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O Passado e o Presente

É COMPLICADO entrar no tempo presente e desenvolver o futuro. Já o passado, esse é entendido como desinteressante, por que é o passado. Como se a História não fosse um caminho existencial. E nesta complexidade do desentendimento é entendida numa perspetiva política e complexa para quem pouco a entende. Numa indiferença.
Muito do meu tempo foi debatido entre jovens. Sendo a escola deles, também a minha, nessa responsabilidade do ensino.

Quanto mais a escola era habitada por classe mais privilegiada, mais complicado se tornava: Genève, Paris, Lyon, Saint-Etienne, Tunis, Siracusa, tudo tão próximo, tudo tão, supostamente, diferente, como podemos discernir , a história dos povos agarrada às suas peles. E quanto menos o espaço transpirava burguês, mais profícuas eram as comunicações. Lembro Tunis, entrar na breve memória da ocupação francesa, em que os jovens desbravavam palavras que os franceses deixaram, durante a ocupação e me confundindo no seu dialético de origem, criando discussões pessoalíssimas, entre eles, regressando à língua gaulesa, perante o meu sossego de ouvinte. E tudo se passava num des- entendimento entendido. E, eu, no meu silêncio consentido, provocava o entendimento. Saímos ao encontro dos turistas que andavam em ignorâncias políticas (?), disfrutando a Tunísia, sobrepondo-se o anglicanismo linguístico, numa civilidade falsa, que disfrutava o europeísmo. Saímos ao encontro da “civilização”. Entrámos no Foru Tatsaquine, seguimos ao museu do Bardo, nos mais distintos azulejos romanos.

Descalçámo-nos à porta da grande Mesquita Djama Sidi, que para mim tinha todo o significado de espaço sacro, na fé de cada qual. Os jovens praticavam, ou não, as suas preces em vocábulos musicais.

Eu era todo ouvidos, como, quando D. Laura, na igreja de S. Bartolomeu de Messines, evocava o Bendito – Louvado, ecoando pelas naves do templo. E, eu, descalço, como os demais. Sem receios do século XXI, ali estava aguardando. Aguardando num interesse ao meu saber de comunicador.

Que sede de uma água fresca. Mas fomos à tisana de hortelã, numa esplanada, à sombra das densas palmeiras. E, ali sentados em capachas de palma, começámos a conversa. É Tarek quem levanta o braço, e lhe é entregue a palavra. E, eu, ali quieto, para meu critério, são eles que têm a palavra. Tarek ergue-se. Faz-me uma saudação de permissão, que eu não considero de submissão. Há que respeitar os costumes, as tradições. E abriu-se o podium . O que é a Tunísia, como país independente ? Incerto, como sempre assim foi. Um silêncio. Eu aponto a uma das alunas, entre as poucas. A jovem, num silêncio, pergunta se ficamos no século XX. Num conjunto unânime, se decidiu: escolha pessoal. A jovem passa a palavra a Tarek. E, eu, ali aguardando as decisões, quieto, olhos postos nas moças-mulheres e homens moços.
Tarek pega no calendário da História : Os conquistadores têm séculos, nesta história política e militar. Séculos de poderio e de retoma, em grupos étnicos ( ou chamados civilizados), numa população de semitas, (africanos árabes) e europeus: franceses, italianos e judeus, numa tradição de cruzados, em religiões dominantes. O Islamismo passou a ser desrespeitado… um inimigo. Foi o nosso fadário. O que passámos, para chegar a 20 de Março de 1956. Tarek parou. Ouviu-se em voz europeia, um apelo à continuação: ALLEZ…ALLEZ. Tarek cruzou os braços no peito, inclinou a cabeça, e recomeçou, num francês : On n’y va. Atacados pelos cruzados, no século VIII, depois por Carlos V, o senhor do império europeu e renascentista. Foi em continuidade um desassossego, atroz. Ainda nos faltava João da Áustria, no século XVIII, um senhor do barroco. Depois da conquista de Argel, pelos franceses, em 1830, e o conflito anglo-franco sobre o domínio do Norte de África, em 1881, pelo Tratado do Bardo, assinado em 12 de Maio de 1881. O rei de Tunes Mohamed el – Sadok concede à França o direito de ocupação. Mas o povo tunisino não fica quieto, luta pela independência, em 1907, nova bagarre ( Balburdia), muito sangue . Foi a revolução dos jovens tunisinos, Bexir Sfar e Ali Baxe Hamba. Depois da primeira guerra mundial (. 1914-1918).
Tarek faz um silêncio, numa pergunta: Quem já leu o livro de Talbi, “ La Tunisie Martyr“? Todos os jovens, nos dois graus, ergueram-se em saudação. Tarek deu sinal que iria terminar: Depois da segunda guerra, a França torna Marrocos independente, 1955. Era obrigatório dar a independência ao nosso país. 20 de Março de 1956. Estava terminada a aula.

Seguiremos, mais tarde, para a cidade de Siracusa, banhada pelo Adriático.

Ocuparemos nos próximos meses do Teatro. Comemoramos os 30 anos do “Penedo Grande “.

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