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História & PatrimónioSociedade

154º Aniversário do nascimento do Dr. Francisco Vieira

Vera Gonçalves
Última Atualização: 2017/Out/Sex
Vera Gonçalves
9 anos atrás
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Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de outubro, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “154º Aniversário do nascimento do Dr. Francisco Vieira”.
A exposição é acompanhada de imagens e documentos.
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição. A versão integral está disponível aqui:Expo_DM_outubro_2017

154º Aniversário do nascimento do Dr. Francisco Vieira

Distinto clinico e correligionário valioso do Partido Republicano Português, o Dr. Francisco Vieira foi uma ilustre figura da comunidade silvense bem como um dos grandes vultos que, durante mais de meio século, prestou à cidade relevantes serviços contribuindo para o seu desenvolvimento.

Nasceu no dia 15 de Outubro de 1863, natural dos Canhas, na Ilha da Madeira, e faleceu a 17 de Março de 1947, aos 84 anos de idade, em Silves.
Estudou em Coimbra, onde se formou em Medicina e Filosofia, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, concluindo a sua formatura em 1891.
Durante a sua passagem por Coimbra foi Presidente da Academia Republicana local e conviveu com as mais ilustres figuras da intelectualidade conimbricense.

O jovem Francisco Vieira

Interessou-se pela política, em particular pelos ideais republicanos, demonstrando grande esperança no novo regime, defendendo a sua implantação e fazendo propaganda a favor daquela causa, presidindo a algumas assembleias magnas realizadas pelos estudantes.
A poucos dias de concluir a sua formatura, a 18 de junho de 1891, concorreu a “um dos lugares de facultativo municipal da cidade de Silves”, lugar para o qual foi admitido e tomou posse “para o cargo de facultativo interino do Primeiro Partido de Medicina e Cirurgia deste Concelho”. Decorridos 21 dias assumiu “o cargo de facultativo do Primeiro Partido de Medicina e Cirurgia de Silves”, substituindo o velho médico Anselmo da Cruz Nogueira, apelidado de o “pai dos pobres” da cidade.

Enquanto médico municipal exerceu as suas funções com a maior competência, generosidade e desinteresse material, praticando imensos atos de benemerência para com os seus doentes. Aquando da pneumónica, ou gripe espanhola, que dizimou dezenas de milhares de pessoas, em todo o mundo, nos anos de 1918 e 1919, prestou um valioso serviço à cidade, acudindo a doentes, notificando todos os casos e procedendo ao isolamento dos enfermos.
Foi subdelegado de saúde do concelho de Silves, despendendo várias diligências em assuntos de fiscalização e inspeção de tudo o que respeitava à saúde e higiene pública e venda pública de consumíveis.
Casou com D. Catarina Amália Mascarenhas Neto Vieira, pertencente a uma das famílias mais importantes da região, de quem teve uma única filha, D. Adelaide Mascarenhas Vieira e Silva.

Homem de espírito bondoso, no período da I Grande Guerra, devido à escassez e carestia de bens essenciais à subsistência da população, por forma a controlar esta situação fez parte da Comissão Organizadora de uma Cooperativa de Consumo em Silves, que permitia o acesso de todas as classes sociais, e de uma Comissão que visava a organização de uma “Sopa económica para pobres, visto a imensa miséria que lavra em Silves”.

Republicano e democrata, o Dr. Francisco Vieira desempenhou as altas funções de Governador Civil do Distrito de Faro, entre 10 de maio de 1917 e 13 de dezembro de 1917.
Dotado de belas qualidades de trabalho e de um fino tato político, o Dr. Francisco Vieira, enquanto correligionário do partido republicano, deslocava-se frequentemente a Lisboa para tratar de assuntos de interesse local, entre eles empregou toda a sua influência e empenho no sentido de conseguir que a Escola Comercial e Industrial fosse uma realidade em Silves, conquistando grande estima em toda a cidade.
Escola de que foi um dos primeiros professores, cujos vencimentos eram distribuídos pelos alunos de parcos rendimentos e, no silêncio da sua modéstia, custeou alguns cursos superiores a estudantes de fracos recursos. Como o edifício onde a escola funcionava não possuía espaço para as oficinas cedeu um armazém na Rua Latino Coelho e Rua Cruz de Portugal para que as aulas pudessem aí ser ministradas.
Foi sócio da Associação de Socorros Mútuos João de Deus e, em 1916, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, tendo sido também um dos fundadores da Caixa de Crédito Agrícola em Silves.

Durante longos anos, exerceu o cargo de Diretor do Hospital e do Asilo para a Infância Desvalida do Algarve, destinado ao internato (alimentação, vestuário e assistência médica) e educação de crianças do sexo masculino de toda a província do Algarve, com idades compreendidas entre os 8 e os 18 anos.

