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Reading: Entrevista a Fábio Antão, presidente da Junta de Freguesia do Algoz – “Tenho uma visão para o Algoz”
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Entrevista a Fábio Antão, presidente da Junta de Freguesia do Algoz – “Tenho uma visão para o Algoz”

Paula Bravo
Última Atualização: 2026/Jun/Sex
Paula Bravo
3 horas atrás
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Fábio Antão é o atual presidente da Junta de Freguesia do Algoz. Eleito nas últimas eleições autárquicas, pela Coligação Juntos Acreditamos (PSD, CDS, IL) é também o primeiro presidente após a desagregação da União de Freguesias de Algoz e Tunes.

Por opção, voltou à terra da família e dos amigos e, enquanto presidente da Junta, tem um objetivo: fazer com que “os algozenses sintam orgulho em dizer, eu sou do Algoz!”.

Pensa que a política pode ser utilizada para “cuidar de uma pequena parte do mundo”.

Nos próximos anos essa é a tarefa que atribuiu a si próprio.

 

 

Para quem não conhece o presidente da Junta do Algoz, quem é o Fábio Antão?

Sou uma pessoa simples, formado em Arquitetura, com gosto pelas artes, essa é a minha vocação. Vivi até aos dois anos nas Assumadas, em Tunes, depois no Algoz, e aqui estive até ir para a faculdade. Mas voltei porque gosto das minhas origens. Parte da minha família também é daqui, o meu avô, os meus grandes amigos, os “inabaláveis”, são quase todos do Algoz. È a terra da família, a terra das amizades e isso é o que me motiva a estar aqui.

Gosto muito de música, sou um apaixonado por antiguidades, por colecionismo de coisas antigas que contam histórias, por máquinas fotográficas antigas e faço fotografia analógica, gosto muito, sobretudo do processo, gosto de aprender através da expressão. Exprimir não vem só de dentro, também se pensa e quando se confrontam emoções com a razão, torna-se emocionante. Eu gosto de emoções, não gosto de apatias.

Foi eleito há poucos meses presidente da Junta, mas a política, para si, não começou agora…

Eu nasço na política, literalmente. E falo já da referência que é o meu pai (Sérgio Antão) para as pessoas perceberem um pouco…

A sua nomeação como candidato foi muito comentada, falou-se numa dinastia, o filho a suceder ao pai… 

Percebo. Eu próprio tive dúvidas porque nunca procurei um cargo político ativamente. Não tenho vaidade com a política, como alguns têm. A questão é: por que é que eu gosto da política? O meu pai, antes de ser político, autarca, trabalhava como rececionista noturno e isso fez dele um pai muito presente na minha vida, até aos meus 10 anos. Eu não ia para o ATL, era a companhia do meu pai. E ele sempre gostou de falar e estar com as pessoas e, desde muito cedo, também eu me confrontei com os problemas e as carências das pessoas e percebi que isso tinha importância. E cresci com o sentimento que isso é bonito e foi ficando, esse sentido crítico sobre o mundo.

O mundo precisa de alguém que cuide dele. Na verdade precisa de várias pessoas. E estar na política é ter a visão de que podemos cuidar de uma pequena parte do mundo. E isso é que me desafia: como é que eu consigo, com pouco, cuidar mais?

Entretanto, fui fazendo o meu percurso e fui militante da JSD (Juventude Social-Democrata), até que houve um momento em que percebi que tinha demasiada independência e liberdade, demasiadas posições próprias. Não me enquadrava, não sentia que a militância fosse importante para mim. A participação era importante mas passei grande parte do tempo desvinculado, da mesma maneira que sou adepto de futebol mas não sou sócio de nenhum clube.

E entrou na vida autárquica quando?

Fui eleito desta Assembleia de Freguesia dos 18 aos 22 anos, e dos 22 até aos 34, se bem que há um mandato que foi por substituição, não foi contínuo, fui membro da Assembleia Municipal de Silves. Mesmo no tempo em que estava na faculdade, em Évora, muitos foram os dias em que vinha no autocarro para participar nas assembleias. E apesar de estar longe nunca estive distante.

Até que chegou o convite para se candidatar a presidente da Junta.

O convite foi-me endereçado pelo João Garcia, presidente da Concelhia de Silves do PSD. Surpreendeu-me, não estava à espera, mas senti uma grande responsabilidade.  Isso também porque sabia o tamanho do sacrifício, quando estamos  comprometidos com a função temos que abdicar de muitos aspetos pessoais. Embora eu seja  de opinião que não se deve abdicar totalmente, temos de saber equilibrar. Sempre que posso, continuo a colocar energia nos aspetos que gosto, na pessoa que sou. Porque se não formos um indivíduo com personalidade, não conseguimos entregar nada aos outros.

