Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, no mês de dezembro, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “Os combatentes do concelho de Silves na I Guerra Mundial”.
A exposição contém uma listagem com o nome dos 250 combatentes do concelho que participaram nesta guerra e dados biográficos sobre muitos deles. Contém ainda imagens da época e os boletins militares de vários soldados. Devido à sua grande dimensão, em dezembro estará exposta a listagem dos combatentes das freguesias de Alcantarilha, Algoz e Armação. No mês de janeiro será exposta a listagem de Pêra, São Marcos da Serra e São Bartolomeu de Messines, e em fevereiro, dos soldados de Silves e Tunes.
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando o texto da exposição. A versão completa da exposição (texto e imagens), está disponível aqui:Expo_DM_Dezembro_2018
Os combatentes do concelho de Silves na I Guerra Mundial
Quando passam cem anos sobre o armistício da Primeira Guerra Mundial é tempo de homenagear e honrar a memória de todos os silvenses que combateram nos campos de batalha de África e da Europa, em defesa da sua Pátria.
Em agosto de 1914 as potências europeias envolveram-se num conflito militar de enormes dimensões, conhecido como «Grande Guerra», que se prolongou até novembro de 1918. O conflito opôs a Tríplice Entente (liderada pelo Império Britânico, França, Rússia (até 1917) e EUA (depois de 1917), conjuntamente com vários outros aliados, entre os quais Portugal) que derrotou a Tríplice Aliança (liderada pelo Império Alemão, Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano).
Com um grande impacto na sociedade de então, a guerra provocou o colapso de quatro impérios e mudou de forma radical o mapa da Europa e do Médio Oriente e o modo de vida de milhões de pessoas.
A Inglaterra, que mantinha desde há muito uma aliança com Portugal, moveu influências para que o país não participasse ativamente na Guerra. No entanto, o governo português compreendeu rapidamente os impactos que a Guerra teria para Portugal, atento à posição das colónias portuguesas e às circunstâncias políticas que condicionavam a jovem República perante as grandes nações da Europa, desde cedo demonstrou interesse em tornar-se ativo no conflito.
O objetivo estratégico do governo português de então era salvar a integridade colonial em África, quer por receio de ataques diretos dos alemães ou por temer que, sem Portugal sentado à mesa dos vencedores, as colónias portuguesas fossem usadas como moeda de troca pelos ingleses no final do conflito.
Mais de 100 mil homens para o conflito
Portugal não quis deixar dúvidas de que estava empenhado em lutar ao lado dos aliados e para isso mobilizou mais de cem mil homens, dos quais mais de 18.000 para Angola (em 1914-1915), cerca de 30.000 para Moçambique (entre 1914 e 1918) e mais de 55 mil para o teatro europeu (em 1917 e 1918).
Em setembro de 1914 foram enviadas as primeiras tropas para África, sofrendo baixas e derrotas contra os alemães, na fronteira do sul de Angola com o Sudoeste Africano alemão e na fronteira norte de Moçambique com a África Oriental Alemã.
A 9 de março de 1916, no seguimento do aprisionamento dos navios alemães que estavam refugiados nas águas neutrais da costa portuguesa, feito a pedido da Inglaterra, para serem usados pelos Aliados, a Alemanha declarou guerra a Portugal, ficando definitivamente ativo na Guerra.
A declaração de guerra da Alemanha a Portugal determinou o início da intervenção portuguesa na frente europeia e o Corpo Expedicionário Português (CEP) foi a principal força militar portuguesa enviada para França, com a finalidade de, através da sua participação ativa no esforço de guerra contra a Alemanha, conseguir apoios dos seus aliados e evitar a perda dos territórios ultramarinos.
Portugal também enviou para França uma outra força, mais reduzida e menos famosa, o Corpo de Artilharia Pesada Independente (CAPI), que se destinou a responder a um pedido de ajuda francesa, ficando sob o comando do Exército Francês, sendo aí conhecido por Corps de Artillerie Lourde Portugaise (CALP) que operou artilharia superpesada de caminho-de-ferro.
A chegada dos primeiros soldados do contingente do CEP em França, a 2 fevereiro de 1917, marcou o grande esforço militar português durante a I Guerra Mundial, numa participação que culminou no desastre da Batalha de La Lys, em 9 de abril de 1918.
Após desembarque no porto de Brest, os soldados são levados de comboio para a Flandres francesa, região do vale do Lys, para cobrir um setor entre Armantières e La Bassée, Merville e Béthune. A frente a cargo dos portugueses oscilou entre os quatro e os onze quilómetros, consoante a evolução dos combates.
