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Memórias – Entrevista a Manuel Ramos, diretor do Museu da Cortiça -“Sempre achei que Silves merecia um museu da cortiça”

Na edição nº 29 do Terra Ruiva, de outubro de 2002, publicava-se uma Entrevista com Manuel Ramos, diretor do Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês, de Silves, a propósito do 3º aniversário do referido museu.

Na passagem de mais um aniversário com o Museu de portas fechadas, o Terra Ruiva lembra essa efeméride e, através das palavras de Manuel Ramos, sublinha a importância de todo o trabalho que ali era feito e que importa não deixar perder.

 

 

«“Sempre achei que Silves merecia um museu da cortiça”

No dia 5 de Outubro, o Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês comemorou o seu 3º aniversário. Criado por iniciativa privada, este museu tem trilhado um caminho de sucesso, apresentando-se como um exemplo pouco comum de como é possível os interesses turísticos se aliarem à defesa do património. No ano passado, recebeu a distinção de Melhor Museu Industrial Europeu. E está prestes a atingir os 260 mil visitantes.

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O seu coordenador, Manuel Ramos, fala-nos do trabalho efectuado antes e depois da inauguração do Museu e revela-nos pistas sobre o autêntico tesouro que foi encontrado à boa maneira antiga- descendo para um compartimento secreto, cujo acesso se fazia por uma porta escondida no soalho, debaixo de um tapete. Um imenso arquivo com dados preciosos e únicos sobre a história da cidade de Silves e da indústria corticeira…

E também se fala da importância do património, entendido como a mais valia da cidade.

 

 

TR- Gostava que me falasse um pouco sobre o museu e de como se desenvolveu este projecto…
O projecto surgiu por iniciativa privada, acabou por ser uma sociedade anónima que adquiriu um espaço que estava devoluto desde 1995. A Fábrica do Inglês foi fundada em 1854, no século XIX, em 1995 parou de laborar e em 1997 foi adquirida, com o intuito de transformar este lugar num espaço turístico, sobretudo de restauração. Era visível que se tratava de um edifício com interesse arquitectónico e também havia inúmeras máquinas, e isso levou a que os donos deste espaço consultassem a Associação de Estudos e Defesa do Património de Silves. Fazendo eu parte da associação, disse que ia contactar um técnico especializado nessa área, o professor Jorge Custódio, que tinha sido meu professor na universidade, e que eu sabia ligado ao património industrial. Depois, durante umas jornadas organizadas pela associação chamámos o prof. Jorge Custódio, para fazer uma intervenção sobre património industrial e a sua reabilitação, e convidámos também a administração da Fábrica do Inglês. Durante essas jornadas, em finais de 1997, fizemos uma visita à fábrica, que eu também não conhecia, a não ser exteriormente como todos os silvenses, ficámos entusiasmadíssimos. A ideia era original, de certo modo, ligar o capital e o turismo à defesa do património uma coisa que normalmente parece dificilmente conciliável. E a experiência que temos no Algarve, normalmente, é ao contrário: o capital e o turismo vão destruir o património. Nos tempos mais recentes começa a ser diferente mas continua, de certo modo. Quando as coisas chegam a um ponto decisivo, pronto, acaba-se por se destruir para modernizar e nunca se pensa que modernizar pode passar pela reabilitação do que é antigo. Aqui, felizmente, passou-se ao contrário. Achou-se que o museu ia dar uma mais valia, em termos históricos, e uma nova dimensão ao projecto, não seria só um projecto de restauração e de animação turística. Então fomos, eu e o Jorge Custódio, convidados para tomarmos conta do núcleo museológico. Em Abril de 1998, houve uns textos preparatórios propostos à administração, sobre como devia ser a intervenção arquitectónica, que esteve a cargo da arquitecta Margarida Simão Gomes. Após esses textos preparatórios, iniciámos os trabalhos de campo. O prof. Jorge Custódio, que não estava cá a tempo inteiro, era o coordenador geral, eu o coordenador local, tínhamos dois ex-operários corticeiros, dois rapazes que nos ajudavam nas cargas e descargas e o Pedro Garcia no arquivo. Porque entretanto descobrimos o arquivo, que é uma coisa fenomenal. Antes de entrarem as obras a sério aqui dentro, estivemos uns meses a trabalhar, fizemos o inventário, isso tudo. Em Agosto começaram as obras, que duraram até Julho do ano seguinte, 1999, e nós ainda continuámos até Outubro, a terminar o interior do museu, que tinha outro tipo de necessidades. Mas foi tudo muito rápido, um trabalho muito exaustivo, puxou muito….

