Poluição luminosa – um problema transversal a Portugal

A sociedade portuguesa está hoje minimamente sensibilizada para as questões ambientais, seja a nível da contaminação da água, dos solos, do ar, etc. Todavia, tal não acontece com a poluição luminosa. Portugal é mesmo o país da União Europeia onde esta é mais excessiva, o que para um território pobre em recursos energéticos é não só absurdo, como duplamente prejudicial, em termos ambientais (biodiversidade) e económicos.

Afinal, o que é a poluição luminosa? É o excesso de iluminação artificial durante a noite, proveniente de estradas, ruas, edifícios ou publicidade. O deslumbramento causado pela energia eléctrica continua a fascinar os portugueses e os seus dirigentes políticos, locais e nacionais, que teimam em transformar a noite em dia, perante a indiferença da população. A substituição das luminárias pela nova tecnologia, designada LED de tonalidade branca, podia constituir uma oportunidade para rever o excesso de iluminação. Porém tal não só não acontece como o fenómeno é amplificado pela maior luminosidade proporcionada pelos LED.

Recorde-se que a eletrificação do meio rural ocorreu depois de 25 de Abril de 1974, altura em que as redes energéticas foram ampliadas e a maioria dos postes, que ladeiam estradas e caminhos, alternadamente, dotados de luminárias. Uma prática que não deixou de crescer, de tal forma que atualmente todos os postes têm inexplicavelmente candeeiros, apesar dos veículos automóveis estarem dotados de luz própria e de serem residuais aqueles que hoje se deslocam a pé durante a noite, em espaços campestres, ao contrário do que então acontecia. Por outro lado, o êxodo rural não levou as autoridades a removerem os pontos de luz, que lá permanecem, muitas vezes a iluminar não os edifícios mas já as ruínas destes. Em meio urbano, se a iluminação é fundamental e garante de segurança, tal não justifica um excesso de luminárias, ao longo dos arruamentos, muitas vezes em ambos os lados da rua.

Poluição luminosa, quando da noite se faz dia

Quando a Europa há muito despertou para esta realidade, Portugal mantém-se inexplicavelmente alheado a esta problemática.

Recentemente foi publicado no jornal «Público», na edição de 15 de Maio, uma «carta aberta: reduzir a poluição luminosa em Portugal», subscrita por um conjunto de personalidades que alertam e pedem medidas urgentes para minimizar as consequências negativas na biodiversidade (anfíbios, avifauna, mamíferos, répteis, insectos) e no próprio homem, do excesso de iluminação pública no país. Sem esquecer o sorvedouro de dinheiro esbanjado, para gáudio das empresas elétricas, só pelo deleite, ou mesmo luxo, de vermos tudo cintilante durante a noite. Muitos milhares de euros literalmente deitados à rua pelas autarquias.

Referem os signatários que Portugal foi o país europeu que mais aumentou a sua área iluminada entre 2012 e 2016, de tal forma que a beleza do céu nocturno, que acompanha o homem há milénios, é hoje desconhecida pela maioria dos portugueses e quase impossível de contemplar, pois a luz difunde-se na atmosfera ao longo de muitos quilómetros.

O concelho de Silves não é dissemelhante desta realidade, seja em meio rural, ou urbano, em parques de feiras, ou na iluminação de monumentos, só para dar dois exemplos. A utilização compacta de luminárias no exterior é uma realidade por todo o lado e com elas a poluição luminosa, agora potenciada com a migração para a tecnologia LED branca. Para um concelho onde os recursos financeiros nunca foram abundantes urge alterar esta situação, mantendo apenas a iluminação pública essencial e eliminando todo o excesso. Em suma, canalizar os parcos fundos para onde realmente são importantes, com prejuízo das empresas de energia é certo, mas com respeito pela natureza e por todos nós.

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