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Memórias Breves (4)

JOSÉ VITORIANO, O ENCONTRO = Estávamos em 1978. Havia iniciado um “DOSSIER UNIVERSIDADE DO ALGARVE”, desde 3 de Junho de 1977. Debatia-se, na Assembleia da República, a criação dos Estudos Superiores para o Algarve. Decisão polémica que se transformou em capricho político. Assim sendo, cria-se uma dificuldade de unanimidade exigida. Publiquei estudos sobre a utilidade desse “instrumento“ do ensino superior, tão pedido, pelos séculos, desde a visita real de D. Dinis, a Faro, ao Filipe ocupante, sem resultados positivos.

Para o Algarve, a universidade seria um “desperdício”, na apreciação de alguns senhores “superiores”. Mas há Homens que afirmavam a necessidade dessa urgência, no último quartel do século XX. Eu tinha essa experiência pela Europa, de quanto era urgente e útil avançar pelo ensino superior. Decido enfrentar as dificuldades. O director do semanário “Jornal do Algarve”, António Barão, filho do fundador, José Barão aceita, de bom grado, a minha sugestão: ALERTAR. Já com mais de uma dezena de entrevistas, em vontades positivas de homens das letras, de sindicatos, figuras da cultura regional, autarcas. Vou avançando para os deputados pelo Algarve: José Vitorino, PSD, 10/03/1978, que leva à Assembleia da República o “Projeto Lei- Universidade do Algarve”. Outros se seguirão, nessa vontade urgente.

Um convite necessário a José Vitoriano. Deputado do PCP que aceita voluntarioso. Vem a Faro na penúltima semana de Março de 1978. É um fim de semana, o meu tempo disponível. Vamos ao Café Aliança, à sala das personalidades, as figuras que deixaram memórias, nacionais e europeias. Não me foi difícil conhecer essa figura simpática e sorridente. Num breve cumprimento, e num café, iniciámos a nossa entrevista. Num dia pleno, em que funcionava a “Bolsa” do comércio regional. José Vitoriano felicita-me sobre a força da imprensa. E que a Universidade do Algarve será debatida, contra todas as inconveniências das políticas nos seus interesses sem visões, porque ainda se arrastam vontades elitistas, sem que se analise o futuro dos jovens, para uma educação evolutiva e dos tempos.

A coleção de todas essas entrevistas e opiniões, informações, etc. encontram-se depositadas na Junta de Freguesia de S. Bartolomeu de Messines, depois um uma exposição evocativa, realizada na Universidade do Algarve, durante todo o mês de dezembro/2015, e que se seguiu no Foyer dos encontros, da Junta de Freguesia de Messines, Março 2016.

A nossa entrevista, num ambiente muito natural, próprio do maior e recomendado café de Faro, não deixava de atrair os olhares e alguns cumprimentos ao meu convidado. José Vitoriano, que mostrou todo o interesse pelo meu pedido, sobretudo pelo exposto: Uma Universidade para o Algarve… “ Com séculos de atraso” , diz-me numa seriedade, tão natural, apesar de mostrar um homem de rosto alegre. Fomos conversando em perguntas e respostas. Vitoriano deu muitas razões para que a Assembleia da República tivesse essa urgência. Mas para o fim, teria de ter unanimidade por todos os deputados. O Deputado José Vitoriano sabia dessas dificuldades, dessa incompreensão por parte do quórum da Assembleia. Havia um grupo a ter “vergonha”. O Algarve não tinha nada com as birras políticas de um partido. E muito tranquilo, vai questionando :
“Acima de tudo estavam os interesses de uma região e da sua população juvenil. Não basta tomar isoladamente esta ou aquela iniciativa. É preciso dar às Autarquias os indispensáveis meios de as realizarem. Mas certo, será a com a força dos Deputados, na Assembleia da República.

Ao sábado a clientela é ensurdecedora. Pergunto, ao meu convidado se o ruído o incomoda. Que não. É o habitual, num casa como esta. Responde. E eu vou questionando: E logo Vitoriano. Nessa tranquilidade, me afirma, mediante a pergunta: Militantes do P.C.P. estiveram na 1ª linha da criação do Centro de Apoio ao Ensino Superior Universitário no Algarve.” Continuando: “ A criação da Universidade do Algarve é um velho e justo anseio do povo algarvio, com condições para corresponder, agora, com o 25 de Abril”.
Mais alguém que se aproxima, num cumprimento. Sempre numa simpatia silenciosa, vai aceitando o convívio. Eu estou bem com o meu convidado. Pessoa gentil, falando e respondendo nessa honestidade de palavras e ideias. Responde, um pouco hirto, pareceu-me para uma afirmação necessária ao entendimento da situação.
“Só por miopia, ou por intenções demagógicas se poderá considerar a ideia da Universidade do Algarve isolada do contexto político- económico em que de facto se situa”.

E sempre atento às minhas perguntas, responde, esclarecendo, sem conflitos de cariz político: “A posição assumida pelo PS na Comissão, ainda será revista e, finalmente, sensível à vontade continuadamente expressa pelos algarvios e suas organizações.” Desabava, tranquilamente, sem esgarro, de conteúdo crítico.

A entrevista é assaz longa. Fomos dialogando, em conversa que se quer de interesse à região, num diálogo em que ambos apostámos. O seu conhecimento às necessidades rurais do Algarve, não menosprezando outras regiões. Um homem de conhecimentos vastos, numa abrangência múltipla da sociedade portuguesa. Despedimo-nos num abraço fraterno e da minha admiração.

José Vitoriano, anti-fascista de longa data, figura conhecida e respeitada pelas suas convicções que lhe vêm dos tempos de operário corticeiro, na sua cidade de Silves. Jovem perseguido e torturado, conhecedor da “via sacra” das prisões fascistas. Formou-se nos seus vinte anos passados no cárcere, sob torturas e sevícias. José Vitoriano foi membro do Comité Central e da Comissão Política do Partido Comunista Português. Como Deputado pelo Algarve, procurámos o conhecido político algarvio, numa entrevista de interesse para o Algarve e para os jovens algarvios. Café Aliança-Faro, Sábado 25 /03/1978. Uma memória de um Homem de convicções, em tempos proibidos de as ter.

Neste início de 2018, Silves comemora o seu centenário. Para mim foi uma Honra conhecer o Deputado do PCP em Faro, para um interesse do maior desenvolvimento para o Algarve e Algarvios. Nessa tarde, pelo Aliança, de tantas memórias para mim.

Finalmente a Universidade do Algarve foi votada e aprovada por unanimidade, a 16 de Janeiro de 1979, Lei n.º 11/79 de 28 de Março. E o Instituto Politécnico de Faro, Decreto- Lei n.º 513/79 de 26 de Dezembro. A Universidade do Algarve é assim uma Instituição diferente das outras Universidades, dado coexistirem no seu seio Unidades Orgânicas do Ensino Superior Universitário e de Ensino Superior Politécnico.

Eu, pessoalmente, assim como muitos algarvios, consideraram ser a criação da UAlg a maior conquista da região Algarvia no século XX, para a continuidade dos tempos.

Ainda muita luta aos impedimentos que surgiram para a sua total edificação e funcionamento. Mas tudo se concretizou, em tempo e para o fim. Ontem. Hoje, e para o futuro, a Universidade “semeia” conhecimentos a milhares de jovens. Bem haja toda essa participação de gente concreta. A minha Homenagem ao Homem que a cidade de Silves notifica no seu Centenário.

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