E como foi esse momento?

Foi o melhor momento da minha vida. Era conciliar o trabalho de criar um museu novo, com a descoberta de uma fábrica que já ninguém sabia o que era. A fábrica nos últimos tempos era a Fábrica José Estrelo. Já ninguém sabia o seu nome original, a única referência que eu conheço é a de Garcia Domingues, no seu guia. O nome original da fábrica era Avens Simmons e Barris & Gregório Nunes Mascarenhas, coisa que o Garcia Domingues não dizia. Já ninguém sabia a história desta fábrica, quando tinha sido fundada e tudo isso. Tudo isso viemos a redescobrir quando descobrimos o arquivo. Era um arquivo morto, já numa zona também ela morta, que era a cave do chalé da administração. Debaixo do soalho havia umas arcadas e havia uma porta secreta que se levantava, debaixo de um tapete. O tapete estava lá há que anos, levantava-se o tapete, descia-se umas escadas e descobria-se o arquivo.

E quando foi descoberto esse arquivo?
Quando começámos por fazer o inventário de máquinas, fotografias, e recolha de materiais que ainda estavam na fábrica, para fazermos o arquivo de amostras. Estávamos no chalé a tirar móveis, tapetes, essas coisas, descobrimos então essa abertura. Ainda havia duas pessoas que sabiam dessa abertura, que eram o Sr Figueiras, que tinha sido tradutor, e a Srª Emília, antiga secretária do patrão, do Sr. Estrelo. Sabiam da sua existência mas já não estavam em contacto com a fábrica. Havíamos de ir contactá-las, quando mais tarde fomos fazer as entrevistas, perguntar-lhes como tinha sido a sua vida aqui dentro, tudo isso aconteceu, mas só mais tarde. Portanto, a descoberta do arquivo foi uma autêntica descoberta. Fomos ver e tinha documentação que remontava a 1879, nem esta fábrica ainda existia. Porque esta fábrica teve uma anterior, que deve ter sido a primeira ou a segunda fábrica de Silves, onde hoje é a GNR, havia ali uma fábrica que era a Gregório Mascarenhas, e o arquivo veio para aqui.

Portanto havia arquivo da “Velha Fábrica”, como chamavam nos livros e arquivo da “Nova Fábrica”. Temos documentação do século XIX e do século XX, até 1990. Impressionante… tem coisas… crónicas de guerra, da I Guerra Mundial, revistas dessa altura, livros com as semanadas dos operários do século XIX… tudo com uma caligrafia à século XIX, cartas que nos ligam a todas as partes do mundo, a todos os países com que esta fábrica comerciava.

Já conseguiram dar volta a todo esse arquivo?

