A falta de água para a rega dos citrinos na região algarvia e em particular no concelho de Silves está a deixar este sector em perigo, conforme os alertas que têm sido feitos por associações e produtores.
No caso do concelho, a situação de falta de água arrasta-se há bastante tempo, sendo que desde o verão passado, a Associação de Regantes e Beneficiários de Silves, Lagoa e Portimão, que já vinha fazendo cortes na disponibilização da água, foi forçada a tomar medidas mais drásticas.
Esta situação afeta fortemente toda esta região, uma vez que é aqui que se concentra a esmagadora maioria da produção de citrinos, calculando-se que o concelho de Silves produza atualmente 50 % de toda a produção nacional.
Sendo esta uma cultura de regadio, que não sobrevive com a seca, para os responsáveis do sector, que recentemente estiveram reunidos em Alcantarilha para discutir esta temática, existe o sério risco de desaparecimento desta atividade, marcada já por uma quebra na produção e aumento de preços.
No referido encontro, o presidente da Associação de Regantes de Silves, Lagoa e Portimão, João Garcia, deixou um apelo aos governantes para que sejam tomadas medidas atempadas. E que estas possam resolver este problema que afeta cerca de 2.300 hectares de terrenos agrícolas, nos concelhos de Silves, Lagoa e Portimão, sendo que 1.100 hectares são de citrinos.
Não afetando apenas a cultura de citrinos, a seca no Algarve continua em níveis altos, que contrastam com os baixos níveis nas barragens.
Segundo o Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos, a albufeira do Arade, que serve este perímetro de rega, estava em dezembro a 15% do seu nível máximo, enquanto a de Odelouca estava a 24,6% e a do Funcho a 30,4%.
No final do mês de dezembro a bacia do Barlavento continuava a ser a que tinha a menor quantidade de água, apenas 7,7%, quando a média é de 63,1% e a do Arade estava a 24,6%.
Dessalinizadora e outras medidas
A gravidade da situação levou também o vice-presidente da APA (Associação Portuguesa do Ambiente), em declarações ao jornal Público, a declarar que a seca no Algarve é a “pior de sempre” e a admitir restrições ao consumo para que não falte água nas torneiras. Medidas que, adiantou, serão equacionadas em janeiro ou fevereiro deste ano, consoante a situação.
Como medidas a médio prazo, apresenta-se a construção da dessalinizadora no concelho de Albufeira. A consulta pública referente à construção deste equipamento terminou no dia 19 de dezembro e a mesma tem sido amplamente contestada por várias associações ambientalistas.
A construção da Dessalinizadora do Algarve é uma das medidas financiadas no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, com um investimento de cerca de 90 milhões de euros.
Segundo a empresa promotora do projeto, a Águas do Algarve, o “Projeto da Solução de Dessalinização na região do Algarve prevê o aumento da resiliência dos recursos hídricos, através de um acréscimo das disponibilidades hídricas e da ligação entre sistemas em alta, em cerca de 16 hm3/ano” e “trata-se da concretização de uma alternativa capaz de garantir a resiliência do abastecimento público à população da região do Algarve, mesmo em períodos de seca prolongada, visando a garantia de disponibilidade de água para os consumos atuais e futuros”.
Também recentemente, no dia 15 de dezembro, foi aprovado em sede da AMAL, um reforço de 8,9 milhões de euros para juntar aos 35 milhões já previstos na medida gerida pela Comunidade Intermunicipal do Algarve, no âmbito do Plano de Eficiência Hídrica do Algarve, com o apoio do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência.
A medida tem em vista a reabilitação dos sistemas de abastecimento em baixa, com o objetivo de reduzir as perdas reais de água. Até ao momento, já foram aprovadas 31 candidaturas, a que corresponde um investimento de 21 milhões de euros.
A decisão sobre as candidaturas apresentadas cabe a uma Comissão de Gestão composta pela Comunidade Intermunicipal, pela Agência Portuguesa do Ambiente, representada pela Administração da Região Hidrográfica do Algarve, e pela Universidade do Algarve. No final da execução do projeto, prevê-se que sejam reabilitados 125 km de rede de abastecimento de água em baixa, contribuindo para uma redução de 2hm3 na procura de água nos sistemas naturais.
No âmbito desta medida, a AMAL tem vindo, também, a desenvolver outras iniciativas, como, por exemplo, ações de formação sobre redução de perdas de água no setor urbano, dirigidas às 19 Entidades Gestoras dos sistemas de abastecimento de água em baixa, mais concretamente aos municípios e empresas municipais.
E entretanto, a ministra da Agricultura, anunciou que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) tem 17 milhões de euros de obras em curso para criar maior resiliência, do território algarvio, às alterações climáticas e seca.
Mas, todas estas medidas, não resolvem uma questão que se coloca já hoje: e se amanhã não chover?
Medidas nos próximos dias
Na nossa edição em papel, com data de dia 9 de janeiro, terminávamos o texto com essa interrogação: e se amanhã não chover?
E de facto, a gravidade da situação, que nos últimos dias ganhou grande relevância, até mesmo nos meios de comunicação social nacionais e em intervenções de vários membros do Governo, está a justificar uma série de diligências com vista a anunciar medidas que irão afetar não só a agricultura, como até agora, mas todos os sectores de atividade da região e até mesmo o consumo doméstico.
Estas medidas que preveem um corte de 70% para a agricultura e 15% no consumo doméstico devem ser anunciadas dentro de poucos dias, após a reunião da Comissão Interministerial da Seca, que irá reunir no dia 17 de janeiro.