Mas o convite gerou-me um debate prolongado, acho que fui o último candidato a confirmar a sua aceitação. Aceitei também porque gostava das pessoas que se apresentavam, nas quais acredito, e porque tenho uma visão para o Algoz. Também seria hipócrita da minha parte, que sempre fui um grande crítico dos diferentes executivos municipais e inclusive da própria junta de freguesia, dizer que não, quando tinha a possibilidade de encabeçar um projeto. Sinto que fui honesto comigo próprio.

Não sente que é mais difícil por ser filho de um presidente que ocupou este cargo durante tantos anos?

Seis mandatos, 24 anos. Foi presidente 12 anos da Freguesia do Algoz, mais 12 anos presidente da União de Freguesias de Algoz e Tunes e é agora presidente da Junta de Freguesia de Pêra. É difícil e não é só pelo óbvio. Eu sabia o trabalho que ele foi fazendo e o legado que deixou e inevitavelmente a pessoa quer conseguir afirmar-se pelo trabalho que faz. E não por comparação. É inevitável que haja comparações, no Algoz e nas outras freguesias.

Com o tempo, se o trabalho aparecer, isso vai-se diluindo…

Não procuro trazer o passado para o presente. Quem já não está em funções já teve a sua responsabilidade, as coisas foram fiscalizadas e acompanhadas, com as assembleias, no tempo devido. Às vezes prendemo-nos a argumentos do passado para justificar o presente e acho que o presente se constrói de uma forma mais presente.

A história ensina. E não a devemos ignorar.

Não devemos ignorar, devemos tirar ilações.

É agora presidente a tempo inteiro?

Sim. Isso foi um motivo que me fez debater, porque dividir tempos entre duas coisas muito diferentes, a minha profissão e este cargo, não parecia uma receita para fazer alguma coisa bem. Não quer dizer que não volte a ter outro regime. O Executivo é uma equipa e tem pessoas competentes, poderia dividir a meios tempos. Tenho tido um acompanhamento muito próximo e regular da Sónia Pais que é uma pessoa muito competente,  com muita experiência autárquica, capacidade de trabalho, com visão para muitos aspetos e uma capacidade social muito invejável. Isso é um aspeto que no Algoz importa, arrisco-me a dizer que é no Algoz e Tunes, porque não temos uma IPSS (Instituição Pública de Solidariedade Social) .

Nas outras freguesias do concelho existe uma IPSS, que é um instrumento de apoio social, mas no Algoz não há. Nesse aspeto a Junta de Freguesia tem uma procura acrescida pelo vazio que existe. Assim que se chega cá percebe-se logo que há uma procura pelo apoio, pelo amparo, para a resposta social. A procura é muito maior aqui.

Iniciou o mandato, fazendo a transição da União de Freguesias para novamente a freguesia do Algoz. Como foi esse período, já tem a casa arrumada?

Eu fiz parte da Comissão de Extinção da Freguesia e isso ajudou-me a integrar no processo. Foi um processo, não digo difícil, mas devia ser mais atempado, para dar tempo para ver como se trata dos registos das viaturas, registos prediais… porque há uma nova entidade que se cria após a desagregação, a Junta de Freguesia do Algoz é considerada uma nova entidade, há mudanças inclusive no número fiscal. Foi difícil sobretudo nos dois primeiros meses porque não havia enquadramento claro, houve coisas que foram descobertas à medida que o tempo decorria. A comunicação institucional teve de mudar, o site ficou invisível, temos um novo em construção.

Vale a pena pensar um pouco nisto, no custo que a freguesia teve com a desagregação.

A desagregação impôs novos custos, imprevistos, que as outras freguesias não tiveram. Este é um custo novo que é imputado a uma freguesia que não é compensada por nenhum apoio e isso é uma injustiça. Temos que recorrer ao fundo da freguesia para colmatar coisas que já estavam definidas na União. Este é um dos prejuízos que a população teve.

Considerava preferível manter a União de Freguesias?

Não digo isso, mas para se desagregar tem que se fazer com qualidade e passa por isso, por se entregar um valor referente à transição. Por exemplo, as simulações dos seguros são entregues com nenhum ano de histórico, porque a Junta é uma nova entidade, isto é a resposta das seguradoras… quando na realidade a viatura existe, tem um histórico, esteve assegurada, mas como a entidade é nova, a apólice é nova e o valor acresce. Há muitas questões destas. Vou mais longe: há prova do custo acrescido que houve, portanto o Estado devia restituir parte dessa verba… Não se pode fazer um processo tão transformador sem se pensar nas variáveis. Em termos de decisão, as assembleias decidiram, é a voz da população. Inquestionável.