Foi uma vista cruzada, que nos foi muito útil para redescobrir toda a história da fábrica e das relações comerciais que mantinha. Foi feita uma primeira classificação do material que existia, mas não foi tudo lido, nem pouco mais ou menos. Agora teria que abrir uma fase, que nem sei quando é que poderá começar, porque teríamos que ter um técnico a tempo inteiro, para passar esse material a um formato que seja público, porque os livros são perecíveis, não podem ser consultados permanentemente, têm que ser digitalizados.
É muito material, são três salas de arquivo. Tenho tudo num edifício anexo, algum em mau estado, mas há muito em bom estado.
Daquilo que já viu… o que conta esse arquivo?
Conta a história da cidade de Silves, a relação que o patrão tinha com os presidentes da República e tudo… Há material para uma vida. Nas minhas leituras, estou na época da República, a 25 de Outubro de 1910. Contam-se episódios curiosíssimos, desde as cargas da GNR em Silves, aos louck-outs, até às situações em que o Gregório Mascarenhas chegava ali à zona do chalé com uma espingarda na mão, falava aos operários com uma Winchester, que era a espingarda dos cowboys, como ele dizia, e o Saurer ( o director inglês) com um Luger nas mãos. Coisas diabólicas! A gente nem imagina esses tempos em Silves, durante a altura das greves. Eram greves que tinham a ver com a manutenção dos postos de trabalho, mais do que pelos ordenados, era a manutenção dos postos de trabalho que reclamavam muito nessa altura, pré 5 de Outubro, era a não exportação de cortiça em prancha para o estrangeiro. E compreende-se porquê, porque lhes retirava a matéria prima de melhor qualidade, para os outros depois fazerem e nós comprarmos a rolha. Assim os operários acabavam por não trabalhar o suficiente. São coisas curiosas… Temos muitos episódios assim, nestes livros, e eles são para mais de 30, em papel bíblia.
Só para decifrar isso…
É fácil de ler, é preciso é reconstituir a história. Há coisas incríveis… sobre a personalidade de Gregório Mascarenhas era capaz de escrever bastante, talvez um dia. Sabe porque é que ele mudou de nome? O Gregório Mascarenhas também se chamava Mascarenhas Gregório…
Realmente há alguma confusão sobre o seu nome, já vi das duas formas…
O teatro tem esse nome e as pessoas ainda usam esse nome. Mas ele mudou de nome porque se zangou com a família. Ele explica isso numa das cartas, ao banco, porque ao banco precisava de explicar porque é que tinha mudado de assinatura. Até determinada altura, ele assina com a assinatura clássica, Gregório Nunes Mascarenhas. Eu até tenho aqui a data em que ele mudou de assinatura e outras datas curiosas. Por exemplo, em 1909, em 9 de Junho, a fábrica começou com o horário das 10 horas diárias, antes tinha 12 horas. Em 1909, a 21 de Junho há reclamações operárias contra o fecho das fábricas um ou dois dias por semana, a 29 de Junho há conversas com os operários por causa das greves, depois há declarações dos operários, depois os patrões aguardando soldados para reforço da cidade… A 11 de Outubro de 1910, encontra-se a primeira carta em que Gregório Mascarenhas assina Mascarenhas Gregório, diz que ainda não visitou a fábrica depois da revolução. Depois vê-se que, se calhar para não confundir os sócios ingleses, porque ele escrevia-lhes muito, assinava Gregório Mascarenhas, mas em cartas em português já não o faz. Ele também não esclarece porque o fez, é muito lacónico, diz que se zangou, que cortou com a família e que não quer usar o nome de família, é só.

Quer dizer que tem aqui um autêntico tesouro.
Sim, isto é uma coisa… tem para muito trabalho. Eu gostava que houvesse possibilidades de pôr aqui pessoas a trabalhar, ligadas à história, que se motivem por história local, ou então, por temas que tenham a ver com a cortiça, a exportação, as relações com o estrangeiro. Mas é difícil, Silves não é propriamente um centro cosmopolita, talvez com o Piaget surjam pessoas que se interessem. Bastaria fazer fotocópias disto e pôr aí, pessoas que conhecem a cidade adorariam ler… há coisas que realmente vale a pena contar… E voltando à sua pergunta, portanto, o processo do Museu da Cortiça foi este, correu assim num ano e meio, e acabou com a inauguração do museu, em 5 de Outubro de 1999.
E de lá para cá tem sido um museu com grande sucesso.
Tem sido um museu com muitos visitantes. Devemos já ter ultrapassado os 260 mil, não sei exactamente o número, temos tido uma média de 90 a 100 mil visitantes por ano. O ano passado foi o melhor, este ano tem decaído, temos menos visitantes, nota-se em todo o lado. Mas este número já é muito bom. Estamos entre os mais visitados do País e no sul é o mais visitado de certeza. Mas, por outro lado, temos que ver que está inserido num espaço especial, onde há muitas festas, eventos e as pessoas vêm em grandes grupos, porque nós funcionamos com hotéis. Vêm também muitas escolas, no ano passado tínhamos um pacote incorporado, que incluía passeio de comboio pela cidade, visita ao museu, e almoço na pizzaria. Era barato e os miúdos aderiam muito, este ano vamos fazer o mesmo. Isso mais o verão, em que a fábrica é muito concorrida, faz esses números. No Verão, chegamos a ter 800 entradas, é uma coisa diabólica. E já agora há uma informação que era interessante passar, o museu vai passar a fechar à segunda-feira. A fábrica fecha à segunda-feira, o museu é que não estava a fechar, mas começa-se a contar tudo o que isso implica, tudo isso são despesas.

A maioria das pessoas não se apercebe da dimensão do museu… do número de visitantes que recebe…
É também porque o museu é curioso, é diferente, ocupa um espaço que se manteve mais ou menos preservado, é único no País em termos de museu de cortiça, embora haja já no Seixal uma pequena secção da Mundep, e em Portalegre uma pequena coisa na Robinson.

