Em tempos muito recentes (há cerca de uma dezena de anos), graças à marca de vinhos “Convento do Paraíso”, produzidos na Quinta de Mata-Mouros, reavivou-se uma memória, já bastante esbatida, de uma casa conventual que os frades franciscanos tiveram em Silves, naquele espaço, abaixo da cidade, na margem esquerda do Rio Arade.

A presença da Ordem de São Francisco, dita dos Frades Menores, no Algarve, deve remontar a finais do século XIII, altura em que esses religiosos mendicantes terão estabelecido conventos em Loulé e Tavira. Não se encontrou até à data qualquer documento que testemunhe a existência de um convento franciscano em Silves antes do século XVI, sendo geralmente apontada a data de 1518 para a sua fundação.
A bula Dudumsiquidem de 25 de Outubro de 1465, do Papa Paulo II (Bullarium-Franciscanum, n. s. II, nº 1307, p. 666, cit. Vítor Gomes Teixeira, O Maravilhoso no Mundo Franciscano…, 1999, p. 34)menciona um convento em Silves, além dos de Loulé e Tavira, mas não se conhece qualquer outra notícia que confirme essa referência, sendo de assinalar que nada consta sobre o cenóbio de Silves na crónica da ordem relativa ao Algarve (Frei Jerónimo de Belém, Crónica Seráfica da Santa Província dos Algarves, 1750).
O convento capucho
A partir do início do século XVI, com a expansão do ideal franciscano, foram criadas novas províncias (divisões territoriais da ordem), a saber: Província da Piedade, da Arrábida e de Santo António. É justamente na Crónica da Província da Piedade (1696), de Frei Manuel de Monforte, que vamos encontrar as informações das circunstâncias da fundação do convento de Silves. Diz o cronista que a iniciativa de criar o convento coube ao bispo de Silves D. Fernando Coutinho, em 1518, numa ermida fora da cidade que antes havia feito edificar com a invocação de Nossa Senhora do Paraíso. No mesmo ano, o prelado silvense fundou também o convento de Lagos e estando os dois quase acabados, fez doação deles, junto com o de S. Vicente do Cabo, ao rei D. Manuel, por escritura pública celebrada em Santos-o-Novo, a 21 de Julho de 1520, para que o soberano os entregasse de sua mão aos Religiosos da Custódia de Santa Maria da Piedade (cf. J. B. Silva Lopes, Memórias para a História Eclesiástica do Bispado do Algarve, 1848).

Os frades da Província da Piedade, bem como os das províncias da Arrábida e de Santo António, integraram, em 1528, a ordem dos Frades Menores Capuchinhos, um ramo da primeira ordem da família franciscana, dito da Estrita Observância da Regra, exteriormente visível no hábito castanho (por vezes remendado), cordão à cintura com três nós, capuz pontiagudo, sandálias ou descalços e uso de barba, atributos que simbolizavam a “santa pobreza e desprezo do mundo”.
O convento capucho de Silves era pequeno e pobre, com a sua horta e pomar, tendo de notável uma fonte com fama de sadia. Ao todo, seriam uns dez frades que habitavam o convento. Um episódio, referido por J. D. Garcia Domingues (Silves, Guia Turístico…, 2ª ed. 2022, p. 27) dá notícia de um milagre ocorrido no tempo em que Frei António de Nebrixa (f.1579) era vigário do convento, num período de uma fome pavorosa. Sucedeu que estando os frades a dar graças a Deus, apesar da falta de comida, tocou a sineta da portaria e foram encontrar um cesto com dez pães e dez refeições de carne de carneiro cozida. Além das dificuldades derivadas de um assumido voto de pobreza, os frades tinham de suportar enfermidades várias e sezões, dada a insalubridade do lugar, pela proximidade do rio, progressivamente assoreado e com águas estagnadas. Assim. pediram para deixarem o convento, o que foi concedido pelo capítulo da ordem, reunido em Évora, em 1592. Os moradores de Silves suplicaram que ficassem e ainda se mantiveram mais alguns anos, até se tornar insuportável a permanência, com “as enfermidades a aumentar e as mortes eram muitas”, de modo que em 1618, o capítulo da ordem autorizou o abandono definitivo dos frades capuchinhos que foram para outras casas da Província da Piedade, sobretudo para Portimão.
O convento de terceiros franciscanos
O convento não esteve muito tempo vago, pois ainda em 1618, a pedido de Rui da Silva, morador em Silves, foi ocupado por outro ramo da grande família franciscana, os Padres Ordem Terceira de São Francisco que, nos séculos XVII e XVIII, promoveram alguns melhoramentos nas dependências conventuais e continuaram a receber esmolas, quer régias, quer camarárias, antes dadas aos seus antecessores da Província da Piedade. Em 4 Abr. 1641, alvará mandando que a câmara dê anualmente 10 mil e 400 réis aos religiosos terceiros do valor da carne de antiga esmola. Em 20 Fev.1792, alvará para se continuar a esmola de 12 arráteis de pimenta, 6 de cravo, 6 de canela, 4 de gengibre, 5 de malagueta e 6 de incenso (tudo entregue na Casa da Índia) (docs. Torre do Tombo, Registo Geral de Mercês).
Deve destacar-se a importância que os franciscanos da Ordem Terceira tiveram no ensino em Silves. Sabe-se, por quatro cartas régias, de 15 Out. 1779, que foi criada uma Escola de Ler, Escrever e Contar, e uma Cadeira de Gramática Latina, a cargo dos religiosos terceiros, com dotações anuais de 40 mil réis e 60 mil réis, respectivamente, bem como 20 mil réis para o professor de Latim e outro tanto para o professor de Ler e Escrever, ambos equiparados aos professores régios. (T.T., R.G.M.).Refira-se que Frei Vicente Salgado, o autor das Memórias Eclesiásticas do Reino do Algarve (1786) foi professor régio de Latinidade no convento de Silves.
A extinção do convento
O terramoto de 1 de Novembro de 1755 tinha causado graves estragos nos edifícios do convento (Gazeta de Lisboa, nº 47, 6 de Novembro) que entrou em acentuada decadência no início do século XIX. Quando, em 30 de Maio de 1834, foi publicado o decreto de extinção das ordens religiosas, estava praticamente abandonado e em ruínas, sendo administrado pelos religiosos do convento de Monchique.
Os autos da tomada de posse para os Bens Nacionais e o inventário que se começou a fazer em Junho de 1834, referem um “convento e igreja com a maior parte demolida” e uma “cerca”, no sítios então designados por Serra da Fonte e Charneca, nos subúrbios da cidade. Foi no seu conjunto avaliado em 400 mil réis, sendo maior a valia da cerca que constava de “laranjeiras, oliveiras, figueiras e mais algumas árvores, e terra de semear com água natura” (T.T.,Inventário de Extinção do Convento de S. Francisco de Silves, 1834).
Os bens do extinto convento foram adquiridos em hasta pública por Domingos Vieira. Alguns anos depois vieram a ser propriedade de Salvador Gomes Vilarinho e em seguida de Francisco Manuel Pereira Caldas, 1º conde Silves (falecido em 1915), até serem adquiridos aos herdeiros deste por Vasco Quevedo que efectuou uma série de transformações (cf. Ficha da DGEMN, nº 0813070027).A partir de 2008entrou na posse da família Pereira Coutinho que, em parceria com a família Soares, desde 2012 tem desenvolvido o projecto vitivinícola “Convento do Paraíso”, com reconhecido sucesso.








