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Serrano Futebol Clube com futuro incerto

O Serrano Futebol Clube, de São Marcos da Serra, encontra-se numa situação muito complicada, em que está em causa o futuro deste clube.
Há alguns meses sem órgãos sociais e com uma dívida significativa que cresce todos os dias, uma das soluções seria a formação de uma comissão administrativa que pudesse gerir o clube até à eleição de novos dirigentes. Mas das últimas assembleias realizadas, apesar de participadas, não saiu nenhuma decisão.

Fundado em 1981, o Serrano Futebol Clube tem registados bons momentos na sua história. Mas atualmente está sem rumo e “se ninguém se chegar à frente”, como dizem as pessoas com quem falamos, corre o sério risco de fechar as portas.

Há cerca de dois meses que os órgãos sociais que estavam em função terminaram o seu mandato e não surgiu nenhuma lista para ocupar o seu lugar. Também não foi possível formar uma comissão administrativa que gerisse o clube até se convocar eleições.

As divisões que existiam entre os membros dos anteriores órgãos sociais e que ficaram patentes nas conversas que o Terra Ruiva teve com o presidente da Direção Jorge Lima, o presidente da Assembleia Geral, José Manuel Cabrita, e o tesoureiro Rui Monteiro, serão uma das causas que explicam a dificuldade em formar uma lista. O outro fator – enorme – é a existência de uma dívida que, segundo Rui Monteiro, ronda entre os “60 a 65 mil euros”, às Finanças, Segurança Social e fornecedores, e que todos os dias acumula juros…
“A dívida não é nova, o que aconteceu foi o piorar de uma dívida que já existia”, explica Rui Monteiro.
Esta dívida, todos concordam, tem a sua origem em duas situações que aconteceram. A primeira foi quando a receita dos transportes escolares, que era a base de sustentação de muitos clubes diminui e/ou extinguiu, quando esse serviço passou a ser feito por empresas privadas. A segunda tem a ver com o grande desequilíbrio existente entre as receitas do bar do clube e as despesas que o mesmo implica.
Segundo José Manuel Cabrita, que foi anteriormente presidente do clube, o problema com as despesas da sede do clube, nomeadamente com o bar, há muito que foram identificadas e “há dois anos e meio decidiu-se que só podíamos continuar se se concessionasse o bar, se fosse dado à exploração, porque só dava prejuízo e o clube não tinha dinheiro para pagar os funcionários”. Uma decisão que não teve o acordo do presidente da Direção, Jorge Lima, e que por isso não avançou, afirma.
Agora, com os ordenados em atraso, “há muito tempo”, a funcionária ainda em serviço, Maria Teresa, diz que a direção “não me diz nada, diz para me ir embora, mas eu não vou como eles querem”.
Também Jorge Lima concorda que “o problema do bar é que dá um prejuízo enorme” e isso agrava-se porque “o clube não tem capacidade financeira para ir às compras”. Devido a isso, não só “falta stock e as pessoas afastam-se porque não há o que querem”, como também ao comprar pouca quantidade não consegue os descontos e as ofertas que as empresas costumam fazer. “Quando se compram 50 grades de cerveja, o vendedor oferece 5 ou 6, mas quando se compram 10 não oferece nenhuma”.
Já Rui Monteiro, que afirma ser quem atualmente faz as compras para o bar, “apenas com a ajuda de Pedro Silva, porque da direção ninguém me ajuda”, “vou sozinho à Câmara, às Finanças, tento arranjar solução para os cheques devolvidos” confessa-se extenuado com os problemas e com uma situação que descreve como de “gestão corrente, a que se chegou de há 2 ou 3 anos para cá…”

Atividades diferentes

Para Jorge Lima, um dos problemas que tem dificultado a gestão do Serrano, é que “a direção nunca foi muito coesa”.
Um dos pontos de divergência diz respeito a que atividades deveriam ser desenvolvidas pelo clube. “Para muitos sócios, o Serrano é só o futebol”, queixa-se Jorge Lima que pensa que a realização de outros eventos e de novas atividades seria uma forma de atrair mais pessoas e de angariar mais verbas.
E o mandato até “começou bem”, com atividades como “levar os miúdos à piscina”, ou fazer as Festas de Verão com “orçamentos muito reduzidos porque tínhamos os Alma Serrana (grupo de música popular) que ia atuar a outros locais, e só gastavam o combustível, e depois os grupos desses sítios vinham cá, por quase nada”. Também “se começou com o grupo de teatro” que acabou por ter de se constituir numa outra associação (Trilhos do Remexido), “porque diziam cultura aqui não”, lamenta o anterior presidente da Direção.
Já o anterior presidente da Assembleia Geral, José Manuel Cabrita, critica os que atribuem a crise do clube “devido a ter futebol” porque as verbas do apoio atribuído pela Câmara Municipal de Silves, através do PAMAD “dava para cobrir as despesas”, e considera ser o futebol o principal objetivo do clube. “Pessoalmente não tenho nada contra ele (Jorge Lima), mas fala de eventos, quais eventos? Quanto ao teatro fui sempre contra isso, acho que isso é uma atividade para a Sociedade de Recreio e Instrução de S. Marcos da Serra. A parte desportiva é para ser desenvolvida pelo Serrano, a parte cultural pela Sociedade”, afirma.