Seguindo o procedimento típico de guerra de trincheiras, a frente portuguesa estava organizada em três linhas de defesa: uma perto da terra de ninguém, com duas linhas de trincheiras, uma intermédia e uma última linha com fortificações de campanha de maior envergadura e com vias de comunicação para a retaguarda.
Ao longo dos anos de 1917 e 1918 as tropas portuguesas participaram em vários combates, sofrendo e repelindo cerca de 60 assaltos e 20 bombardeamentos de artilharia dos alemães. Já o lado português lançou dez ofensivas (infrutíferas) para tentar romper as linhas alemãs.
A sua intervenção ficou marcada pela batalha de La Lys, travada a 9 de abril de 1918, data prevista para a rendição do efetivo militar português. Os alemães lançaram uma ofensiva sobre la Lys que rompeu as linhas e obrigou ao recuo das forças aliadas para a retaguarda. O CEP foi destroçado pelo exército alemão, morreram mais de 1.300 portugueses, outros 4.600 ficaram feridos, 1.900 foram dados como desaparecidos e mais de 7.700 foram feitos prisioneiros. Esta derrota marcou o início do fim da participação portuguesa na I Guerra Mundial. Os efetivos ainda aptos do CEP foram posteriormente formados em três batalhões de infantaria, e integrados no exército inglês, no qual lutaram até ao armistício.

8000 mortes
No total, Portugal perdeu cerca de 8.000 homens, a que se somam mais de 16.000 feridos e mais de 13.000 prisioneiros e desaparecidos.
Para a defesa dos territórios das antigas colónias, nomeadamente Angola e Moçambique, Portugal mobilizou destacamentos de artilharia de montanha, cavalaria, infantaria e metralhadoras, tendo as primeiras tropas portuguesas chegado, respetivamente, a 1 e 16 de Outubro de 1914. Alguns dos militares que integraram as expedições a África chegaram ou acabaram doentes, incapazes de resistir às terríveis condições de higiene vividas. Dos militares silvenses não possuímos uma listagem como a do CEP, mas houve silvenses que se destacaram, como o Coronel João Ortigão Peres, natural de Alcantarilha, entre outros . Este nosso adido militar foi chefe de Estado Maior da Expedição ao sul de Angola comandada pelo general Pereira d’Eça com a missão de vingar dos traiçoeiros ataques dos alemães e restabelecer a fronteira sul daquela nossa colónia ameaçada. Foi nessa qualidade que tomou parte a ação de 17 de agosto de 1915 e nos combates de 18, 19 e 20 na Mongua e Cacimbas de Mongua, tendo sido agraciado com numerosas condecorações e medalhas.
Na listagem que se encontra na exposição estão os nomes dos silvenses que tomaram parte nessa grande e tormentosa luta que foi a Primeira Guerra Mundial, e que fazendo parte do CEP foram mobilizados para França. Esta descrição encontra-se dividida por freguesias, com o nome do combatente, posto e serviço que desempenhou, data do embarque e desembarque em Lisboa (início e termino da sua participação) e observações, nomeadamente, se recebeu louvores, se foi medalhado, se foi ferido e se participou na batalha de la Lys .
Através desta listagem pretende-se perpetuar a lembrança de todos os silvenses que lutaram e deram a vida pela sua Pátria, lutando pela sua independência, pela paz e pela liberdade, assegurando que eles não serão esquecidos.
