Como referido na edição anterior do Terra Ruiva, a expansão contínua do conhecimento na área do trauma, ganha destaque quando ocorrem eventos que afetam comunidades inteiras, como no caso das catástrofes naturais.
Para lá da preocupação com os danos materiais, é fundamental a prestação de serviços de saúde mental aos sobreviventes. A resposta psicológica imediata a eventos de larga escala ou catástrofe, desde o momento da exposição até ao final do primeiro mês, através da disponibilização de primeiros socorros psicológicos é fundamental para reduzir o risco de desenvolvimento de trauma.
Ao mesmo tempo que há um impulso imediato de fazer algo para minimizar os danos emocionais nas pessoas, é preciso esperar para avaliar como cada um reagirá após uma tragédia. Como o trauma será elaborado pelas pessoas é o que determinará se a experiência será traumática ou não. É esperado que as pessoas apresentem sintomas após o trauma, como insónia, crises de choro e tristeza. Os estudos apontam que, felizmente, menos de 10% das pessoas desenvolvem trauma. Uma intervenção precoce é fundamental para que este risco seja reduzido e o problema não se torne crónico.
Num estudo realizado com sobreviventes do Holocausto, aqueles que enfrentaram o trauma e falaram sobre o mesmo apresentaram melhor recuperação ao longo dos anos. Em contrapartida, aqueles que evitaram falar sobre o episódio geraram mais consequências negativas para as gerações seguintes.
Em catástrofes naturais ou provocadas pelo Homem, como as guerras, precisamos de dar apoio a todos os afetados e ter um olhar mais dedicado àqueles que não estão bem. Caso contrário, o trauma passará de geração em geração.
A preocupação com a saúde mental da população ganhou maior protagonismo após a pandemia de covid-19.
Via de regra, os eventos mais propensos a causar stress pós-traumático, são aqueles que invocam sentimentos de medo, desamparo ou horror. Combate, agressão sexual e desastres naturais ou provocados pelo homem são causas comuns. No entanto, ele pode ser causado por qualquer experiência avassaladora e possivelmente fatal, como violência física ou um acidente de automóvel.
Esses acontecimentos podem ser vivenciados diretamente (por exemplo, sofrer uma lesão grave ou ser ameaçado de morte) ou indiretamente (testemunhar outras pessoas a sofrer lesões graves, a morrer, a serem ameaçadas de morte, ficar a saber de eventos traumáticos que ocorreram com familiares ou amigos íntimos ou ser agente de intervenção num dado evento, como é o caso dos bombeiros). É possível que a pessoa tenha vivenciado um único evento traumático ou, como ocorre com frequência, vários eventos traumáticos.
É fundamental, em vez de responsabilizar o indivíduo pelas suas reações a um problema, olhar para as circunstâncias de vida dessa pessoa, como o local onde ela vive, o ambiente familiar, o estilo das relações, as adversidades e a sua história familiar.
O apoio psicológico, deve ir além de avaliar e intervir no aqui e agora, é preciso entender como interromper o ciclo. Um dos caminhos é, justamente, o reprocessamento das memórias traumáticas, que pode ser feito através da Terapia EMDR, realizada por clínicos devidamente credenciados para o efeito (psicólogos clínicos ou médicos psiquiatras, com especialização em terapia EMDR).
“O degrau de uma escada não serve simplesmente para que alguém permaneça em cima dele, destina-se a sustentar o pé de um homem pelo tempo suficiente para que ele coloque o outro um pouco mais alto. – (Thomas Huxley)
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