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Entrevista João Mourinho Gomes

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O nosso sucesso é o sucesso dos nossos alunos

João Mourinho Gomes é uma figura incontornável na comunidade escolar do Concelho de Silves. Aos 19 anos começou a dar aulas, no Algoz, e atualmente é diretor do Agrupamento de Escolas de Silves. 

Com formação em Gestão e Administração Escolar, define o seu sucesso pelo êxito que outros alcançam – os alunos. 

Num lugar difícil há duas décadas, é um homem que sabe como impor respeito. O Terra Ruiva falou com o carismático diretor, poucos dias depois de terem sido concluídas as impressionantes obras de requalificação que transformaram por completo a velhinha Escola Industrial e Comercial de Silves.

Estive a percorrer a escola, merece mesmo uma visita… e realmente esse foi o pretexto para o Terra Ruiva vir cá, para falarmos da escola e do seu diretor…

Falar do diretor era escusado…

Mas temos de falar. Começou a trabalhar como professor aos 18 anos?

Tinha19 anos. Era muito novo, só se atingia a maioridade aos 21 anos, o meu pai teve de me emancipar, para poder dar aulas. Foi como professor de Educação Física, na Escola Preparatória do Algoz, no edifício antigo. Estive aí dois anos, depois fui para a tropa. Quando voltei, fiz o estágio e concorri novamente, em 1976, e fui colocado na Madeira. Depois estive um ano em Silves, como professor agregado. No ano seguinte concorri a efetivo e fui para Tábua, a norte de Coimbra. Aí já fui presidente de Conselho Diretivo. Depois estive dois anos em Serpa. A seguir fui para Portimão, para a Escola Poeta António Aleixo, aonde estive cinco anos. E depois voltei a Silves, que era onde queria ficar. Estou nesta escola vai fazer 32 anos.

Há quantos anos é diretor em Silves?

Acho que é o 17º ano.

Como era a escola quando veio para cá, há 30 anos?

Era mais fácil.

Quem trabalha nas escolas diz que cada vez é mais difícil.

Era mais fácil, a sério. E nos últimos anos ainda se complicou mais. Para mim também. Só tinha uma escola para gerir, agora tenho 12. Faz toda a diferença. O número de professores e de alunos era muito diferente. E hoje o Ministério da Educação exige muito mais de nós. Por exemplo, a requisição de professores chegava ao final de junho e estava resolvida e hoje vai até 15 de agosto, é difícil. E a relação dos professores e dos alunos com a escola também era completamente diferente. Hoje as coisas estão muito complicadas. E quando falo dos alunos tenho que incluir os encarregados de educação. Há uns anos atrás se um aluno chegasse a casa dizendo que o professor o tinha mandado para a rua, os pais entendiam que era porque tinhas feito alguma coisa mal. Agora não. Vêm pedir explicações ao diretor e ao professor. Faz toda a diferença.

Se pudesse voltar atrás, ainda seria professor?

Sim, independentemente das dificuldades que vamos sentindo, das vicissitudes que vamos passando, não só eu mas os professores em geral, faria a mesma coisa. Não tenho dúvida nenhuma.

O que lhe parece mais difícil, ser professor ou diretor?

Ser diretor é agarrar todos os problemas, nomeadamente os inerentes a ser professor. Ao diretor chega tudo, dos problemas do ensino e aprendizagem ao que se passa dentro da sala de aula. E às vezes o diretor tem de ir à sala de aula. Eu não advogo que se chame o diretor para resolver as situações de conflito na aula, deverão ser os professores a fazer isso. Porque no dia em que se pede ajuda externa, torna-se difícil impor-se. Mas acontece. E quando assim é, lá vou.

E fora da aula também…

Também. E à noite, que eu sou diretor 24 horas por dia… e ao sábado e ao domingo, se for preciso alguma coisa, tenho de estar disponível.

Diz-se que os pais cada vez se desresponsabilizam mais quanto aos filhos e empurram tudo para as escolas?

Eu diria que isso acontece com a maioria dos pais. Não vou por isso em termos percentuais, mas há uma tentativa para que isso aconteça… se calhar às vezes não é consciente. Já me aconteceu vir aqui um encarregado de educação de um aluno, que era realmente muito mal comportado, e virou-se e disse-me: “professor veja lá se faz alguma coisa dele”! Isto é a completa desresponsabilização do encarregado de educação. Não é a escola que tem de fazer “alguma coisa” dos alunos, a escola tenta guiá-los, mas a educação têm de ser os pais a dar, nós damos instrução.