Alcantarilha
| Nome do mobilizado | Posto e serviço que desempenhou | Embarque em Lisboa | Desembarque em Lisboa | Observações |
| Sebastião Roldão Ramalho Ortigão | 1º Sargento Miliciano – enfermeiro – 1º Grupo Companhias de Saúde | 17.11.1917 | 12.08.1919 | Louvor pelo extraordinário zelo e competência com que desempenhou as suas funções *1 |
| Eduardo de Oliveira Mendonça | 2º Sargento – Regimento de Infantaria nº21 | 19.01.1917 | 17.05.1918 | |
| João dos Santos Quintinha | 2º Sargento – Grupo de Artilharia nº3 | 15.04.1917 | 28.10.1918 | |
| José dos Santos Russo | 1º Cabo – Regimento de Artilharia nº3 | |||
| Achiles António Judas | Soldado – Secção Técnica Automóvel | 14.02.1918 | 19.05.1919 | Embarcou para a Inglaterra a 28.02.1918 e regressou a França a 17.09.1918 |
| Alexandre Arcanjo | Soldado Servente – Grupo de Metralhadoras | 26.09.1917 | 05.02.1919 | |
| Amaro da Silva Franco | Soldado | |||
| António dos Santos | Soldado Condutor – Regimento de Artilharia nº1 | 01.07.1917 | 03.04.1919 | |
| António dos Santos Rocha | Soldado – Batalhão de Sapadores de Caminho-de-Ferro | 25.05.1917 | 01.05.1919 | |
| Carlos Santos | Soldado – Companhia de Administração Militar | 08.08.1917 | Faleceu a 20.06.1918, vítima de meningite; Caderneta Militar no Arquivo Municipal de Silves |
|
| Constantino Duarte | Soldado – CAP | 17.08.1917 | 10.04.1918 | |
| Gregório Gonçalves | Soldado – Grupo de Companhia de Administração Militar | 20.01.1917 | 29.06.1919 | |
| Inácio Gonçalves | Soldado – Regimento de Infantaria nº17 | 08.08.1917 | 28.10.1918 | |
| João Martins | Soldado – Grupo de Artilharia nº3 | 20.04.1917 | 19.05.1919 | Caderneta militar no Arquivo Municipal de Silves |
| Joaquim Resende | Soldado – CAP | 10.10.1917 | 10.03.1918 | |
| José dos Santos Teixeira | Soldado Condutor – Batalhão de Telegrafistas de Campanha | 20.01.1917 | 17.05.1918 | |
| Tomé da Silva | Soldado – CALP | 10.01.1918 | 19.05.1919 |
Algoz
| Nome do mobilizado | Posto e serviço que desempenhou | Embarque em Lisboa | Desembarque em Lisboa | Observações |
| José Cândido Coelho | Tenente Médico Veterinário – Grupo de Baterias de Artilharia | 13.04.1917 | 24.04.1919 | |
| David Rodrigues Neto | Alferes de Infantaria promovido a Tenente Miliciano – Regimento de Infantaria nº4 | 25.07.1917 | 24.1.1919 | Condecorado com a “Cruz de Guerra” de 3ª Classe;
Agraciado por Sua Majestade o Rei de Inglaterra com a mercê de “Millitary Cross” *2 |
| Virgílio Cipriano de Mendonça | Alferes de Infantaria – Batalhão de Infantaria nº22 | 21.01.1917 | 04.03.1919 | Louvor pelo muito zelo, dedicação e boa vontade que manifestou no desempenho das suas funções |
| Joaquim Matias | 2º Sargento – Grupo de Metralhadoras | 22.02.1917 | 28.01.1919 | Desaparecido em 09.041918. Por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra foi feito prisioneiro do inimigo, sendo internado em campo desconhecido |
| António Caetano | 2º Cabo – Grupo de Artilharia nº3 | 20.04.1917 | 19.04.1919 | |
| António Joaquim Machado | Soldado – Grupo de Artilharia nº3 | 20.04.1917 | 11.10.1918 | |
| Arquimedes Duarte | Soldado – Regimento de Infantaria nº17 | 27.08.1917 | 19.04.1919 | |
| Ciprão das Neves Cabrita | Soldado Telegrafista – Companhia de Telegrafistas de Praça | 26.05.1917 | 20.01.1919 | Desaparecido em 09.04.1918. Por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra foi feito prisioneiro do inimigo, sendo internado no Campo de Münster II |
| Cristóvão Fernandes | Soldado – Secção de Telegrafia Sem Fios | 26.05.1917 | 19.07.1918 | |
| David Cabrita | Soldado – 1º Grupo Companhias de Saúde | 22.02.1917 | 13.09.1918 | Condecorado com a Medalha Comemorativa de Expedição a França |
| Francisco Caro | Soldado – 1º Grupo Companhias de Saúde | 22.02.1917 | 04.02.1919 | Condecorado com a Medalha Comemorativa de Expedição a França |
