Os amplexos foram sendo adiados pelas veredas da ausência.
Matar saudades? Sempre. Em vida e com o coração a bombar.