Num País que é rei e senhor da cortiça no mundo, não havia museus da cortiça e acho que foi muito bom que se tenha criado em Silves, que foi realmente a capital da cortiça no século XIX. Sempre achei que Silves merecia um museu da cortiça e as pessoas reivindicavam isso, porque é história recente.

E esta era a altura para o fazer, ou perdia-se uma série de memórias. Eu logo nesse ano, enquanto estava com aquela garra toda de fazer o museu, fiz imensas entrevistas a pessoas que entretanto já morreram, a pessoas que trabalharam em peças, reinventaram máquinas, criaram novas máquinas, como o Chico Macói. Houve pessoas que se juntaram ao Andrés Luis Borges, o catalão, fizeram coisas novas, pessoas que revolucionaram este mundo, há máquinas espalhadas pelo País que são reinvenções de Silves, são readaptações de máquinas feitas em Silves, que depois foram para todo o mundo. E isso perdia-se, se não fosse essas entrevistas.

Tem ideia de quantos corticeiros haverá ainda em Silves?
Não faço ideia. Quando foi da inauguração, em 99, nós não sabíamos quantos estavam vivos ou mortos, mas fomos às listas dos operários mais recentes e tirámos os nomes e moradas. E quando foi a inauguração estavam mais de 50 ou 60 que tinham trabalhado na fábrica.
E como é que essas pessoas reagiram ao museu?
Uma das coisas boas foi que as pessoas, esses todos que trabalhavam cá, reagiram muito bem. E havia um casalinho, um deles acho que trabalhava aqui na fábrica, que visitava todos os dias a fábrica, todos os dias. Vinham ao café, olhavam para a fábrica, quando as pessoas se interrogavam sobre qualquer coisa, eles informavam, faziam quase de cicerones aqui dentro e isso era a prova que eles achavam uma coisa bem feita. Várias pessoas diziam, isto foi a melhor coisa que podia ter acontecido, porque senão a fábrica morria, desaparecia, aliás no tempo do José Estrelo já se estava a pensar lotear isto. Portanto, a melhor coisa que podia ter acontecido foi reabilitarem-na com um projecto deste género, embora seja um projecto sempre complicado, porque é muito grande, está numa zona difícil, a sazonalidade no Algarve não ajuda nada, há que diversificar, fazer uma série de coisas para conseguir…

Além do vosso trabalho, tem conhecimento que haja alguém a trabalhar nestes aspectos da história de Silves?
Sobre Silves em particular, que eu saiba, não.
Portanto, se a nível interno não conseguirem criar as condições para o trabalho avançar, vai ser difícil.
Eu estou convencido que vai haver pessoas que irão fazer trabalhos nesta área, desde que o arquivo esteja disponível. Isto é uma pescadinha de rabo na boca. Se nós tivermos o arquivo disponível é muito mais simples, se não tivermos…
Terá de ser o Manuel Ramos a agarrar isto.
Um dia queria dedicar-me a um assunto deste, que é uma coisa que me entusiasma, só que tenho tido outros afazeres. Ao entrarmos naquela sala do arquivo, sente-se logo o peso do trabalho, as pessoas dizem logo, isto é trabalho para uma vida. E é. Mas pronto, o essencial está feito, que é salvar, preservar, não foi para o lixo, que isso era memória que se perdia. Agora se for eu, se for outro, outras gerações, o que interessa é que esteja a salvo e isso acho que foi feito.

Voltando ao museu, queria que me falasse um pouco da altura em que o Museu ganhou o Prémio Europeu… o que sentiu?
Foi uma grande surpresa. Nós tivemos a oportunidade de nos candidatarmos, depois houve a fase da visita do júri. Durante a visita do júri sentimos que eles ficaram admirados e entusiasmados com isto. Acho que o ponto mais forte, foi esta ideia quase inédita de aliar um projecto privado turístico, com património. Esta ideia é a salvação, eventualmente, para muitas fábricas e empreendimentos de grande dimensão, como aconteceu já com o Arraial Ferreira Neto, em Tavira. São coisas em que ninguém pega, só se houver um projecto por detrás, que dê dinheiro. Ou como aquele de iniciativa camarária, em Oeiras, com a Fábrica de Pólvora de Barcarena. Mas, portanto, o júri entusiasmou-se bastante e tivemos o convite para irmos a Pisa, mas iam todos os museus concorrentes, eram muitos. Depois foi o convite para fazermos uma apresentação sobre o museu, éramos 40 a fazer essa apresentação. E no último dia, é que houve a cerimónia, que era daquelas assim… hollywoodesca, no Museu da Piaggi, da Vespa. E só na cerimónia é que fiquei a saber, chamaram-me e atribuíram-me o prémio.
Assim de surpresa?
De surpresa, completamente.

