Na comemoração dos 25º aniversário, o jornal Terra Ruiva presta tributo aos colaboradores que já nos deixaram. Os que recordamos,,,,
7ª epístola aos hereges
– morada de silêncios –
se lhe disser meu amigo – desisto – sei que não acredita
eu também não
vontade porém não me falta .vence.me o cansaço de uma correria que me conduz a nenhures .o desassossego das horas mortas .o desconforto do desengano .a surpresa pela negativa .o estar fora do círculo porque deixou de ser homocêntrico .não sou nem mais nem menos .sou diferente .o meu corpo reveste.se de asco que escorre como baba mal cheirosa mesmo muito mal cheirosa .a água passa.lhe ao largo sem lhe tocar .detém.se no tubo de ensaio onde se guardam as novas fórmulas .os alapados a experiências alheias – quão acéticos! – começam a meter.me nojo
desistir será o mais fácil .se o fizer liberto.me .se o não fizer que ganharei?
que me resta então meu amigo?
o silêncio das árvores .o canto da água .o chilrido dos pássaros .a melancolia de um fim de tarde .os olhos que se prendem às folhas de uma árvore que tão cansadas como eu oscilam presas aos troncos .há uma minúscula flor azul que sobressai no verde como uma pequeníssima mancha .é nela que o meu olhar se fixa e a pouco e pouco começo a perder a noção do meu corpo e o meu sangue feito seiva desliza entre infinitos
sob os escombros meu amigo haverá sempre uma flor por achar
Gabriela Rocha Martins
novembro de 2012









