Porta quinhentista, (re)descoberta no Algoz, vem enriquecer o património edificado da freguesia e do concelho
No decurso de recentes obras de remodelação de uma casa, na rua Tomé Rodrigues Pincho, 14-16, ao retirar-se o reboco da moldura de uma das portas (n.º16), revelou-se um vão arquitectónico em cantaria, com características tardo-góticas, vulgarmente ditas manuelinas, em muito bom estado de conservação.
A porta agora (re)descoberta vem acrescentar-se a outras da mesma época (finais do séc. XV, inícios do séc. XVI) que lograram subsistir até aos nossos dias, quer no Algoz, quer em Silves e Alcantarilha.
Esses singulares vestígios foram já objecto de um estudo de Manuel Castelo Ramos, no âmbito da sua tese de mestrado “Vãos arquitetónicos do tardo-gótico algarvio”, Universidade Nova de Lisboa, 1986.
No Algoz, mantém-se, pelo menos, duas das portas então referenciadas (Travessa dos Abraços e Travessa Tomé Rodrigues Pincho), ambas com as ombreiras e lintel de arestas chanfradas e elementos decorativos na base.
Talvez por lapso, não aparecem referidas num folheto de edição camarária, “Roteiro Manuelino do Concelho de Silves”, ed. 2004, que apenas menciona as portas quinhentistas de Silves e de Alcantarilha.
Outras haverá, no concelho, seja por identificar, seja por estarem ocultas sob reboco, como aquela de que agora damos notícia.
A casa da Rua Tomé Rodrigues Pincho, n.ºs 14-16, encontra-se muito próxima do Monte da Piedade (nº 8), celeiro comum fundado em 1704 pelo lavrador que daria o nome ao arruamento. Está separada do edifício do celeiro por uma casa (n.ºs 10-12), algo adulterada na traça original, mas que se sabe ser da mesma época e ter pertencido à mulher de Tomé Rodrigues Pincho.
Com efeito, na escritura de doação que T. R. Pincho fez, em 25.12.1702, aos lavradores do Algoz das casas para instituição o do Monte da Piedade, é dito que essas casas partiam ao Nascente com umas casas que a mulher dele doador tinha dado a um seu escravo, de nome Gregório. Este facto, leva-nos a colocar a hipótese das casas dos n.ºs 14-16 terem sido as casas de morada do próprio Tomé Rodrigues Pincho, recebidas por herança.
Pelo que foi possível averiguar, sabemos que Tomé Rodrigues Pincho nasceu no Algoz, cerca de 1630, e era filho de João Pincho (n. c. 1600) e de Maria de Oliveira (n.c. 1605), ambos também naturais do Algoz. Casou em 1655, com Maria da Esperança Marreiros (ou Marreira), natural de Estômbar (n.c. 1635, falecida antes de 1702). Foi um abastado lavrador, com morada no Algoz e referido, nos livros de registo paroquial, como tendo escravos, ele e a mulher. Viria a falecer, no Algoz, na condição de viúvo, em 3 de Abril de 1713. Tinha feito testamento e deixou como testamenteiro o seu genro Pedro Correia Mascarenhas que, assinale-se, tinha origens nobres na família Ataíde Mascarenhas, de Loulé. Parece-nos muito provável que as casas que temos vindo a referir lhe pertencessem, o que poderá ser, ou não, confirmado pelo seu testamento ou outros documentos notariais que supomos terem-se conservado e que devem existir no Arquivo Distrital de Faro.
Seja como for, a porta quinhentista, agora posta a descoberto, assume um elevado valor histórico e patrimonial, não só para a freguesia, como para o concelho, e merece ser devidamente preservada e divulgada, no âmbito de uma política de desenvolvimento cultural.












