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Memórias: Entrevista a Manuel Albano – “Há pessoas que deixam andar e pessoas que andam”

Memórias: Na secção Memórias recuperamos a entrevista feita a Manuel Albano que imensas gerações de alunos e professores da Escola Secundária de Silves bem conheceram. Uma entrevista publicada na edição nº 75, Janeiro de 2007. 

 

“Há pessoas que deixam andar e pessoas que andam”

Gerações e gerações de alunos da Escola Secundária de Silves conhecem e reconhecem o autor desta frase, que se encaixa nitidamente na segunda categoria, “Há pessoas que deixam andar e pessoas que andam”. Manuel Albano, 58 anos, conhecido por todos como o “Sr. Albano”, funcionário desta escola desde o ano lectivo 1972/73.

A “sala de trabalho”, chamemos-lhe assim, do Sr. Albano é um cubículo apertado, um espaço aproveitado no vão das escadas. Ainda assim, é aqui que desaguam uma imensidade de grandes, médios e pequenos problemas e alguns que nem o são, todos direccionados para o Sr. Albano, desde que há 11 anos se tornou o chefe de pessoal.
“Fala com o Sr. Albano” é talvez uma das frases mais ouvidas na Secundária de Silves. E o Sr. Albano, ainda que lamente não ter o jeito do seu antecessor neste cargo, que “sabia arranjar tudo”, lá vai acudir a todos os fogos.

Manuel Albano (2007)

A vida profissional de Manuel Albano, começou cedo. Feita a primária, começou logo a trabalhar, na indústria corticeira, que então ainda sobrevivia. Eram outros tempos, ouve-se, nesta história de vida. A seguir, o serviço militar e novamente a fábrica de cortiça, onde era “quadrador”, “fazia quadros para depois fazer rolhas de champanhe, que iam para França”. É o irmão que o incentiva a frequentarem a escola, no ensino nocturno. A decisão de estudar à noite, traça o rumo de toda a sua vida a partir daí.
“Um dia encontrei um professor que me dava aulas à noite,o prof. Mealha, que me convidou para vir para a escola trabalhar”.
Em 1972, entrou para a escola com a categoria de servente auxiliar. Passado um tempo “ofereci-me para o ginásio, estive lá 19 anos”. É Isabel Soares, na altura presidente da direcção da escola, que o convida “para chefiar a escola, a parte do pessoal.” A resposta não foi imediata “comandar pessoas é muito complicado”, mas perante a hesitação “ela não esperou que eu dissesse que estava apto para esta situação, pôs em Diário da República, fui nomeado, e já lá vai 11 anos que estou neste serviço”.

O serviço do Sr. Albano é uma mistura de muitas responsabilidades. “Tenho várias coisas a meu cargo, a responsabilidade do pessoal auxiliar, a distribuição do serviço a cada um deles, tenho que cuidar da higiene da escola, zelar pela escola, dar a conhecer à direcção o que pretendo fazer com os meus colegas, chamar a atenção para o que não está bem…”
A sua grande preocupação é que “cada pessoa tenha o cargo que é mais adequado, porque todos somos iguais mas não somos, há pessoas que têm um perfil que se adapta mais a determinado lugar”. Tem também o cuidado de tratar os colegas todos por igual, “para mim, são todos iguais, não pode ser de outra maneira, sabe-se que às vezes há pessoas que mereciam um pouco mais, são talvez mais dedicadas, mas enquanto eu cá estiver faço igual para todos”.

Ainda assim, não se livrará das críticas quem tem a seu cargo 32 pessoas. “Sou criticado, sei que sou”, diz, sem ressentimento. “Tenho o meu feitio, e não posso modificar a minha maneira de ser, posso corrigir alguma coisa, mas é se me vierem dizer a bem, a mal não. Também sou uma pessoa um pouco nervosa, ao longo da vida a gente vai perdendo um pouco de paciência, e eu compreendo que sou assim. Por isso, eu aceito facilmente o que me dizem, agora se entram com agressividade nem consigo falar com essa pessoa. Já de si sou uma pessoa um pouco revoltada com algumas coisas que se vêem neste mundo… Admiro as pessoas com muita calma, que não a tenho, gostava de ser assim, mas não, é um stress que a vida nos traz.”