Foi realmente uma grande festa, não é todos os dias que se recebe um prémio para o melhor museu industrial.

E o curioso é que este ano foi um museu português outra vez, o Museu de Cerâmica, de Sacavém. Dois anos seguidos, dois museus industriais, os melhores da Europa. Os museus industriais em Portugal são os mais recentes e talvez por isso beneficiem de uma nova formação que não existia, em área museológica. O problema é depois manter os museus. Em Barcarena, quando lá fui também já iam pôr lojinhas…
Já tem.
Pois, o problema é que isto, mesmo estando fechado, está a consumir, é uma máquina pesada, portanto há que fazer-se negócio. E os museus hoje em dia já perderam esse preconceito, têm lojas, café, restaurantes. Desde o projecto museológico seja bom, há que sustentá-lo da maneira que melhor se conhece. Porque as autarquias disponibilizam um orçamento, mas é um orçamento assim… dá ideia que as pessoas têm de lutar pelo dinheiro.

O museu tem algum apoio da autarquia?
Não, é totalmente privado, é a fábrica que sustenta o museu, e o museu que sustenta a fábrica, é um bocado isso, de inverno principalmente.
Tem alguma ideia da percentagem de visitantes do concelho?
É uma estatística que não temos. Temos por grupos, por escolas, mas não por concelho, seria interessante saber. Em termos daquilo que me apercebo, há pessoas que nunca vão ao museu, isso será 50 por cento. Depois, há aqueles que irão a museus mas que como é aqui em Silves, logo vão “amanhã”. Tenho colegas da escola que me dizem isso. Eu não sou capaz, nesta terra, de abrir uma coisa e não ir lá ver. A terra é tão pequena, posso não ir no dia da inauguração mas vou depois. Agora uma pessoa que me diz, um ano ou dois depois, que ainda não visitou o Museu da Cortiça, para mim, isso é uma vergonha. Ao menos por curiosidade. E os preços são acessíveis, é uma quantia simbólica. Os grupos, visitas marcadas e escolas pagam um euro, as visitas individuais pagam um euro e meio.
E ainda podem aproveitar o dia do museu, em que a entrada é gratuita.
No dia 5 de Outubro, que é o dia da nossa inauguração, pomos portas abertas, fazemos visitas guiadas. Mas este 5 de Outubro não entraram muitas pessoas e a entrada era gratuita. Mas dizia eu, o que me dá mais gozo, é ver no museu os antigos operários e operárias, virem ver o museu com a família, mostrarem o espaço onde trabalharam, as fotografias onde aparecem… pessoas que nunca teriam entrado noutro museu, mas a este vêm. Este museu tem muito a ver com a cidade, com aquilo que ela é. É mais fácil um habitante de Silves vir aqui do que ao Museu de Arqueologia. A arqueologia não diz nada, ou diz pouco, à maioria dos habitantes. Mas aqui as pessoas vêm muitas vezes fazer ofertas de peças que tinham em casa. Ao princípio começámos por pedir mas as pessoas estavam um pouco desconfiadas e não ofereceram logo, embora eu fosse recolhendo muitas máquinas pela cidade, eu ia pedir. Mas oferecer, oferecer, só o fizeram depois do museu estar feito. Primeiro quiseram ver. Mas agora o museu está feito e é difícil integrá-las, só em exposições temporárias.

