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História & PatrimónioSociedade

Centenário das aparições: os messinenses e o culto a Nossa Senhora de Fátima – I

Aurélio Cabrita
Última Atualização: 2017/Mai/Dom
Aurélio Cabrita
9 anos atrás
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A notícia das aparições de Nossa Senhora do Rosário aos três pastorinhos, em Fátima, terá chegado a S. B. de Messines através da imprensa, difundindo-se depois por via oral.

É hoje sobejamente conhecida a reportagem de Avelino Almeida inserida no jornal nacional “O Século”, na edição de 15/10/1917, intitulada “Como o sol bailou ao meio dia em Fátima”. A 23 de julho o mesmo periódico já havia noticiado pela primeira vez as aparições. Com grande difusão a nível nacional e de circulação rápida através da ferrovia a imprensa diária lisboeta era lida com avidez na região.
Também a nível local o assunto não foi descurado, por exemplo, o periódico silvense “Voz do Sul” publicava nas suas páginas, na edição de 11/11/1917, um manifesto da Associação do Registo Civil e da Federação Portuguesa de Livre Pensamento intitulado “A reacção campeia desenfreada!!! Especulação feita com a comédia ridícula de Fátima”.

Como seria de esperar o periódico afeto ao Partido Republicano, anticlerical por natureza, dava eco ao manifesto que considerava as aparições uma “fita ridicolamente fantasiosa” e uma “patranha indecorosa”.

Segundo o Censo de 1911 o analfabetismo no concelho de Silves rondava os 86%, em Portugal era de cerca de 76,1 %, cifra que atingia na freguesia de S. B. de Messines 90,6%, ou seja, dos 9 652 habitantes somente 908 eram alfabetizados, percentagem que não seria muito diferente seis anos depois. Não chegavam assim a mil os messinenses que poderiam ter acesso aos jornais e que divulgavam oralmente no momento da leitura ou posteriormente aos restantes concidadãos as novidades insertas nos mesmos.
As aparições marianas constituíram desde a primeira hora um tema polémico, conhecendo apenas alguma consolidação após a alteração política advinda da revolução de 28 de maio de 1926, que colocou termo à I República anticlerical. Tal não impediu que a igreja católica se tenha desde logo, e nas palavras do Prof. Luís Filipe Torgal, apropriado de Fátima, com a construção de uma capelinha no local, bem como através da celebração de missas, a primeira campal em 13/10/1921.
A Ditadura Militar e depois o Estado Novo não só põem termo ao “divórcio” entre o governo e a igreja, como se tornam aliados num casamento de conveniência, na afirmação do conservadorismo que ambos partilhavam.

Quanto a S. B. de Messines a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima foi adquirida em 1929, numa iniciativa promovida pela professora primária da Cumeada, D. Vitória Sequeira.

Para o efeito foram realizados vários peditórios na igreja e nos locais mais populosos da freguesia. A bênção da imagem ficou a cargo do bispo do Algarve D. Marcelino Franco, que propositadamente promoveu uma visita pastoral à freguesia, a segunda do seu bispado.
O solene momento ocorreu na manhã do dia 28 de julho, seguindo-se a missa de comunhão de cerca de 100 crianças e 300 adultos, de acordo com o semanário da Diocese “Folha do Domingo” de então. Nessa tarde, após celebração da missa pelo rev.º prior José Agostinho Vaz, na qual participou o grupo coral de Boliqueime, saiu a procissão presidida pelo prelado, com a condução das imagens do menino Jesus. No mesmo dia realizou-se pela primeira vez a procissão das velas na aldeia.
Nos anos seguintes a Diocese organizou várias peregrinações a Fátima. Por exemplo em maio de 1935 participaram 5 messinenses, tendo o comboio sido recebido na estação de Messines-Alte com muitos foguetes. O prior, agora José da Silva Lola, acompanhado por diversas pessoas, aproveitou o momento para cumprimentar o bispo na gare.
A imagem de Nossa Senhora, exposta em altar próprio na matriz, vai sair com frequência em procissão, por exemplo na noite de 30 de maio de 1946. Acompanhada por centenas de pessoas segurando em velas, a Virgem, em andor decorado, percorre a rua da Liberdade até à Nossa Senhora da Saúde, de onde retorna na mesma noite à igreja matriz, por entre orações e hinos de louvor, num “efeito deslumbrante”, de acordo com o “Folha do Domingo” da época. Mas é no ano seguinte que a freguesia exulta ao receber pela primeira vez e apenas por algumas horas a Virgem Peregrina, na noite de 31/12/1947, no âmbito da sua primeira deslocação ao Algarve.

(continua)

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TAGGED:apariçõesAurélio Nuno CabritaNossa Senhora de FátimaS.Bartolomeu de Messines
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PorAurélio Cabrita
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nasceu em 1978. Licenciado em Engenharia do Ambiente, é mestrando em História do Algarve e técnico superior no Município de Odemira. Tem publicados diversos artigos e livros sobre a história local e regional. É também colaborador no jornal on-line Sul Informação.
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