Metia-os na fila e dava-lhes de comer

Como todos os trabalhos, além das preocupações, este traz também muitas alegrias. “Tenho tido muitas alegrias com alunos e professores, nunca tive problemas com ninguém, sempre tive o cuidado de ser educado com toda a gente, tanto para alunos como para professores, ninguém me pode apontar uma má palavra, tudo o que me pedem faço de boa vontade”. “Os alunos convidavam-me para jantares, para farras, antigamente, e eu ia, não era por isso que me perdiam o respeito, obedeciam-me bastante bem”. Além disso, “ estive muitos anos na cantina, e dava muitos almoços a alunos que não tinham dinheiro para comer, nessa altura alguns vinham de bicicleta a pedal, de Messines, com uma bolsinha, e eu metia três ou quatro na fila e dava-lhes de comer. Isso também criou grandes amizades, e até hoje, onde eu vou, recebem-me com o máximo de respeito e isso é uma coisa que me dá bastante alegria. E mesmo professores, é uma alegria, quando os encontro, lembrarem-se de mim”.

Manuel Albano, à porta da ESS

Actualmente, a comunidade escolar está sujeita a grandes alterações que se reflectem também no seu funcionamento. No que respeita aos alunos, Manuel Albano, nota que os mesmos se alteraram “ os alunos são bons, mas vêem mal preparados para aqui, não digo que é agressividade, mas chegam aqui… mal preparados. Um dia apareceram aqui todos pintados à porta da escola, não os deixei entrar, depois veio o prof. João ( João Gomes, presidente do Conselho Executivo) e disse-lhes a mesma coisa, o Carnaval não é aqui, vão lavar a cara. E eles foram”.

Para Manuel Albano, a Escola Secundária de Silves tem uma boa reputação que lhe importa defender, a escola tenta manter um dado patamar e queremos que os alunos vejam que não estamos aqui para os prejudicar, estamos aqui para os ajudar no que for preciso, essa é a nossa função”. Sobressai uma vontade de educar, de ajudar: “eu digo muitas vezes aos moços, não desistas. Que eu tive a minha experiência e posso dizer a vocês, com tantos anos de serviço tenho garantido pouco mais de 100 contos, e pessoas como eu ganham três ou quatro vezes mais, só por terem um canudo. Andei na escola à noite, com o meu irmão, depois desisti, mas vejo que a vida dele é diferente da minha, a diferença que se vê é dele ter estudado até ao fim”.

Hoje, o Sr. Albano anda novamente na escola, a completar o 9º ano. Mas a situação actual da função pública não o deixa ter expectativas. “Este governo está a ser um governo ruim para todos nós, tanto para professores, como para auxiliares, a lei tem sempre dificultado a vida aos mais pequenos. Não devia ser assim. Quando eu vim para cá, havia uma lei que previa uma reforma por inteiro, e agora oferecem-me um x de percentagem, que não tenho a idade que eles pretendem e tive que ficar cá”.
Desfeitas as expectativas alimentadas durante tantos anos, a insatisfação e revolta surgem naturalmente, “vou fazendo o meu trabalho, e quero fazer bem o meu trabalho, e às vezes a cabeça já não dá conta, e é difícil, e não só para mim, há pessoas que deixam andar e pessoas que andam. Há pessoas que se desleixam um pouco, eu não faço isso que não tenho esse feitio, mas vejo as leis que este governo tem feito, não devia ser assim, sacrifiquei-me tantos anos e agora sou assim penalizado, as novas leis deviam ser para as pessoas que entram agora”.

A injustiça custa a Manuel Albano, sobe-lhe ao rosto. Mas além das injustiças diárias, tocam-no também as que vão pelo mundo, como a miséria. “Há dias vi uma reportagem na televisão com umas crianças… aquilo era uma caveira humana a andar, só com a pele, não tinha mais nada… Aquilo deu-me…quando as pessoas estragam todos os dias, estragam-se fortunas quando se podia canalizar esse dinheiro para ajudar aquelas pessoas, pessoas que morrem sem terem nada para comer”.
Fora da escola, a vida de Manuel Albano gira em torno da família, “adoro a minha mulher e os meus filhos”, e da pesca. É na ponta de Sagres que passa os dias livres, sempre que pode. Pesca no mar, fez também, durante muitos anos, com um amigo entretanto falecido. Conhece os perigos do mar “ sou cuidadoso, não arrisco”. E em Janeiro, Fevereiro, quando os sargos passam por Sagres, tenta tirar uns dias de férias para poder pescar.
Ainda assim, não se considera um viciado, como aqueles que arriscam a vida na ponta de Sagres, pelo melhor lugar, pela “ganância”.

Na sua meninice, ninguém lhe perguntou o que gostaria de ser. “Acredite que nunca tive aspirações. Hoje pergunta-se às crianças o que querem ser. Nunca ninguém me perguntou o que queria ser”.
E se voltasse à meninice, o que gostaria de ser? O rosto do Sr. Albano abre-se num sorriso rasgado, que não surpreende num homem que assume que gosta de rir, mas este sorriso tem uma luz especial: “ Gostava de ser dentista. Se fosse mais novo e pudesse escolher uma profissão gostava de ser dentista”.

Texto e Fotos: Paula Bravo

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