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História & PatrimónioSociedade

Documentos para a história da ponte velha de Silves – II

José Manuel Vargas
Última Atualização: 2025/Jun/Dom
José Manuel Vargas
1 ano atrás
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Documentos para a história da ponte velha de Silves – II

No número anterior deste mensário, publicámos dois documentos: um datado de 1439 que informava ter sido a ponte de Silves derrubada por uma grande cheia, sem precisar quando sucedera esse desastre; outro, de 1443, que falava da reconstrução então iniciada e de estar concluído um arco.

Vamos, agora, perscrutar outros documentos, tentando saber quando terá principiado a obra da ponte para atravessamento do Arade.

A referência mais antiga que encontramos é de 1318 e consta do testamento de Geraldo Pais, deão da Sé de Silves, que deixou o seguinte legado pio:

“Mando se quiserem fazer a ponte de Oydarade* dez libras em ajuda e se não dêem-nas meus testamenteiros em vestir pobres vergonhosos”(publ. in Testamenta Ecclesia e Portugaliae (1071-1325), Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2010, pp. 384-391).

Por esta breve menção se deduz que no início do século XIV havia apenas a intenção de construir a ponte. Depois desta notícia e vista a documentação das chancelarias dos reinados de D. Dinis (1279-1325) e de D. Afonso IV, nada de esclarecedor encontramos a respeito da desejada obra.

Há, no entanto, uma informação tardia, fundada na tradição, a que os dados históricos conhecidos sobre as prolongadas obras na Sé e na Ponte permitem conferir alguma validade. Trata-se da célebre maldição que o bispo D. Álvaro Pais lançou sobre a cidade, quando foi forçado a abandoná-la em 1347(data conjectural) e mencionada pelos representantes de Silves nas Cortes de 1473:“que nunca veríamos a Sé desta cidade feita, nem a ponte acabada, nem casa que caísse que se levantasse, nem mulher que viuvasse que tornasse a casar, nem homem aí morador que visse aí netos, filhos de seus filhos”. (ANTT, Leitura Nova, Odiana, Liv. 4, fl. 161v.). Temos então aqui uma indicação de que a ponte estaria em construção e que as obras seriam demoradas. Importa ainda referir que o autor da maldição só surge identificado com o bispo D. Álvaro Pais, numa versão constante do catálogo de bispos, publicado nas “ Constituições Sinodais do Bispado do Algarve”, 1674, apêndice, pp. 8-10: “o venerável prelado (…) se saiu da cidade e de um monte alto amaldiçoou os moradores dela: para certeza deste acontecimento não temos mais documento que o da tradição”.

Um documento de 1422,(Novembro, 7) e outro de 1435 (Julho, 25), referem os moinhos da “Ponte e da Torre”, emprazados a Vasco Moniz e depois a seu filho Henrique Moniz, (Chancelaria de D. Duarte, Livro 1, fl. 127v.). Ora estes moinhos são os mesmos que outra documentação designa como da “Porta e da Torre” (Chanc. D. João I, Liv. 1, fl. 11v – doc. de 10 Maio 1422) e que seria, aliás, a denominação que prevaleceu. Somos levados a supor que, em 1422, ou já existia a ponte, ou continuava a ser construída.

Por uma carta de perdão e relevamento de infâmia, dada em 1434 (Outubro, 13) a Gonçalo Velho, ficamos a saber que, para financiar as obras da ponte, havia o recurso a penas pecuniárias. O documento tem ainda outros motivos de interesse (justiça e administração municipal), pelo que se transcreve integralmente:

Item [Dom Eduarte, cetera],Gonçalo Velho, escudeiro, criado do Infante Dom Pedro, morador em Silves, disse que ele fora preso na cadeia da correição do Algarve, por ser dito contra ele que, sendo juiz em a dita cidade Gonçalo Viegas o lançara per uma escada do muro afundo** e lhe dera punhadas sobre seu ofício, pela qual razão fora condenado por sentença para a ponte da dita cidade em mil e quinhentos reais brancos, da qual sentença ele apelara. E vista por nós sua apelação, mandáramos que não pagasse mais de mil reais brancos e que fossem para a Arca da Piedade***, pela qual razão ele disse que ficou infame, relevamo-lo de toda infâmia, se assim é como ele diz e tem pagados os ditos dinheiros, cetera, em forma. Dada em Lisboa, 13 dias de Outubro, el Rei a mandou per Afonso Geraldes e Luís Martins, seus vassalos e do seu desembargo, Rodrigo Afonso a fez, era de 1434 anos. (Chancelaria de D. Duarte, Livro 3, fl. 11v. – 5º)

*Outras formas arcaicas de Arade: Widradi(1189), Oydaradi(1266), Hudiaradi (1282), d’Oderade (1362), d’Odrade (sécs. XV- XVI).

**Desde o séc. XIV que a casa da câmara era na torre albarrã das portas da cidade.

***Cofre onde se guardava o produto das condenações e de donativos para obras pias.

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PorJosé Manuel Vargas
Natural de Lisboa, nascido em 1948. Tem ascendência materna e paterna ligada às freguesias de S. Bartolomeu de Messines e S. Marcos da Serra. Professor do Ensino Secundário ( aposentado), é investigador de história local e regional, com várias obras publicadas.
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