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O Teatro Mascarenhas Gregório e o seu fundador – Exposição em Silves

Nos Paços do Concelho, em Silves, encontra-se patente, até ao final do mês de julho, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “O Teatro Mascarenhas Gregório e o seu fundador”.
A exposição é acompanhada de assento de batismo, registo de óbito, termo de posse enquanto Administrador do Concelho e fotografias.
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição.

A versão integral, com os textos, fotos e documentos, está disponível aqui: Expo_ DM_Julho O Teatro Mascarenhas Gregório e o seu fundador

O Teatro Mascarenhas Gregório e o seu fundador

Gregório Mascarenhas
Gregório Mascarenhas

Homem inteligente e empreendedor Gregório Nunes Mascarenhas Neto foi uma figura ilustre da comunidade silvense que muito contribuiu para o prestígio social e industrial da cidade no último quartel do Século XIX e no primeiro do Século XX.
Nasceu no dia 15 de novembro de 1847, em Alcantarilha, e faleceu, em 1922, na sua residência de Armação de Pera.
Herdeiro de abastadas e prestigiadas famílias, Gregório Nunes Mascarenhas Neto foi um homem arrojado que adquiriu uma avultada fortuna pessoal devido ao seu empreendedorismo. Em 1867, iniciou a sua atividade industrial corticeira, fundando a firma Gregório Nunes Mascarenhas & Comp.ª, que se dedica à venda e intermediação de negócios de cortiça com a Inglaterra e a Alemanha.
Em 1884 deu-se a fusão da Gregório Nunes Mascarenhas & Comp.ª com Avern, Sons & Barris, firma inglesa/catalã com a qual negociava e em 1890, a nova sociedade surge com a designação “Avern, Sons & Barris e Gregório Nunes Mascarenhas”.

Em março de 1893, iniciou as obras de construção de um estabelecimento para fábrica de cortiça e rolhas, denominado como “Fábrica Nova”, que popularmente ficou conhecida por “Fábrica do Inglês”.
Esta nova fábrica foi inaugurada a 2 de janeiro de 1894, empregando mais de duzentos trabalhadores, e marcou profundamente a paisagem urbana da cidade de Silves, quer pela sua localização, volumetria e arquitetura, sendo atribuído ao próprio Gregório Mascarenhas a autoria do projeto.
Para alojar os trabalhadores da sua fábrica, que vinham dos arredores da cidade, mandou construir um bairro de moradias, nas imediações da fábrica, entre a Rua 1º de Maio e a Diogo Manuel.
Também esteve ligado ao sector das pescas, integrando a empresa “A Louletana – Silvense” e a “Companhia de Pescarias do Cabo de Santa Maria, Ramalhete e Forte”, dedicada essencialmente à pesca do atum e sedeada em Faro.

No campo político a sua família é detentora de uma forte tradição de intervenção política e em 1882 Gregório Nunes Mascarenhas Neto foi eleito, pela primeira vez, Presidente da Câmara Municipal de Silves, pelo Partido Regenerador, cargo que exerceu até 1884.
A 11 de fevereiro de 1890 tomou posse como Administrador do Concelho exercendo o cargo até fevereiro de 1897, retomando funções entre julho de 1900 e outubro de 1904.
Entre 1902 e 1904 exerceu, pela segunda vez, o cargo de Presidente acumulando em simultâneo com as funções de Administrador do Concelho.

Regenerador por tradição familiar, rendeu-se ao republicanismo fazendo parte da primeira geração de republicanos silvenses. Por divergências familiares abandonou o seu último apelido, “Neto”, e inverteu o seu nome, passando a identificar-se como “Mascarenhas Gregório”.

Enquanto industrial corticeiro e político foi um homem que muito contribuiu para o desenvolvimento da urbe, proporcionando diversas iniciativas culturais e alguns edifícios públicos tiveram o seu patrocínio pessoal. A construção do edifício dos Paços do Concelho foi, sem dúvida, a obra de maior destaque dos seus mandatos. Foi também sua principal preocupação a limpeza e higiene de Silves, com a construção de um alpendre para a recolha de cavalgaduras das pessoas que acorriam à cidade, abertura de um poço junto á Cruz de Portugal, novos alinhamentos e melhoramentos a nível das artérias da cidade e a construção de alguns troços das vias municipais.

Mascarenhas Gregório foi diretor e proprietário do jornal O Silvense (1910-1911), periódico fundamental para o estudo dos primeiros tempos da I República no concelho, bem como dono do primeiro automóvel de Silves, carro que comprou ao Infante D. Afonso, segundo filho do rei D. Luís e de D. Maria Pia de Sabóia.

 

Apaixonado por casas e com gosto pelo exótico e pelo revivalismo projetou a construção das suas quatro emblemáticas casas. A principal, localizada em Silves na Rua Manuel Arriaga, de estilo tradicional oitocentista foi edificada em 1867, quando ainda era um jovem de 20 anos. Em Armação de Pera edificou uma habitação em forma de um castelo, conhecida como o “Castelinho” ou o “Chalet dos Bicos”. Nas Caldas de Monchique possuía o “Chateaux Rouge” e em Lisboa o “Chalet Ideal”.