Falando de novas coisas, que projectos para o futuro?
Os projectos passam também por exposições temporárias. A exposição permanente está fechada, digamos assim, o espaço foi concebido desta forma, o museu não é um museu da cortiça, em termos gerais, não pretende contar a história da cortiça. As pessoas, às vezes, perguntam: mas não tem os aglomerados, não tem isto, aquilo, não tem aquela máquina. Não temos a intenção de sermos monográficos na cortiça e tratar o tema exaustivamente, não, isto é o museu da Fábrica do Inglês, é da vida desta fábrica e do que ela produzia. É evidente que se conseguirmos uma máquina diferente eu vou buscá-la e guardo-a aí. Só que depois há que fazer exposições, e é o que pretendo fazer no futuro, usando os espaços que a fábrica tem, nomeadamente o chalé, que está a ser preparado para que venha a ser espaço de exposições temporárias. Aliás, já fizemos lá duas, sobre cortiça. Esse programa tem que ser afinado, vamos criar uma espécie de calendário anual, com datas mais ou menos fixas. Vamos continuar o restauro de máquinas, continuar algum inventário do património do concelho que todos os dias vai desaparecendo… Vimos agora mesmo o caso da Fábrica do Matos, aqui mesmo ao nosso lado, que nós ainda conhecemos e que desapareceu… Depois é o projecto do arquivo que é um projecto sine die e também o projecto das visitas guiadas. Sobretudo no verão é impossível ter um só guia, vamos criar um audio-guia, em várias línguas. E há o trabalho com as escolas que para mim é fundamental. Gostava de criar materiais que pudessem facilitar a visita dos alunos e dos professores e que pudessem ser utilizados nas escolas, e explorar a cortiça nas escolas, também é uma coisa que estou a preparar, concursos tendo a cortiça como base. E os projectos com as escolas podem ter a ver com projectos educativos como sejam a cortiça e o ambiente, a cortiça e a preservação do montado, coisas que o museu possa integrar, que possa dar um contributo científico, ou organizativo. O problema é que nós não temos tempo, somos poucos. E a fábrica, embora esteja em recuperação, ainda não atingiu o ponto de equilíbrio completo e os tempos também não ajudam. Mas pronto, só temos três anos de trabalho, vamos fazendo devagarinho e procurando fazer melhor. Estes são os projectos que me lembro, que estão na calha… evidentemente que também parcerias com outros museus ligados à cortiça, ou com grupos económicos importantes que nos possam auxiliar e patrocinar. Temos projectos editoriais, por exemplo, que podem ser realizados com patrocínios de grupos que não só o da fábrica, como foi o caso do catálogo que foi feito com o patrocínio de outras empresas privadas. Depois, é a continuação da inventariação das máquinas, da parte da reserva. Temos uma reserva de máquinas tão grande como este museu, ou maior, todas já quase restauradas, estão a 70, 80 por cento restauradas. Aí tínhamos mais outro museu, só que não temos espaço, tínhamos que arranjar uma Fissul, para ter as máquinas. A ideia é tentar arranjar um espaço onde se possam fazer exposições temporárias, rodando os temas. Uma das exposições que gostava de fazer é de miniaturas de máquinas, há um senhor que faz esplêndidas miniaturas e tem-se dedicado a fazer da Fábrica do Inglês. Estamos abertos também a propostas de fora, de pessoas que queiram participar.

Sendo o Manuel Ramos, uma pessoa muito ligada ao património, que análise é que faz da situação da defesa do património no nosso concelho?
Acho que está… como é que hei-de dizer? Está fracota… já houve melhores tempos… embora nos últimos anos, diga-se em abono da verdade, as grandes ameaças que pairavam sobre o património da cidade têm-se diluído um pouco. Um grande cavalo de batalha da Associação de Estudos e Defesa do Património foi sempre o festival da cerveja. Felizmente isso mudou, com a passagem do festival para a Fábrica do Inglês, onde tem condições. Tem havido alguns avanços nessa área. Agora, acho que o principal local de batalha devia ser o centro histórico de Silves, está muito degradado, e não há maneira de entrar em obras de uma vez por todas, mesmo havendo já um estudo sobre o centro histórico, um plano de pormenor. Esperemos que o Polis tenha alguma influência nisso, no avanço dessa vertente. A principal prioridade de Silves é o centro histórico. E resolver o problema da arqueologia, também foi uma batalha que a Associação travou, para que a câmara tivesse um arqueólogo, e já temos. Agora que haja um gabinete de arqueologia que preste assistência aos moradores. Não é obrigar, como se continua a fazer, os moradores a fazerem arqueologia e a pagarem a arqueologia quando a câmara tinha essa obrigação. Se nós temos um património importante, a câmara tem que assumir essa responsabilidade, não há dúvidas. Ou então, as pessoas destroem, não têm contemplações. Temos que assumir que o património é a mais valia desta cidade e que pode gerar outro ciclo. Tivemos o ciclo da cortiça, o ciclo da laranja, podemos ter o ciclo do património cultural. Silves, embora não tenha monumentos muito importantes, tem um conjunto patrimonial que tem uma harmonia interna e que as pessoas apreciam nitidamente, as pessoas que vêm cá gostam da cidade, portanto, temos que preservar isso que é a única valia que temos, se a gente começa para aí a construir… Agora, com o Piaget, isso é perigoso. O Piaget, por um lado estou convencido e ainda bem que assim é, vai ter um efeito dinâmico muito grande, vai acordar a cidade, vai rejuvenesce-la, mas pode ter um efeito perverso, em termos de construção. O nosso grande trunfo é realmente a harmonia arquitectónica desta cidade, a preservação desta colina em escadaria…
Já está ameaçada…
Pois está….
…há zonas onde passamos, ali em baixo, de onde já não se vê o castelo…
Quando se vai ali à rotunda, não é? Aquela zona, ali, do edifício da fábrica para a frente, é para esquecer, já o Bairro Zé Duarte é uma desgraça. Agora dentro do centro histórico é que não. E vê-se coisas…. como em frente da Misericórdia, fizeram um edifício de um andar, com escavações feitas à socapa, escavações não, fizeram um buraco…

