Se o Algarve é a principal região produtora de laranjas do país e Silves tem nessa produção o lugar principal, em quantidade e qualidade, ao analisarmos a evolução histórica do cultivo da laranjeira em Portugal, verificamos que tanto a preponderância de Silves como do Algarve são relativamente recentes.
As condições climáticas da região (sol, ausência de geadas) e as aptidões dos solos não bastaram, durante séculos, para alcançar o lugar de destaque que apresentam na actualidade, devido à escassez de um factor essencial, a água. Assim, o desenvolvimento da cultura das laranjas só ocorreu a partir da construção das barragens do Arade (1956) e do Odiáxere /Bravura (1958) e com posterior incremento graças à abertura de numerosos furos artesianos.
Apresentar um esboço histórico, ainda que resumido, da cultura da laranja em Portugal e, particularmente, na região algarvia, é o objectivo deste artigo
A primeira introdução da laranjeira na Península Hispânica deve-se aos árabes que trouxeram a planta da Pérsia, por volta do século X, muito provavelmente. Vários autores do Garb al-Andalus referem as laranjas, seja em livros de agricultura, tratados médicos ou em textos literários.
Um destacado exemplo são os versos de Ibn-Sara, de Santarém (séc. XI):
Laranjas são brasas vivas sobre ramos
ou rostos espreitando entre colinas verdes?
e a ramaria, folhas que baloiçam
ou formas frágeis que me causam pena? (…)
No século XI, o agrónomo Abu Zaccaria, que viveu em Sevilha, escreveu um tratado de agricultura (Kitab al-filäha), com um capítulo dedicado à laranjeira, em que refere as utilizações culinárias (doçaria), medicinais e na perfumaria, do fruto, casca, folha e flor, e diz-nos que a variedade de laranja era azeda (agra).
Uma curiosa gravura de um tratado médico árabe, do século XIII, no al-Andalus, mostra-nos um príncipe, um médico e o seu assistente, debaixo de uma laranjeira.
No território que veio a constituir o Reino do Algarve, a cultura da laranjeira acompanhou certamente a presença árabe, mas tarda a surgir atestada na documentação medieval.Só em 1504, vamos encontrar referências a laranjas no foral manuelino de Silves e nos outros forais algarvios, no capítulo sobre os direitos de portagem da “Fruta verde e seca”:E de carga maior [cerca de dez arrobas] de laranjas, peras, pêssegos, maçãs e de toda outra qualquer fruta verde pagarão meio real (…) E quem comprar para fora menos de costal ou canastra, não pagará nada.
As laranjas citadas nos forais de 1504 eram, com elevada probabilidade, da variedade agra ou azeda (Citrus aurantium L.), pois as laranjas doces, as chamadas laranjas da China (Citrus sinensisL.) só foram aclimatadas em Portugal a partir do séc. XVII, embora alguns investigadores defendam que a sua cultura pode ser mais antiga. Numa obra recente (Anabela Ramos, Laranjas de Portugal, séculos de cultivo e consumo, 2022), coloca-se a pertinente hipótese, sustentada por documentação diversa, de que, ainda no século XVI, através de enxertos e renovações sucessivas foi-se apurando a variedade agra até a tornar mais doce, dando origem a uma variedade agridoce, então chamada laranja bical.
Mas, vejamos o que nos dizem as muito raras referências documentais a laranjas e laranjeiras, no período medieval.
Em 1258, nas Inquirições de D. Afonso III, surge o topónimo “Laranjeira”, num sítio perto de Guimarães (Inquisitiones, I, p. 708). Em 1262, num documento do cartório da Universidade de Coimbra, citado por Viterbo (Elucidário, II, p. 169), encontramos a menção de uma “narancharia” (isto é naranjeira, o mesmo que laranjeira), Depois, em 1374, noutro documento conventual, citado também por Viterbo (Elucidário II, p. 405), fala-se da “rama de laranjeiras de certovirgeu” (=pomar). Num livro de despesas da casa real, no reinado de D. Afonso V (1438-1481), somos informados de que a laranja era um dos ingredientes no preparado de uma espécie de conserva de peixe (cf. Anabela Ramos, op. cit. p. 26). De finais do séc. XV, inícios do séc. XVI, está datado o Livro de Cozinha da Infanta D. Maria de Portugal, em que surge a receita de uma compota com flor de laranjeira, mas nenhuma receita com laranja.
Ao que parece, o primeiro contacto que os portugueses tiveram com uma variedade de laranjas doces foi em 1498, na Índia. O autor do Roteiro de Vasco da Gama diz que quando os navios portugueses, em 1498, chegaram perto de Mombaça, vieram a eles duas almadias … que trouxeram muitas laranjas, muito boas, melhores que as de Portugal.
Este facto tem levado alguns autores (p. ex. Cristina Castel-Branco, cf. Ramos, op. cit., p. 35) a considerar que os portugueses trouxeram, logo nessa altura, a laranjeira doce para Portugal e a aclimataram no nosso território. Em abono dessa opinião, é referido que D. João de Castro, em 1543, tinha trazido uns pés de laranjeira de Goa e plantou-os nos jardins da Quinta da Penha Verde (Sintra). É provável, mas não deve ter passado de uma experiência isolada. Documentos diversos do século XVI, falam-nos de laranjais nas cercas dos mosteiros e em jardins de casas nobres, sem precisar de que tipo de laranjas se trata, presumindo-se que seriam agras.
No entanto, em 1531-1532, na obra Descrição de Lamego, o autor Rui Fernandes dá a entender que as laranjas são uma fruta com certa doçura, uma vez que se consumia fresca.
Em meados do século XVI, temos várias notícias que nos dão conta da exportação para a Flandres e Norte da Europa de laranjas e limões, sendo o preço destes superior ao das laranjas, o que parece confirmar que seriam azedas e que a variedade agridoce tinha ainda uma produção mais restrita, local e regional.
Ao longo do século XVI, chegam continuadamente notícias das laranjas da China, através de relatos de missionários e viajantes. Em 1569, Frei Gaspar da Cruz pormenoriza no seu Tratado das Cousas da China, que naquele império havia três variedades de laranjas doces.
Entretanto, no Algarve, os documentos guardam um significativo silêncio acerca das laranjas na região, com excepção de Frei João de S. José que, em 1577, na sua Corografia do Algarve nos diz que em Monchique se acha todo o género de fruta, isto é, a cereja, a castanha, o pero, a laranja.
Mesmo no início do século XVII, quando já se tinha difundido por quase todo o país o cultivo da laranjeira agridoce, não encontramos referências a essa variedade no Algarve.
Em 1610, Duarte Nunes de Leão, na sua corografia Descrição do Reino de Portugal, cap. XXXIII, fl. 62, afirma queas laranjas bicais que podiam dar saúde a um febricitante, por o grande temperamento de agrodoce que têm que é o mais gostoso e guloso que pode ser tinham como principais áreas de produção o Minho, região de Lisboa, Beira e Alentejo. E prosseguia, falando das mesmas regiões: Finalmente desta fruta é tão provida a terra que na Primavera em qualquer lugar que se ache uma pessoa lhe cheirará a flor de laranja.
(continua)