Preocupação da Junta

O presidente da Junta de Freguesia de São Marcos da Serra, Luís Cabrita, antigo jogador do clube e com fortes ligações afetivas ao mesmo, diz-se “muito preocupado com a situação”.
Do ponto de vista legal, quer a Junta de Freguesia quer a Câmara Municipal não podem ajudar ou conceder algum apoio financeiro, porque para tal é necessário que as entidades comprovem não ter dívidas às Finanças e à Segurança Social. O que neste caso não é possível.
Para o presidente da Junta, o mais indicado, como primeira medida, seria “dar o bar à concessão”. Depois seria necessário negociar o pagamento das dívidas às Finanças e à Segurança Social, em prestações que o clube pudesse assumir. Isto abriria caminho para o Serrano receber algum apoio da Câmara e da Junta e iria aliviar a pressão. Ambas as entidades já manifestaram a vontade de ajudar, mas terá de ser o clube a conseguir ultrapassar o primeiro obstáculo.
Luís Cabrita considera que parte do problema se deve aos anteriores órgãos de gestão do clube que “deixaram arrastar” e diz que “ando sempre a ver se tomam alguma atitude, porque agora, se as coisas não estiverem encaminhadas ninguém vai querer assumir a direção”. “Há dois anos que as coisas começaram a acontecer e discordavam uns dos outros, não havia consenso e isso mantém-se”, lamenta…
“Estou disponível para ajudar em tudo, quer a nível pessoal quer a nível da Junta, embora não possa assumir nenhum cargo, mas o clube é muito importante e estou a tentar tudo o que posso”, afirma o presidente da Junta.

Todos de acordo

Sede do Serrano Futebol Clube

Apesar das divergências manifestadas, numa coisa todos estão de acordo: se não houver união e pessoas de boa vontade “que se cheguem à frente”, o Serrano Futebol Clube está condenado.
Para Jorge Lima, a anterior Direção, nada pode fazer, porque “já não tem legitimidade, por ter terminado as funções”. E a “falta de interesse” que sente nos sócios e os compromissos da sua vida profissional não o estimulam a continuar.
Uma posição diferente tem Rui Monteiro que afirma que “tentei muitas vezes continuar, mas já não consigo sozinho. Tenho passado noites sem dormir, porque as dívidas não são minhas, mas sou o rosto da dívida. Por isso já disse nas assembleias que quero fazer parte da solução, para tentar sanar o problema, mas não como tesoureiro, pondo esse lugar à disposição, por uma questão de transparência e para que possam vasculhar à vontade”.
“Sou otimista, penso que é possível resolver esta situação, os problemas estão identificados, e esta é a minha terra, quero fazer o que for preciso”, afirma.

As dificuldades que se colocam hoje ao movimento associativo, em que as pessoas são chamadas a trabalhar voluntariamente, são ainda mais sentidas em pequenas comunidades, como é o caso de São Marcos da Serra. Não é só o Serrano que atravessa dificuldades, a Sociedade de Recreio e Instrução encontra-se há cerca de dois anos sem Direção.
Com poucas pessoas e com os mais novos forçados a procurar emprego noutros locais, estes polos comunitários tornam-se cada vez mais problemáticos de gerir e, paradoxalmente, cada vez mais importantes na aglutinação das pessoas.

“Se não formos unidos não vamos a lado nenhum”, diz José Manuel Cabrita.
O que faz falta, todos os intervenientes concordam, é que “2 ou 3 arregacem as mangas”, para formar uma Comissão Administrativa que possa agarrar o clube, com o objetivo de encontrar as soluções para os problemas mais complicados. O que talvez criasse as condições para que surgisse uma lista com pessoas dispostas a gerir o Serrano Futebol Clube.

Agora, basicamente, está nas mãos dos sócios do Serrano Futebol Clube decidir se deixam ou não morrer o seu clube.

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