É como naquele espaço onde estava a ser construída a biblioteca. Ainda há dias ouvia dizer a um colega que os mouros tiveram muito cuidado, em desviarem a muralha para não atrapalhar as obras do banco…
Olhe, lá está um exemplo. Esse edifício preocupou-me muito. Começaram a fazer obras… pensei que iam preservar a fachada. Um dia cheguei lá, vejo que estavam a derrubar a fachada, fui logo perguntar a alguém com responsabilidades na câmara o que iam fazer com o edifício, um edifício com uma traça gírissima, “ah, pá, não te preocupes, aquilo vai ser um banco ali, mas vamos fazer tudo outra vez, igualzinho”. Mentira. Lá está mais um recuado, já tem mais um andar e já não vai ter o mesmo aspecto, de certeza absoluta.
Uma outra guerra em que a Associação se empenhou e que não tenho ouvido falar, tem a ver com a recuperação do teatro. O que se passa?
Isso agora está nas mãos da câmara. Está o projecto feito por um dos melhores arquitectos portugueses na área do teatro, que é o arquitecto Castanheira, depois houve uns problemas com as fundações e com o estudo que era preciso fazer e que não tinha sido feito, atrasou tudo. Agora é a questão do financiamento, não sei se está garantido, tenho a impressão que sim, e o problema da Filarmónica, que implica o projecto do fumeiro, para onde a Filarmónica vai, e isso tem de avançar. O teatro tem o plano feito, ganha-se imenso espaço, fica-se com dois teatros, um exterior, outro interior, fica com a zona de palco toda modernizada e com tudo o que é preciso. E há também o projecto do CELAS…
Que tem estado encalhado…
Encalhou por causa do Tribunal de Contas, foi embargado, agora meteram um novo concurso… As obras deverão começar dentro de pouco tempo, mas tem estado tudo à chuva e ao sol… é capaz de ficar um edifício muito bonito… vamos lá ver, é outro edifício que também merece. Há edifícios aí… como as Casas Grandes por exemplo, não podem deixar fazer aquilo às Casas Grandes, como é que podem, num edifício que estava em vias de ser classificado, pelo menos vinha no PDM a presunção de classificar aquele edifício, como é que podem deixar espetar anúncios de restaurantes que não ficam na fachada mas ficam na lateral, um grande cartaz de cartão? Como é que podem pintar uma fachada de uma cor e outra de outra, como esteve? Como é que deixam por toldos? Um edifício daqueles que precisava para já de uma grande mão de cal. E a câmara podia pagar, porque não?
Se a Associação fosse pegar nesses casos todos, a nível do concelho…
Pois, e há o concelho, não é só Silves. Algoz, por exemplo, precisava de uma mãozinha, tem edifícios com interesse. Agora está a melhorar, passei lá há tempos, já gostei mais, achei que estava a ganhar alguma dinâmica, vamos lá ver. Eu espero que as pessoas se convençam que esta é a valia deste concelho, é o património e a natureza, a serra… precisava era de ser valorizada… e o rio.»

 

Entrevista e Fotos – Paula Bravo

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