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25 de Abril de 1974 – Memórias de Silves

A Revolução dos Cravos celebra 45 anos. Realizada por militares abriu caminho à liberdade de expressão, após 48 anos de ditadura.

Silves foi um dos concelhos algarvios mais emblemáticos na oposição ao “Estado Novo”, com uma significativa resistência da sua população ao regime fascista, o que originou inúmeras greves e presos políticos. A PIDE manteve uma forte vigilância na cidade, as associações eram regularmente investigadas, o correio dos oposicionistas era aberto e os jornais e revistas eram revisados pela censura.

Aquando do 25 de abril de 1974 compunham o executivo camarário Carlos da Conceição Pinto (presidente),  José Duarte dos Santos Ortigão (vice-presidente), e António Cabrita das Neves, Luís José Guerreiro Matoso, Manuel Martins Correia e João Salema Brígida, na qualidade de vereadores, que reuniram no dia 23 de abril para tratar do expediente.

Devido às ações militares do MFA na Fóia e à atuação da GNR de Portimão, a cidade ficou sem notícias que chegavam, via telefone, por quem seguia a revolução em Lisboa. Daí que só no dia 26 de abril se consagrou a revolução e as manifestações de apoio ao MFA  se sucederam com crescente entusiasmo.

A 30 de abril, em ambiente de apoteose e verdadeira euforia, o edifício da Câmara Municipal foi aberto à população, com discursos dos democratas, e o 1º de Maio largamente comemorado.

Todavia, o contentamento generalizado contrastou com o sentimento de surpresa e consternação nas elites locais pelo suicídio do Dr. José Vitorino Formosinho Mealha, o diretor da Escola Industrial e Comercial de Silves.

O executivo camarário voltou a reunir a 7 de maio de 1974 e depois de felicitada a Junta de Salvação Nacional, colocou o seu mandato à disposição, continuando, contudo, em exercício de funções até ser substituído. Deste modo, reuniram-se mais três vezes,  a 21 de maio,  4 e 18 de junho.

Pelo presidente da Câmara “foram efectuadas reflexões acerca do momento político actual designadamente mereceu o melhor acolhimento por parte desta Câmara e de todo o concelho o novo regime de liberdade e respeito instaurado pelos militares no nosso País, em 25 de Abril último, fazendo cair, assim, um regime ditatorial que de tantos anos e pelas fórmulas adoptadas não correspondia como exuberantemente tem sido demonstrado desde aquela data aos legítimos anseios do povo português. Propôs, então, que por estes factos fosse felicitada a Junta de Salvação Nacional, acrescentando, ainda, que simultâneamente deveria ser posto à disposição da mesma Junta o mandato de toda a Câmara uma vez que foi constituída na vigência do regime deposto continuando, contudo, em exercício de funções até ser substituída.”

A denominação de arruamentos em Silves e em São Bartolomeu de Messines foi outra medida tomada nessa reunião: “Pelo sr. Presidente foi a Câmara informada de que determinados elementos da população lhe manifestaram o desejo de ver confirmada a denominação que pela população de Silves e S. Bartolomeu de Messines foi dada a determinados arruamentos dessa cidade e vila, atitude integrada nas manifestações do 1º de Maio. Deliberou, então, a Câmara, por unanimidade, sancionar o nome da Rua 25 de Abril dado ao arruamento que se inicia no Largo do Município e vai até à convergência da Ruas Miguel Bombarda e Capitão João Soares, em Silves, o nome de Largo 1º de Maio dado à Praça Diogo Cão em Silves, embora o vereador sr. Guerreiro Matoso ponderasse que tal denominação seria mais apropriada dar ao Largo do Município, e, ainda, o nome de 25 de Abril à Rua de S. Bartolomeu de Messines que se inicia na Rua João de Deus e termina na Rua Cândido dos Reis” .

No dia 19 de junho de 1974, na cidade de Faro e edifício do Governo Civil, tomaram posse dos cargos da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Silves: João Ventura Duarte, o presidente, e os vogais Estanislau do Carmo Ramos, Joaquim Sequeira, Justino das Neves Mascarenhas, José Luís Cabrita, José Gonçalves Piçarra Bravo e António José dos Santos.

A nova Comissão Administração reuniu pela primeira vez a 24 de junho e trabalhou arduamente para dar resposta aos anseios dos munícipes. Todavia, a 24 de janeiro de 1975, o presidente pediu a demissão do cargo ao Governador Civil, alegando motivos de doença, seguido dos pedidos de demissão pelos vogais António José dos Santos e Joaquim Sequeira.

A 28 de fevereiro, no Salão Nobre do edifício dos Paços do Concelho, o Governador Civil, Luís Filipe Nascimento Madeira, deu posse, como presidente da Comissão Administrativa, a Estanislau do Carmo Ramos, e como vogais a João Madeira dos Santos Bárbara, Manuel Henrique Vicente e António José dos Santos, que entretanto retirara o seu pedido de demissão.

Em abril, o chefe da secretaria municipal, Francisco Manuel Peres Ribeiro, foi promovido e transferido para o Governo Civil de Lisboa, passando as suas funções a serem exercidas por Ilda Catarina Pinheiro Ribeiro Sanches da Gama Rego.

Esta Comissão teve como prioridade instaurar os direitos e tratamento igualitário, negociar com as comissões de moradores e de trabalhadores, regularizar os serviços municipalizados e públicos, bem como auxiliar na criação dos serviços de saúde, no sentido de ajudar a suprir as carências da população do concelho.

A 21 de outubro de 1975 a Comissão Administrativa apresentou um pedido de demissão coletivo. No mês seguinte, no Governo Civil, tomou posse a Comissão de Gestão da Câmara Municipal de Silves, presidida por Ilda Catarina Pinheiro Ribeiro Sanches da Gama Rego, que secretariava as reuniões a que, então, presidia. Esta Comissão encontrou-se em funções até às primeiras eleições autárquicas que se realizaram a 12 de dezembro de 1976 e onde foi eleito para presidente Rui Hernâni Castro e Silva de Morais.

Recordar o 24 de abril de 1974 é resgatar na nossa memória coletiva um período de grande luta política na cidade de Silves, na busca de melhores condições.

 

Texto: Vera Gonçalves (Arquivo Municipal de Silves)

– Integra a Exposição “25 de Abril de 1974 – Memórias de Silves” a inaugurar no dia 25 de Abril de 2019, nos Paços do Concelho.

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