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História & PatrimónioSociedade

A determinação e ambição dos messinenses há 200 anos! E hoje?

Aurélio Cabrita
Última Atualização: 2024/Out/Seg
Aurélio Cabrita
2 anos atrás
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No Outono de 1824, juiz e irmãos da confraria de Nossa Senhora da Saúde, «assim como todos os mais moradores do dito lugar e freguesia» de São Bartolomeu de Messines, fizeram uma petição ao rei D. João VI.

Lembravam que, desde antiquíssimo tempo, celebravam anualmente a Festa da Natividade de Nossa Senhora, com a dignidade e decoro que as suas possibilidades lhes permitiam.

Todavia, desejavam de «dia em dia mais e mais se augmente a referida Solemnidade para Gloria e honra de Deos», pelo que, constituindo um «dos meios mais conducentes a hum tão importante e religioso fim, com também para a utilidade e proveito dos suplicantes», pediam ao monarca a criação de uma feira franca de lojas, gados e todos os mais géneros nos dias 20, 21 e 22 de Setembro de cada ano, nas imediações da dita ermida. Justificavam por «ser então o tempo, em que nenhua Feira há em todo o Algarve», requerendo todo o produto do terrado para a dita Confraria.

A 7 de julho de 1825, o rei concedeu a autorização para a realização da feira de Nossa Senhora da Saúde, porém, só metade do terrado devia ser entregue à Confraria, dado que a outra metade seria para a Câmara de Silves, conforme esta última lhe suplicara. Os messinenses sentiram-se lesados e num novo pedido a D. João VI lograram, no ano seguinte, arrecadar todo o dinheiro cobrado aos feirantes pelo espaço que ocupassem. A festa de Nossa Senhora da Saúde passou a contar, a partir de então, como qualquer romaria, com uma feira, uma realidade transversal a tantas outras romarias em Portugal, como a de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego, só para referir um exemplo maior.

Cartaz de 1978 (Cedido por João Vieira)

Ora, o culto a Nossa Senhora da Saúde já se evidenciava na freguesia em 1758, ocorrendo a festividade no dia do Santíssimo Nome de Maria (primeiro domingo depois do dia 8 de Setembro). Quanto à edificação da ermida, é provável que seja contemporânea da igreja matriz, sendo que a referência mais antiga que se conhece, por agora, é 1705.

Em 1825 a solenidade religiosa, pelas datas propostas para a feira, realizar-se-ia provavelmente no dia 21 de Setembro, atraindo devotos da freguesia de São Bartolomeu de Messines e limítrofes, mas com a criação do certame, numa época que não existia outra feira no Algarve, pretenderam os messinenses dignificar e elevar o culto a Nossa Senhora de cariz local, a regional. Ambicionaram mais um atrativo para engrandecer a solenidade e a freguesia e lutaram por aquilo que consideraram justo.

A feira adquiriu grande notoriedade e foi o mostruário económico, social e cultural da freguesia durante décadas. Em 1931, por exemplo, só no dia 20 de Setembro, o número de visitantes foi estimado entre 8 000 a 10 000 pessoas, vindos das freguesias limítrofes, Baixo Alentejo, Faro e Lisboa.

Como é do conhecimento geral, a solenidade religiosa manteve-se na data fixa de 21 de Setembro até meados dos anos de 1990, quando virou móvel, não acompanhando a feira essa mudança, tornando-se pouco a pouco insignificante.

Nos últimos anos temos alertado, nestas colunas, por várias vezes, a importância de uma reflexão que se impõe sobre o certame, nomeadamente a sua realização ao fim de semana, acompanhada de um bom cartaz musical. Infelizmente e ao contrário do que sucedeu há 200 anos, a governança local tem primado pelo alheamento. Criaram-se novos certames, dividiu-se ao invés de se agregar (como os nossos antepassados fizeram) e menosprezaram-se as verdadeiras tradições da freguesia.

Os hábitos alteraram-se, a economia local já não assenta somente na agricultura e se há duzentos anos o fim de Setembro era sinónimo dos frutos secos vendidos e dinheiro na algibeira, hoje já não sucede assim.

Mas também a solenidade religiosa de Nossa Senhora da Saúde não foi imutável ao longo dos tempos. Em 1758 realizava-se no primeiro domingo a seguir ao dia 8 de Setembro, em 1824 já seria no dia 21 de Setembro, para no dealbar do milénio se tornar móvel.

A feira e a festa têm de obrigatoriamente voltar a coincidir, foi para isso que o certame foi criado em 1825. Se a festa de Nossa Senhora da Saúde é móvel, para coincidir com o fim de semana, a feira também o deverá ser. Porém, por que não alterar a solenidade para a data primitiva, o primeiro domingo a seguir ao dia 8 de Setembro e realizar a feira também nesse fim de semana? Tal não invalidava que no dia 21 se celebrasse a Eucaristia no Santuário. Mas desta forma a feira e a festa realizavam-se no princípio do mês, ainda com muitos emigrantes e turistas entre nós, numa altura em que as noites são por norma mais aprazíveis e as carteiras se encontram mais recheadas. Não faltam feiras, um pouco por todo o lado, que renasceram e ganharam a importância que tiveram outrora, como já este ano aconteceu em Salir, ou no Baixo Alentejo, de que a feira de Garvão é um bom exemplo, certames sempre acompanhados por um relevante cartaz musical.

No próximo ano completam-se 200 anos da criação da feira de Nossa Senhora da Saúde. O certame, por coincidência, vai realizar-se ao fim de semana e merece ter uma comemoração digna desse nome. Mas acima de tudo é necessário agir para que a feira se conserve por mais dois séculos.

Quererão os messinenses revitalizar também a sua feira? Realizando-a juntamente com a festa a Nossa Senhora da Saúde, no fim de semana próximo ao dia 21 de Setembro? Ou quiçá no primeiro domingo a seguir ao dia 8 de Setembro, em 2026?

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PorAurélio Cabrita
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nasceu em 1978. Licenciado em Engenharia do Ambiente, é mestrando em História do Algarve e técnico superior no Município de Odemira. Tem publicados diversos artigos e livros sobre a história local e regional. É também colaborador no jornal on-line Sul Informação.
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