Classificada como imóvel de valor concelhio, desde 1995, a igreja de São Marcos da Serra conserva, na sua configuração actual, marcas históricas de diferentes épocas e elementos patrimoniais que a tornam no edifício mais representativo da freguesia, com relevante importância cultural, simbólica e afectiva para as gentes da isolada povoação serrana.
Ainda que não seja conhecida documentação escrita sobre a fundação da igreja e criação da freguesia, subsistem testemunhos que nos permitem apontar os finais do século XV ou inícios do século XVI para uma primeira construção, provavelmente de uma ermida dedicada ao santo evangelista, desde logo as ombreiras tardo-góticas parcialmente reaproveitadas no alargamento do portal que primitivamente teria a forma ogival.
A ermida de São Marcos seria, no primeiro quartel do século XVI, sede de uma capelania rural curada, como nos deixam supor a pia baptismal, notável obra de lavor manuelino, e duas portas com ombreiras chanfradas (lateral sul e interior da capela-mor). Concorre para validar esta hipótese de datação, uma escritura feita em 1498 em que se referem umas terras no termo de Silves, “situadas além de São Marcos”, doadas por Beatriz de Gusmão, viúva de João do Rego, a Diogo Moniz, fidalgo de Silves (T.T., Liv. 8 de Odiana, fl. 96v.).
Ao certo, sabemos que em 1598 estava constituída a freguesia de São Marcos que tinha “cento e dezanove fregueses e quatrocentas e duas almas de confissão” e que pagavam o Cura à sua custa (cf. Informação do Bispo do Algarve ao Papa Clemente VIII).
A transformação do que seria uma pequena ermida numa igreja mais ampla, teve obras demoradas que se prolongaram pelo século XVII e que devem ter sido suportadas pelos fregueses, sem patrocínio do Bispo ou da Casa das Rainhas, donatária das terras em Silves e no seu termo.
Cerca de 1600, São Marcos contava já com 150 fregueses e os mais antigos livros de registos paroquiais, que chegaram até nós, datam de 1616 (Livro de Baptismos). De 1604, temos uma singular inscrição, no intradorso do fecho do arco da capela lateral Norte, cuja leitura apresenta dificuldades, podendo perceber-se, com desabreviação e modernização: “Fez-se na era de 604 no (?) de Francisco Vaz”. Ignoramos quem fosse este Francisco Vaz, talvez o padre cura que antecedeu Baltasar dos Reis, primeiro de que temos informação, nos registos de 1616.
No século XVIII, sobretudo na segunda metade, nova e vasta campanha de obras que abrangeu a reconstrução da fachada principal, as capelas do interior, o arco triunfal, a sacristia e a torre sineira.
As Memórias Paroquiais, de 1758, dizem-nos que a freguesia de São Marcos tinha então duzentos e vinte e um vizinhos, com setecentas e sessenta e uma pessoas. O pároco tinha o título de Prior e era apresentado pelo bispo. A igreja tinha seis altares: São Marcos, São Pedro, Nossa Senhora do Rosário, Santo António, Senhor Jesus e Almas. Havia duas irmandades, a de Nossa Senhora do Rosário e a das Almas.
Nos séculos XIX e XX, mais transformações ocorreram, quer nos altares, retábulos e imagens, quer nos bens da igreja, vendidos ou arrendados em hasta pública, em virtude da legislação liberal e depois da Lei da Separação da Igreja do Estado, em 1911.
Basta referir que de doze antigas imagens de santos (séculos XVII e XVIII), arroladas no inventário de 1911, restam apenas três das imagens originais (Senhor Jesus Crucificado, Nossa Senhora do Rosário e São Luís).

Uma boa parte das imagens desaparecidas, terá sido destruída aquando do assalto à igreja na noite de 25 para 26 de Agosto de 1921, episódio que envergonhou os verdadeiros republicanos e que ainda actualmente se procura silenciar ou é recordado com mágoa na aldeia serrana. Desse desmando e doutras ocorrências na história mais recente da igreja de S. Marcos, daremos nota num próximo artigo.
(continua)










