Na noite de 20 de agosto de 1964, uma voz que já era a mais célebre de Portugal ecoou sobre a praia de Armação de Pêra. Amália Rodrigues, acompanhada à guitarra por Domingos Camarinha e à viola por Costa Mota, cantou fado à beira-mar, depois de um passeio de barco às furnas e antes de uma ceia de amêijoas, peixe assado e sardinha regada a música algarvia. Chamava-se, no programa oficial, “Festa da Lua”, e era um dos momentos altos do I Festival do Algarve, que teve em Silves, e no seu concelho, um dos seus palcos principais.
A “Capital Antiga” abre o pano
O Festival abriu a 12 de agosto, e abriu em Silves. O programa, publicado no Jornal do Algarve de 25 de julho de 1964, anunciava para essa noite as “Cortes Poéticas” e a representação da Lenda das Amendoeiras dentro das muralhas do castelo — o mesmo que a legenda de uma fotografia da época descreve, sem rodeios, como “o castelo da antiga capital do Algarve”. Para dar à cena um sabor de autenticidade histórica, os organizadores fizeram vir uma orquestra do Norte de África e declamadores árabes, que recitaram poesia arábico-andaluza de poetas que viveram nesta província ou lhe cantaram as belezas. O programa não nomeia os poetas evocados, mas é difícil não pensar em Ibn Ammar (1031-1086), nascido em Silves e uma das vozes maiores da poesia andaluza do século XI — mais apropriado a essa evocação, de resto, do que o seu amigo e mais tarde rival Al-Mutâmide, que passou a juventude em Silves como governador, mas cujo essencial da obra e da fama de “rei-poeta” pertence já à fase de Sevilha e ao exílio final em Marrocos.
Sobre a peça representada há uma coincidência que merece registo, embora não possa aqui ser dada como certa: A Lenda das Amendoeiras é também o título de um bailado com argumento da própria Fernanda de Castro, estreado em 1940 no Teatro da Trindade pelo Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio, com música de Jorge Croner de Vasconcelos e cenários de Maria Keil do Amaral. É muito provável — mas não está confirmado por nenhuma fonte que eu tenha localizado — que a representação em Silves fosse uma adaptação dessa mesma obra, transportada do palco lisboeta para o cenário “autêntico” de um castelo mouro.
A senhora que dirigia o espetáculo
A comissão diretiva do Festival era presidida por Fernanda de Castro (1900-1994), poetisa, romancista e viúva, desde 1956, de António Ferro — o antigo diretor do Secretariado de Propaganda Nacional que, nos anos 30 e 40, tinha feito da encenação cultural um instrumento de política de Estado, e cuja “máquina de propaganda” já promovia o Algarve muito antes de 1964. Convém não exagerar a novidade do Festival: a região tinha, desde os anos 1920 e 1930, casino, hotéis de referência na Praia da Rocha e comissões de iniciativa turística ativas. O que este I Festival trazia de facto novo era a ambição de reunir, num só programa e sob uma só direção, festejos em seis concelhos do Algarve ao longo de um mês inteiro — o que o próprio Jornal do Algarve, na primeira página, descrevia como um “ensaio, com algumas deficiências”, chamado a abrir “a série de festivais anuais” que se pretendia viesse a ter “projeção internacional”.
A Festa da Lua
Do programa completo, divulgado pelo Jornal do Algarve, sabemos que a Festa da Lua em Armação de Pêra incluía passeio de barco às furnas com música, passeio na praia ao som de guitarras e violas, banho da meia-noite e ceia com os petiscos algarvios de sempre — amêijoas, peixe assado, sardinha — acompanhada por música da terra. É desta noite, e não de outra, que vem a atuação de Amália Rodrigues já referida: o programa nomeia expressamente os seus acompanhantes, Domingos Camarinha e Costa Mota, o que confere ao episódio uma solidez documental pouco comum para este tipo de memória local.
Silves volta a entrar em cena
O concelho não ficou pelas duas datas de agosto. A 6 de setembro, já integrado no dia dedicado a Portimão, o programa previa um passeio de barco daquela vila até Silves, com café e doces servidos a bordo; a chegada estava marcada para as 15h30, com “descantes e harmonias” à espera dos visitantes, e o regresso a Portimão, ao fim da tarde, animado por música e bailado. Silves funcionava, assim, como destino de uma pequena excursão fluvial dentro do próprio Festival — uma espécie de digressão dentro da digressão, que hoje é fácil de esquecer, mas que a imprensa de 1964 registou com o mesmo detalhe minucioso dedicado às restantes localidades.
O que resta
Do I Festival do Algarve subsiste, ao que apurámos, uma placa comemorativa entretanto descerrada — não localizámos, porém, data nem local exatos desse ato — e um punhado de fotografias dispersas por arquivos familiares, algumas delas de proveniência e direitos de autor por esclarecer. Fica também, sessenta e dois anos depois, esta pergunta em aberto para os leitores da Terra Ruiva: haverá, nas gavetas do concelho, quem se lembre desse verão em que Silves recebeu poetas árabes dentro do seu castelo e Amália cantou à meia-noite, numa praia de Armação de Pêra iluminada pela lua?