Nesse aspeto nota alguma diferença entre os pais dos alunos da secundária e de outros graus de ensino?

Não. Os pais das básicas são os futuros pais da secundária. Se na escola básica são pessoas presentes aqui continuam a ser, embora um pouco menos, é verdade. Digamos que a presença dos encarregados de educação vai desaparecendo gradualmente, de acordo com o grau de ensino. Na pré-primária estão presentes todos os dias mas quando chega à secundária mais de 50% dos pais estão distanciados.

E os pais daqueles que mais necessitam de acompanhamento não comparecem?

Os pais mais presentes são dos filhos que melhor se comportam, isso é evidente. Não estou a dizer que os pais ausentes façam isso de propósito, é também a maneira como foram educados, se calhar precisavam de alguma formação, de conhecimentos que lhes permitissem agir de outra forma…

E a escola tem de prestar todo o tipo de apoios, desde o social ao psicológico.

Sim, mas as pessoas têm de compreender que a escola não pode ser tudo. A escola faz o que pode, mas não pode ser tudo. Os apoios sociais são fornecidos, dentro do possível, também fornecemos o apoio psicológico, mas há apoios que não conseguimos arranjar, está nas mãos de cada um consegui-los.

Havia falta de psicólogos nas escolas, isso está resolvido?

Sim, vamos ter três psicólogas. É no 1º ciclo, quando a aprendizagem começa mais a sério, que se detetam as situações e os alunos são encaminhados para os psicólogos e para os professores do ensino especial.

A Escola Secundária de Silves foi das primeiras a tentar obter o certificado de qualidade.

Tanto quanto sei foi a primeira a tentar a certificação. Isso foi o pretexto para reformular alguns procedimentos internos da escola, há 15 anos. Mas no final do processo tinha de vir cá uma equipa certificar. Custava na altura três mil contos. Obviamente que a escola não tinha capacidade para pagar e ficamos por ali. Mas estava tudo feito, só nos faltava o selo. Depois disso temos tentado manter esse rigor e melhorar. Isto é um processo de melhoria: avaliação, implementação do plano de ação, melhoria, avaliação. É um processo que não pode parar.

Li no jornal Público sobre uma espécie de prémio que o Ministério da Educação deu a escolas que atingiram determinados objetivos – de eficácia educativa e redução do abandono – e na lista estava “Escolas de Silves”. De que se trata?

São horas que o Ministério dá. Deu créditos horários ao Agrupamento de Escolas de Silves, graças aos resultados obtidos pela Secundária. Este ano a escola teve uma performance muito boa. ( Nunca desejei tanto ver o ranking como este ano… O ranking das escolas vale o que vale, mas mesmo assim prefiro estar em primeiro do que estar em segundo…). Este ano tivemos um bom resultado nos exames, e disseram-me que poderíamos vir a ser a primeira escola do Algarve. Não faço ideia se será assim, não conheço os resultados das outras escolas, estou muito curioso. Mas efetivamente na Secundária, sistematicamente e com consistência, temos vindo a melhorar, a subir a nossa performance na avaliação externa, em termos de exames. Devagarinho, devagarinho mas vamos conseguindo.

Até agora a escola tem estado a meio da tabela…

A meio da tabela, sim, e a nível do Algarve estávamos em 3º lugar.

Esses rankings são contestados…

A questão é que a nossa realidade é completamente diferente de uma escola de Lisboa, ou até de Faro, porque aqui temos alunos da serra, do campo, da cidade… todo o tipo de alunos… E não excluímos ninguém. E os rankings comparam escolas com realidades diferentes.

Quais são os grandes objetivos desta escola?

Combater o insucesso escolar e o abandono. Isso é para todo o agrupamento. Desde sempre são esses os nossos objetivos: que os alunos tenham bons resultados e que cheguem o mais longe possível, em termos de estudo. E com o mínimo de repetências.

O abandono ainda é grande?

É quase residual, devido à escolaridade obrigatória. Quando os alunos não vêm, avisamos a GNR que os vai buscar a casa. É claro que isso põe outros problemas, não querem cá estar e criam sarilhos. Isso acontece.

A aposta que tem sido feita no ensino profissional contribui para combater o abandono?

É essencial. Nesses cursos há uma menor exigência a nível programático, na parte teórica, e há um investimento na prática. Isso adequa-se àqueles miúdos que naquilo que têm de estudar são um bocado fracos, mas naquilo que é para fazer são espetaculares.

A Secundária tem apostado nesses cursos. 

