Quando a realidade supera a ficção.
As malas a que me refiro não são de senhora, malas com inúmeros objetos e artefactos, nem tão pouco escolares, as pastas carregadas de livros e materiais de uso escolar. Estas malas, também conhecidas por tróleis, são malas ou mochilas dotadas de pega e rodas para mais facilmente serem transportadas.
Um jovem moderno só utiliza as chamadas malas de cabine, desde logo por serem menos volumosas e poderem acompanhar o passageiro nos compartimentos, junto ao seu assento, seja nos autocarros, comboios ou aviões. Nos aviões, estas malas também estão isentas de despacho e os seus utentes podem aproveitar os bilhetes a preços reduzidos.
Nos autocarros, ou levo uma mala ou uma mochila de mão ou tenho de colocar a minha mala no depósito de bagagens. É aqui que começa a minha ansiedade.
Coloco a mala na bagageira do autocarro em Lagoa e espero que a mesma ainda esteja presente quando me apeio em Lisboa. Cada vez que o autocarro para, para saída de passageiros, fico inquieto a imaginar que alguém, inadvertidamente, leva a minha bagagem em vez da sua. É que as malas são genuinamente iguais e não têm aquelas gravuras das cidades anteriormente visitadas, como as do filme Leão da Estrela (1947, realizado por Arthur Duarte).
Os comboios têm mais espaço, junto aos assentos, o que facilita ter um olho permanente nos meus haveres, neste caso na minha mala. Nos aviões, se se tratar da mala de cabine, a circunstância é semelhante à do comboio, levo no compartimento cimeiro, ao meu lugar, e rapidamente saio do aeroporto sem parar no tapete rolante das bagagens.
Tudo se complica quando as malas são de porão. Aí, não tenho hipótese, tenho de abandonar provisoriamente a minha mala e acreditar que a mesma vai ser ressarcida no destino da viagem e no momento de chegada. Uma vez, em pleno inverno, numa viagem à Polónia, a minha mala, preparada para a estação, ficou em Lisboa e reapareceu dois dias depois. Uma das minhas malas também ficou presa no aeroporto de Madrid, mas, neste caso, estava de regresso, o que não fez grande transtorno. Apenas o desembalar da tralha foi adiado alguns dias. Nunca perdi nenhuma bagagem, mas quando viajo imagino sempre a possibilidade de uma troca ou mesmo do furto da minha mala.
Também há as malas sem passageiros, como no filme Ninguém duas vezes (1984, realizado por Jorge de Silva Melo), que me aconteceu em Marraquexe, em que as malas foram para o destino e nós ficamos em Casablanca. Neste caso, alguém foi buscar as malas e colocá-las diretamente nos quartos do hotel. Não consigo imaginar como se transporta malas de um grupo de oitos pessoas para o hotel, mas aconteceu comigo e com os restantes sete companheiros de viagem.
Um passageiro empacotar malas, de alheios, como bonecas russas, no aeroporto de Lisboa, é deveras criativo para ter, alguma vez, imaginado tal técnica de usurpação da minha mala. De futuro, vou começar a andar de olho nas grandes malas e, naturalmente, nas pessoas que as transportam. Acho que ter os meus usados boxers e as minhas usadas peúgas à venda numa plataforma online, até tinha uma certa piada.