Por forma a fazer face às dificuldades que a Câmara Municipal de Silves atravessava e de modo a que se pudesse iniciar a construção do Quartel da Guarda Nacional Republicana na cidade, solicitou um empréstimo a várias individualidades que representavam as forças vivas de Silves. A 8 de junho de 1923 foi realizada a escritura de empréstimo entre a Câmara de Silves e os subscritores, no valor total de 60.500$00, tendo o Dr. Francisco Vieira concorrido com a quantia de 2.000$00, ao juro de 6%, ao ano.

A 4 de abril de 1919 é fundado o Silves Futebol Clube, melhoramento destinado à mocidade silvense, contudo necessitava de uma propriedade para a edificação do seu campo para jogos. O distinto e valoroso Dr. Francisco Vieira cedeu o terreno onde hoje se situa o estádio, passando o Silves a disputar os seus jogos neste terreno em 1922 e o primeiro encontro que ali se realizou terá sido um Silves – Glória ou Morte Portimonense (com a vitória dos locais por 2-1), em 22 de Agosto do referido ano, em homenagem a Gago Coutinho e Sacadura Cabral.
Inicialmente, em 1923, o terreno foi alugado ao clube, mediante contrapartidas que tinham em conta o auxílio a instituições da cidade.
Em 1940, o escultor João José Gomes ofereceu ao clube um busto em bronze do ilustre médico e benemérito do clube, encontrando-se colocado no portão de entrada do estádio.
Nunca integrou os Corpos Sociais do Silves Futebol Clube, mas tendo demonstrado sempre grande carinho por aquele clube, na Assembleia Geral de 23 de março de 1943, foi eleito, tal como a sua esposa, sócios honorários e foi igualmente decidido que a partir daquela data o recinto passaria a denominar-se Estádio Dr. Francisco Vieira.
Em 1945, já nos seus últimos anos de vida, resolveu doar o Estádio ao Silves Futebol Clube, tendo a respetiva escritura sido concretizada a 18 de janeiro de 1946.

Em 1925 foi Presidente da comissão política municipal do Partido Republicano Português e na reunião da Câmara Municipal de Silves, realizada no dia 16 de abril de 1925, em forma de justa homenagem a este vulto proeminente da cidade, foi deliberado mediante proposta do senhor presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal, Sebastião Roldam Ramalho Ortigão, “que a uma das arterias desta cidade se desse o nome do distinto Medico Municipal deste concelho o prestimôso cidadão, Doutor Francisco Vieira”. Na placa de identificação toponímica encontra-se a seguinte legenda “Rua Dr. Francisco Vieira – Médico e Cidadão Ilustre”.
A 8 de março de 1930 fundou a Cantina Escolar, para os alunos pobres das escolas oficiais da cidade, à qual foi dado o nome da sua única filha, Cantina Escolar D. Adelaide Mascarenhas Vieira da Silva, e no ano de 1931 fundou o Asilo para Inválidos de Silves, construído pela Misericórdia e Hospital de Silves da Santa Casa da Misericórdia, destinado à velhice desamparada.

Francisco Vieira

Em outubro de 1945 manifestou o seu apoio à reunião do Movimento de Unidade Democrática que se realizou em Silves, de oposição ao regime salazarista, tendo este movimento recebido cerca de um milhar de adesões neste concelho em poucos dias.

O Dr. Francisco Vieira faleceu a 17de março de 1947, em Silves, aos 84 anos. Médico ilustre, reconhecido muito para lá das fronteiras do Algarve e que contribuiu bastante para o desenvolvimento da cidade de Silves, a notícia da sua morte espalhou-se rapidamente e foi noticiada em diversos jornais.
Ao seu funeral, realizado no dia 19 de março, assistiram milhares de pessoas, vindas de todo o Algarve e de fora da região.
No seu testamento deixou valiosas propriedades à Misericórdia de Silves para auxiliar a manutenção do Asilo e a Cantina Escolar.
Todos estes factos contribuíram para que obtivesse uma grande estima em toda a cidade tendo, ao longo da sua vida, sido várias vezes homenageado pelos silvenses.
Silves e os silvenses devem orgulhar-se deste ilustre cidadão que durante mais de meio século tanto fez para a valorização da cidade e que devido ao seu caracter generoso e de espirito benemérito a todos ajudava.

Bibliografia
RIBEIRO, Alice da Silva, Individualidades Notáveis de Silves e de seu Concelho, Câmara Municipal de Silves, Silves, 2004
http://arepublicano.blogspot.pt/2012/11/dr-francisco-vieira.html

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PorVera Gonçalves
Natural da Sé de Faro, oriunda de S. Brás de Alportel, nascida em 1980. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas variante de Estudos Portugueses e Pós-graduação em Ciências Documentais – Ramo Arquivo pela Universidade do Algarve. Funcionária da Câmara Municipal de Silves, desde 2005, como técnica superior de arquivo.
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