Neste mandato que prioridades tem definidas?

São várias. Começo pela operacionalidade. Já fizemos algumas aquisições importantes, um pulverizador, uma roçadora, um soprador, uma moto-serra queremos dotar a freguesia de mais meios. Já concretizamos a modernização do fecho do cemitério municipal, temos agora um automatismo que promove a abertura e o encerramento de forma automática. Temos alguns projetos que queremos implementar, a Casa das Artes é importante. Queremos reativar o espaço para atividades artísticas, estamos a criar um regulamento que defina como deve ser usado o espaço, as condições de cedência, qual o enquadramento, para que tipo de práticas. Para conseguirmos ter atividades sazonais,  esporádicas,  diárias e haver espaço para projetos com mais continuidade.

Será aberto às associações?

Poderia ser, mas olhando ao histórico da freguesia, não temos uma associação que promova expressão artística. Não quer dizer que com o espaço dotado não passe a acontecer, porque às vezes as coisas surgem quando as dinâmicas estão criadas…também temos essa responsabilidade, criar condições para que as associações possam ter os seus próprios projetos. As associações têm sempre prioridade, para a Junta de Freguesia. Seja na cedência de espaços, nas isenções de licenças, as associações são sempre os maiores parceiros das freguesias.

Estive no Algoz na altura em que foi inaugurada a Casa das Artes depois tem estado todos estes anos fechada…

É preciso ver que falamos de uma área com 12,500m2, o recinto todo. Era o espaço onde funcionava a Escola C+S , ocupação que terminou quando foi criada a Escola EB 2,3. Com o vandalismo e o tempo o espaço degradou-se muito. E volta-se à questão do orçamento, nenhuma freguesia deste concelho teria um orçamento capaz de dotar aquele espaço de todas potencialidades que oferece. Podia ser um espaço para as associações, para as crianças ou para a terceira idade, se houvesse uma IPSS que quisesse potenciar isso, ou para equipamentos desportivos. Outro aspeto importante seria a requalificação daquela zona ribeirinha, para a zona ter salubridade. Era preciso haver uma visão global de conjunto, por parte de diferentes entidades, porque a freguesia sozinha não tem a capacidade de tornar aquele espaço no que ele pode ser. O que ele pode ser é a perspetiva idílica.

Mas o que acontece é que foram sendo cedidos alguns espaços a associações que têm cuidado do espaço e gostávamos de ceder a outras associações, a outras dinâmicas que possam surgir. Houve um grande esforço de se procurar reabilitar os edifícios históricos, que são esse conjunto que está ali na frente, mas não estão a ser aproveitados. Nós temos sido cautelosos porque não queremos hipotecar a possibilidade de serem usados para o melhor possível. Havemos de chegar lá, haverá com certeza um momento em que se conseguirá dignificar aquele espaço. Temos de pensar no plano teórico e no plano prático, que o espaço também tem as suas necessidades. É preciso dotá-lo de vários equipamentos, por exemplo de um ponto fixo de internet. Temos falado com pessoas que praticam artes e ofícios. Para perceber que tipo de dinâmica gostavam de implementar, se tivessem condições para isso. Tem gerado muito diálogo, ideias novas, é um projeto que esperamos alcançar em breve. Mas com qualidade.

No programa eleitoral, destaca a  modernização do Mercado do Algoz, que já se tornou uma referência na região…

É um chavão, de há uns 30 anos atrás, é aquela frase que está nos programas de todos os candidatos à Junta do Algoz e à Câmara de Silves.

Ou seja, toda a gente olha para o mercado do Algoz, e reconhece as suas potencialidades, mas as necessidades podem ser vistas de forma diferente.

A começar pelas necessidades sentidas pelos próprios comerciantes e a modernização começará por essas: a dotação de pontos de água, a infraestruturação com casas de banho adjacentes às áreas de restauração, a disponibilização de pontos fixos de eletricidade. E depois logo se parte para a visão de conjunto. O Mercado do Algoz é  um dos mercados mais fortes da zona sul do país, traz pessoas de todo o Algarve, do Baixo Alentejo, promove a economia local, o encontro, é inquestionavelmente um património imaterial que se tem na freguesia. E também há esta questão que é preciso discutir, amadurecer, porque se calhar é precisamente por o mercado ser num terrado (piso em terra), de ser “um mercado à antiga”, como os feirantes dizem, que  atrai muitas pessoas. Porque eles constatam que em muitos lugares onde foram feitos parques de feiras modernos, com lugares definidos, com uma série de infraestruturas, esses mercados perderam força, perderam feirantes e utilizadores, dão Messines e Portimão como exemplo.