Temos o curso de auxiliar de saúde, que é muito importante porque somos um país de velhos. Esse curso foi uma das apostas que fizemos. Este ano temos também o curso de multimédia, de restauração e bar e de energias renováveis. E estamos com inscrições para um curso EFA, noturno.

Numa entrevista que deu ao jornal escolar dizia que “para ser diretor é preciso um grande poder de encaixe”. E agora, o que é preciso, para ser diretor de um mega- agrupamento de escolas?

Era preciso um grande poder e agora ainda tem de ser maior! Porque antes da constituição do mega-agrupamento, havia o agrupamento das escolas EB 1, com um diretor; a Escola Garcia Domingues tinha uma direção, a Escola Secundária de Silves tinha outra direção; em Messines, havia uma direção para o agrupamento de escolas; e em S. Marcos da Serra também, para a EB 1 e Jardim de Infância. Feito o mega-agrupamento, que juntou todas as escolas de Silves, Messines e S. Marcos da Serra, há um só diretor. E não é fácil, não é fácil!… São 12 escolas, distantes entre si, entre a sede em Silves e a escola mais distante, em S. Marcos da Serra, são 30 quilómetros de distância. Isso também não facilita. E estamos a falar de 200 e muitos professores e mais de 2500 alunos.

A Secundária quantos alunos tem agora?

À volta de 630. Eu diria que nunca tivemos tão poucos alunos. Mas é normal, esta evolução, porque nos anos 60 e 70, em termos de escolas técnicas, havia a de Silves, Faro e Vila Real de Santo António. Vinha para aqui meio mundo, desde Sagres a Albufeira, até do Alentejo. E tinha alunos desde o 6º ao 12º ano. Depois fizeram várias escolas, do 5º ao 9º ano, e secundárias nos outros concelhos, e esta foi ficando despovoada. Mais ainda, com a natalidade a decrescer, os pais a emigrarem e a levarem os filhos. E os que eventualmente podiam fazer filhos também estão a emigrar, isto é o descalabro.

A diminuição de alunos também se nota nas escolas, de outros graus de ensino?

Já houve mais redução, agora estão mais equilibradas. Mas há problemas. Houve uma altura em que vinham muitas pessoas de fora para o Algarve, isso equilibrava a fraca natalidade. Agora não há emprego, essas pessoas não vêm e a maioria dos estrangeiros foi embora. Restam algumas famílias que já não querem voltar para o seu país, porque os filhos estão enraizados, alguns foram para a universidade.

Ainda em relação ao mega-agrupamento, o facto do centro do poder, digamos assim, estar longe das escolas, não tem feito aumentar os problemas?

Não. A escola que mais problemas tem dado, é a que está mais perto e eu estava lá todos os dias. Eu não posso estar em 12 escolas todos os dias, mas elas têm um coordenador, uma pessoa que está lá para orientar. Tem apenas oito horas para esse trabalho, é muito pouco. Por isso tentamos que alguns colegas mais velhos, que têm horas não letivas, possam dar uma ajuda. A partir dos 50 anos, os professores passam a ter menos duas horas de ensino, e isso é progressivo. Até ao final da carreira são menos oito horas. Esses colegas são chamados para ajudar.

Tenho ideia que a média de idade do corpo docente do agrupamento é muito alta.

Sobretudo na Secundária é alta. Digamos que há muita gente com muitas horas de redução.

Apercebi-me disso em conversa com um professor da EB 2, 3 de Messines…

Essa escola tem um problema, está a ser uma escola de passagem, salvo raras exceções ninguém quer lá ficar. Há uma série de gente que passa mas não cria raízes e não dá continuidade ao trabalho.

Falamos no número de professores e de alunos. E auxiliares, há falta?

Está mau, mas não é em termos de número. O problema é, nomeadamente na Secundária, o número de pessoas que adoece e depois não temos autorização para substituir. Aqui devíamos ter pelo menos 20 mas estamos com 10, que os outros estão doentes. E há noutras escolas com essa dificuldade, porque as pessoas estão doentes.

É um problema muito comum na função pública.

Abusa-se da baixa, da doença. Já tive um caso em que mãe e filha adoeceram no mesmo dia, com baixa passada pelo mesmo médico.

Era uma doença contagiosa…

Não quero dizer que as pessoas não podem estar doentes, mas muitas não fariam isto se estivessem a trabalhar no privado

Falando da etapa atual, concluiu-se agora uma fase difícil, com a escola em obras durante cinco anos, dois anos com as obras paradas… Pode explicar, no geral, o que aqui foi feito?