 

Habitação em Armação de Pêra - década de 1960
Habitação em Armação de Pêra – década de 1960

Em Armação de Pera, de forma a tirar partido do início da atividade turística, construiu um amplo salão destinado a Casino, e em Silves mandou construir um elegante e magnífico teatro, denominado Teatro Mascarenhas Gregório.
Foi com sentida tristeza para os silvenses que chegou a notícia do falecimento de Gregório Mascarenhas, tendo sido exarado em ata da Comissão Executiva, do dia 30 de agosto, “votos de sentimento pelo falecimento do cidadão Gregório Nunes Mascarenhas, antigo presidente d’esta Camara e cujas qualidade de inteligencia e iniciativa esta cidade e o concelho tanto deve”.
Em Silves a sua obra de maior visibilidade é o Teatro Mascarenhas Gregório. A inauguração ocorreu a 24 de julho de 1909, com grandes festejos, estendendo-se pelas duas noites seguintes. A festividade ficou a cargo da Orquestra Silvense, dirigida pelo Sr. Henrique Rocha Júnior, e no palco passou a companhia dirigida pelo ator Pinto Costa, da qual faz parte a atriz Adelina Abranches, Alfredo Ruas, Gouveia Pinto, entre outros.
Na noite da inauguração foi apresentada a peça O Filho Bastardo de Emile Augier. Começou com a orquestra Silvense a tocar o hino do Sr. Gregório Mascarenhas, seguindo-se uma poesia recitada por Adelina Abranches, e novamente o mesmo hino. Da assistência, fizeram-se ouvir vários oradores, falando em primeiro lugar do seu camarote o Sr. António Caldas em nome da Câmara Municipal, salientando o benefício do teatro para Silves. No fim do espetáculo o Sr. Gregório Mascarenhas, sentado no camarote da autoridade, ocupado pelo governador civil “agradecido muito comovido as manifestações que lhe tinham sido feitas”. Terminando o espetáculo com palmas e chamadas aos Sr. Gregório Mascarenhas e Júdice da Costa.
Na segunda noite foi representado o drama extraído do romance Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco e na noite do dia 26 a comédia de Henrique Lopes de Mendonça O Salto Mortal e O Gaiato de Lisboa um apogeu de Adelina Abranches.
O Teatro Mascarenhas Gregório representou um progresso muito acentuado, não só para a cidade de Silves como também para a província algarvia que passa a ter o 2º teatro, uma vez que até então só existia o Teatro Lethes, em Faro. Assim, as melhores companhias teatrais da capital começaram a deslocar-se a Silves para apresentar as suas peças.
Em 1911 o teatro passou a ter um animatógrafo, projetando na sua tela grandes clássicos do cinema, e a partir de 1937 passou a ser a sede da Sociedade Filarmónica Silvense, com os seus bailes, concertos, récitas e peças de teatro dos grupos amadores locais, marcando durante décadas a vida cultural de Silves.
Todavia, com o passar dos anos o espaço entrou em estado de degradação acelerada e perante a eminente perda de inegável património arquitetónico e cultural a Câmara Municipal de Silves, em reunião camararia realizada a 18 de agosto de 1981 delibera “iniciar negociações com os proprietários do edifício com vista à sua aquisição” e a sua “declaração de interesse municipal”. Para tal foi criada uma Comissão, em que a autarquia foi parte integrante e em 1984 o teatro foi classificado como “Edifício de Interesse Concelhio”, pelo IPPAR.

O interior do teatro
O interior do teatro

A 6 de março de 1987, sob o mandato do Presidente José António Correia Viola, a Câmara Municipal de Silves compra o edifício do Teatro Mascarenhas Gregório aos seus proprietários pela quantia total de quatro milhões de escudos.

Quase dez anos depois da sua aquisição, na reunião camarária de 16 de julho de 1996 foi deliberado adjudicar ao arquiteto José Manuel Pires Castanheira a elaboração do projeto para a recuperação do Teatro.

 

 

A 23 de outubro de 2002, e sob a presidência de Maria Isabel Soares, a empreitada de recuperação do teatro foi adjudicada iniciando-se a obra em 2003. As obras custaram cerca de dois milhões de euros, valor comparticipado pela autarquia e pelo programa PIQTUR (verbas provenientes dos casinos do Algarve ao setor turístico).
A 3 de setembro de 2005 um concerto pelo maestro e pianista António Victorino d’Almeida assinala a inauguração do remodelado Teatro Mascarenhas Gregório, quase um século após ter aberto pela primeira vez ao público. No entanto, a seguir a esta cerimónia, o teatro foi de novo encerrado para conclusão das obras, mantendo-se assim durante alguns anos.
Este espaço foi reaberto ao público em abril de 2012. Agora renovado, desenvolve uma atividade regular, ocorrendo nele espetáculos teatrais, musicais e muitas outras ações, voltando a ser um dos locais de referência da atividade cultural silvense.

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