| Francisco Vieira | Soldado – Regimento de Infantaria nº5 | 25.07.1917 | 09.06.1919 | Ferido por gases em 01.01.1918 |
| Hermenegildo de Sousa Faro | Soldado – Companhia de Telegrafistas de Praça | 29.08.1917 | 28.10.1918 | |
| João Marreiro | Sodado Condutor – Regimento de Infantaria nº1 | 08.08.1917 | 31.03.1919 | Louvor pelo zelo e dedicação com que desempenhou as suas funções;
Condecorado com a Medalha Comemorativa de Expedição a França |
| João Mendes | Soldado – Tratador de Cavalos – Grupo Companhia de Administração Militar | 19.01.1917 | 10.03.1918 | |
| Luís Artur Martins | Soldado Servente – Regimento de Artilharia nº3 | 21.08.1917 | Faleceu a 12.11.1918, vítima de broncopneumonia | |
| Luís Augusto | Soldado Condutor – Regimento de Infantaria nº33 | 20.01.1917 | 08.07.1919 | Louvor pelo muito zelo e dedicação com que desempenhou o serviço de chauffeur e ainda pelo exemplar comportamento e especial cuidado que sempre teve na conservação e limpeza dos camiões que lhe estavam distribuídos;
Condecorado com a Medalha Comemorativa da Expedição a França |
| Manuel Clemente | Soldado – Grupo de Artilharia nº3 | 20.04.1917 | 19.05.1919 |
Armação de Pêra[1]
| Nome do mobilizado | Posto e serviço que desempenhou | Embarque em Lisboa | Desembarque em Lisboa | Observações |
| Abílio do Nascimento Quintinha | 2º Sargento – Regimento de Infantaria nº35 | 23.02.1917 | 25.06.1919 | Ferido por gases a 14.08.1917; Louvor pelo zelo, dedicação e boa vontade com que sempre desempenhou as suas funções |
| José da Encarnação Pereira | 2º Sargento – CALP | 10.10.1917 | 23.07.1918 | |
| Alberto de Jesus Pequeno | Soldado Telefonista – CALP | 10.10.1917 | 19.05.1919 | |
| António Bentes | Soldado – Grupo de Artilharia nº3 | 20.04.1917 | 19.05.1919 | |
| António Martins | Soldado – CALP | 27.08.1917 | 20.03.1919 | Embarcou para a Inglaterra a 11.09.1917 e regressou a França em 02.03.1918 |
| Argencio Prudêncio | Soldado – Companhia de Pontoneiros | 16.05.1917 | 03.04.1919 | |
| Armindo da Conceição | Soldado Servente – Regimento de Artilharia nº1 | 26.05.1917 | 08.09.1918 | |
| Casimiro Pereira | Soldado – Regimento de Infantaria nº5 | |||
| Francisco das Neves | Soldado – CALP | 27.08.1917 | 09.06.1919 | Embarcou para a Inglaterra a 11.09.1917 e regressou a França em 02.03.1918 |
| Francisco Duarte | Soldado Fixador – CALP | 10.01.1918 | 19.05.1919 | |
| Jacinto Benedito | Soldado – Regimento de Artilharia nº3 | 26.09.1917 | 18.05.1918 | |
| Joaquim Luís | Soldado – CALP | 10.10.1917 | 16.02.1919 | |
| José Alexandre | Soldado – CALP | 27.08.1917 | 20.03.1919 | Embarcou para a Inglaterra a 11.09.1917 e regressou a França em 02.03.1918 |
| José António Fernandes | Soldado – Regimento de Infantaria nº5 | 02.07.1917 | 27.07.1918 | |
| José Augusto Bonança | Soldado – Regimento de Infantaria nº5 | 02.06.1917 | 09.07.1919 | Louvor porque tendo sido atingido por granadas e morteiros mostrou sempre coragem e sangue frio, não abandonando o seu posto;
Condecorado com a “Cruz de Guerra” de 3ª Classe *3 |
| José da Silva Mateus | Soldado – CALP | 27.08.1917 | 04.05.1919 | Embarcou para a Inglaterra a 11.09.1917 e regressou a França em 02.03.1918;
Ferido em combate a 15.10.1918 |
| José Realista | Soldado – CALP | 10.01.1918 | 19.05.1919 | |
| José Ribeiro | Soldado – Grupo de Artilharia nº3 | 20.04.1917 | 16.05.1919 | Integrado na Divisão Britânica até à assinatura do armistício |
| Manuel da Graça | Soldado – Regimento de Infantaria nº5 | 02.06.1917 | 15.10.1918 | |
| Manuel das Neves | Soldado – CALP | 10.10.1917 | 19.05.1919 | |
| Manuel Jacinto Júnior | Soldado – CALP | 27.08.1917 | 20.03.1919 | Embarcou para a Inglaterra a 11.09.1917 e regressou a França em 02.03.1918 |
[1] Armação de Pêra só foi elevada a freguesia em 1933, pertencendo até então a Alcantarilha.