Houve uma requalificação do edifício e de todo o espaço, que trouxe uma extraordinária melhoria em termos do edifício, do espaço exterior e no conforto. Podemos andar por toda a escola em espaços fechados, não se apanha frio nem chuva, a escola está climatizada, há conforto, há efetivamente condições de trabalho. Podemos dizer que não há nada que não tenha sido alterado. Começou pelo telhado que precisava muito, já havia infiltrações nas salas, foi posto um telhado e uma cobertura nova, com isolamento térmico. Passou para o sótão, que foi alterado, para as salas que foram completamente remodeladas, as janelas e vidraças foram todas substituídas, e precisavam, e têm vidro duplo, com maior conforto térmico e acústico. Agora temos qualidade e conforto.

Há pouco, quando vinha para aqui, “mandaram-me uma boca” para não falar só das coisas boas, para falar também das más. 

Digamos que nalguns casos os materiais usados não eram os melhores. Embora nesta segunda fase das obras fossem melhores. Na primeira fase tivemos problemas com muitos materiais, como das portas, eram de tal maneira maus que os puxadores não se aguentam, mas estão a fazer trabalhos para remediar a situação.

De quanto foi o investimento na escola?

Na placa que está ali fora diz que foram 11 milhões…

Número impressionante. E outra coisa que me impressionou foi ter visto um elevador na escada.

Temos dois elevadores, um vertical e outro que vai pelo corrimão, para pessoas com dificuldades de mobilidade.

Faz-me alguma confusão ter de haver dois elevadores…

O que posso dizer é que aceitamos o que foi feito e que gosto muito. Se fosse a escola a decidir faríamos outro tipo de obras? Possivelmente. Mas estou contente com as novas condições da escola e com tudo o que foi feito. E também porque não é a escola que vai pagar a energia … quando se acabou a primeira fase das obras, a fatura da energia duplicou, agora com a segunda fase ainda não sei quanto vai ser, se calhar vai triplicar.

Por causa da climatização?

E não só. Quando a escola foi feita, só se gastava energia com a iluminação e pouco mais. Isso foi tudo alterado, toda a instalação elétrica, para os computadores e etc. Só as lâmpadas é que são mais económicas.

Este ano voltei a ver notícias, sobre a Secundária, do problema das salas serem pequenas para o número de alunos nas turmas.

Atualmente o Ministério da Educação quer que se meta 30 alunos numa sala. Quando a escola foi projetada eram outros números. E surgiram problemas, mas têm sido resolvidos porque o Ministério tem permitido que ajustemos o número de alunos da turma às condições da sala.

Estamos no início de mais um ano letivo – qual o seu maior receio e maior desejo?

O meu maior receio? Não tenho receios. O meu maior desejo é alcançarmos o sucesso dos nossos alunos e o bem estar dos nossos alunos e professores. Sobretudo o sucesso dos nossos alunos. O sucesso dos nossos alunos é o nosso sucesso.

A um jovem professor que inicie aqui a sua carreira que conselho daria?

Eu dir-lhe-ia, como aliás digo, que está na melhor escola secundária do concelho… digo sempre isso, a brincar… Às vezes ficam assim a olhar para mim… é a única que há…. Mais a sério, eu parto do princípio que para ele estar aqui, só há duas razões: ou está desempregado e não tem outra hipótese, ou então gosta muito disto. Se gosta disto, só lhe recomendo trabalho. E trabalho.

Para o bem e para o mal, quando se fizer a história das últimas décadas da Escola Secundária de Silves o seu nome estará lá. Pensa nisso?

Não penso. Mas orgulho-me muito. Enquanto aluno nunca pensei desempenhar o cargo de diretor na minha escola, na Escola Industrial e Comercial de Silves, tão pouco ser diretor do agrupamento.

E uma figura de referência para muitas gerações que por aqui têm passado, especialmente para os alunos. 

Eu trato-os bem, como qualquer pessoa merece ser tratada. E sou justo. Posso às vezes não conseguir, mas tento sê-lo. Mas há uma grande diferença entre o tempo em que era só diretor da Secundária e agora que sou diretor do mega-agrupamento. Na altura tinha muito mais contacto com os alunos, agora é mais complicado.

O segredo é uma grande dedicação?

Não faço grande esforço. Faço o que gosto e gosto do que faço. E diga-se que também tenho tido e tenho boas equipas, que me ajudam. Tenho uma equipa de gente com experiência, que sabe o que está a fazer e que me ajuda, se não fosse assim não seria capaz de gerir tudo isto. Mas estou aqui há cerca de 19 anos, é muito tempo, tanto na vida da escola como na minha… mas é como digo, gosto do que faço. E quando se gosta não se faz com esforço.

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