A 1 de fevereiro de 1924 saía para as bancas o jornal «O Messinense», o primeiro periódico publicado em São Bartolomeu de Messines.
O diretor, José (João) da Encarnação e Sousa, guarda-livros de profissão, não era da terra, ao contrário do administrador e editor, o messinense José Nobre Ruivo, ambos muitos jovens, completariam pouco depois 18 anos de idade.
Ao todo foram publicados 33 números, sendo o cargo de diretor ocupado, a partir de março de 1925, por Francisco Pereira Clemente.
Os primeiros números inseriram artigos com a descrição da aldeia, que nos permitem hoje conhecer a realidade de há 100 anos: «no sul do Paiz, na encosta dum monte elevado, denominado Penedo Grande, denominação que provém talvez dos enormes blocos de pedras que se encontram em quasi todo o monte, e donde se disfruta um lindo panorama, avista-se o mar para o sul, e a cordilheira de côr escura para o norte; fica a minha aldeia. É um centro muito industrial, sendo a sua principal industria o fabrico de cortiças. O comercio está de tal forma desenvolvido, que se pode dizer, serem as ruas da baixa constituídas por estabelecimentos de fazendas, ferragens, mercearias, solas e cabedais, adubos quimicos, cereais, farinhas, vinhos, etc.». A fertilidade da freguesia também não foi esquecida: «o solo é muito fértil, produzindo de tudo e bom, como trigo, figos, amêndoas, alfarrobas, azeitonas, laranjas, tangerinas, feijão, grão, cevada, batatas, milho, etc.».
Do ponto de vista turístico, elencava: «é digno de ser visitada a igreja matriz, pelos artísticos e talentosos trabalhos de talha que lá se encontram».
Quanto a celebridades, a terra «notabiliza-se principalmente por ter sido o berço do grande poeta João de Deus, espírito sublime».
Na edição seguinte, de 15 de Fevereiro, a descrição prossegue: «o comercio é nesta povoação tão desenvolvido, que o serviço na estação do caminho de ferro, é um carregar e descarregar contínuo de fazendas, mercearias, solas, ferragens, vinhos, farinhas, alfarrobas, amêndoas, etc. A industria própria da região, alem da cortiça em que se ocupam numerosíssimos operários, consiste no fabrico de rebolos e pedras de amolar, sustentando esta industria uma numerosa classe de trabalhadores».
São Bartolomeu de Messines era, por aqueles anos, uma terra dinâmica, com uma agricultura, comércio e indústria prósperos, a que não eram alheias as boas vias de comunicação, ou seja, a existência das estradas macadamizadas, para Silves, Alte, Algoz ou Paderne, que o articulista também mencionou. Quanto ao serviço de correios e telégrafos, «é feito por um carteiro para a povoação, e dois para a freguezia».
A população, estimada em treze mil habitantes, havia aumentado bastante. Na aldeia existia um «sub-posto da Guarda Nacional Republicana, um médico, o ex.mo sr. Dr. Abelho Telo Mexia, duas farmácias, uma ampla e bem situada praça de peixe, duas importantes fabricas de moagem, realizando-se n’esta localidade quatro feiras anuais e doze mercados mensais». Todavia, nem tudo estava bem, principalmente a nível das escolas: «com a população acima citada, só temos em toda a freguezia quatro escolas oficiaes, que é insuficiente, e deveras lamentável».
O ensino seria uma das batalhas de «O Messinense», sendo que a publicidade que passa a inserir nas suas páginas, principalmente após o número 2, testemunha a pujança económica da aldeia e da freguesia. Toda esta dinâmica comercial, agrícola e industrial leva, em dezembro de 1924, o jornal a publicar um longo artigo intitulado: «São Bartolomeu de Messines: – É já tempo», no qual era defendida a elevação a vila e posteriormente à categoria de sede de concelho.
Segundo o Prof. Vilhena Mesquita, na obra «História da Imprensa do Algarve», n’ «O Messinense» tiveram «guarida muitos poetas, dos mais modestos aos mais consagrados, o que, aliás, também acontecia na prosa, dando à luz da estampa alguns contos e novelas de fino recorte estilístico». De carácter cultural, literário e propagandístico dos valores da aldeia, debateu-se também pela melhoria das estradas e dos serviços ferroviários, bem como, pela construção de um Jardim-Escola João de Deus, que somente se tornaria uma realidade em 1972. Ao egrégio João de Deus dedicou um «primoroso número especial, de belíssimo aspecto gráfico, em que colaboraram os melhores publicistas desse tempo», nas palavras daquele historiador.
Inicialmente composto e impresso na Tipografia Socorro (a vapor), em Vila Real de Santo António, «O Messinense, quinzenário, regionalista, independente», passou, a partir de dezembro de 1924, para a Tipografia Minerva Comercial, em Évora.
Atualmente é possível consultar a coleção integral no sítio da internet da hemeroteca digital do Algarve (http://hemeroteca.ualg.pt/pesquisa/), para a qual remetemos o leitor interessado.