O primeiro gesto de modernização que fizemos, foi muito simples, foi a colocação de casas de banho temporárias, três, junto à restauração. Os pontos que eram disponibilizados, e continuam a ser, são as instalações sanitárias no edifício da Junta de Freguesia, acaba por ficar longe do mercado e percebia-se que isso demovia algumas pessoas a voltarem ao mercado.

Um momento muito importante que está em consolidação e vamos apreciar na Assembleia de Freguesia, são o contrato interadministrativo de delegação de competências e auto de transferência de delegação de competências do Município de Silves. Foi um processo participado, com diálogo, é um momento muito importante porque é aquele que define, em grande medida, as condições em que uma freguesia vai exercer as suas competências ao longo de quatro anos. Neste mandato há uma melhoria assinalável,  há um aumento no valor a ser transferido para as juntas. É preciso ver que também os nossos encargos aumentaram, mas há novos critérios que foram consensualizados. Como por exemplo, em relação aos caminhos rurais, veio estabelecer melhor as regras e as competências o que é uma coisa positiva, porque nos ajudam, às juntas e à Câmara, a trabalhar melhor.

Aqui no edifício da Junta de Freguesia há espaços que gostávamos de melhorar, o salão precisa de uma intervenção, de substituição de ares condicionados, pintura, colocar as instalações sanitárias acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida… Temos falado com o sector privado, o Algoz tem várias empresas com resiliência e capital instaladas. Criam trabalho, geram economia mas também deixam pegada, pressão nas infraestruturas, vê-se o estado de algumas vias, fruto das intempéries mas também do uso intenso, porque são camiões com muita tonelagem, portanto há aqui ressonâncias que também impactam a comunidade e temos procurado falar com estes agentes, procurar atrai-los para verem de que maneira podem contribuir para a comunidade.

O Algoz tem mudado muito com a instalação dessas empresas.

Tem e temos que analisar quais são as oportunidades que se geram a partir daí. Há empresas com uma atitude positiva, com vontade de se integrar, é este tipo de empresas que faz falta, recentemente abriram algumas com necessidade de trabalho especializado e com oportunidades para emprego jovem. Nesta diversificação é que se vai criando a resiliência do tecido, isso é bom.

Para deixar clara uma área onde às vezes há muita confusão, quais são as atuais competências da Junta do Algoz?

Temos as competências definidas e as adquiridas, que são as transferidas pela Câmara de Silves, que são a limpeza urbana, que inclui a varredura manual do espaço público, a recolha de monos e verdes. Há uma área que é pouco falada, que é a recolha de matérias perigosas. Valia a pena o debate municipal começar a centrar-se nestes resíduos. E há um problema no Algoz que muitos ainda não entenderam.

Fala-se muito se fala na sazonalidade em Armação de Pêra, e é um facto, mas nós lidamos com o problema do lixo gerado pela atividade empresarial, logística e isso é uma pressão acrescida.

A maioria destas empresas tem recolhas contratadas, juntam os resíduos em espaço próprio, mas outras não, essas acabam por pressionar mais o sistema.

E que outras competências têm?

Portanto, temos a limpeza urbana, a gestão e abertura do Mercado Municipal e Cemitério Municipal, a limpeza, abertura e fecho e pequenas manutenções destes equipamentos, as grandes obras ficam a cargo do Município. Temos os caminhos rurais que são competência próprias da Junta de Freguesia, mas o Município de Silves também contribui, há um acordo.

E quais os meios financeiros e humanos?

O orçamento da Junta é de cerca de 420 mil euros, para 2026. Isto resulta do FEF, que são as transferências do Estado, das transferências feitas pelo Município e das receitas próprias, das taxas e licenças e das concessões que atribuímos. Neste mandato, o Município de Silves passou de uma transferência de cerca de 140 mil, para cerca de 170 mil euros O FEF são cerca de 100 mil euros e o resto são as receitas próprias.

No momento temos nove funcionários, seis operacionais e três assistentes técnicos. Foi aprovado em Assembleia de Freguesia, um reforço para um cargo a ocupar na categoria de assistente operacional, em breve iremos iniciar o concurso.

Na minha ótica, mas também compreendendo todas as questões adjacentes, para executar plenamente as funções precisaríamos de uns 14 recursos humanos. Mas não é só ter mais recursos humanos, é ter meios com que esses recursos possam trabalhar, seja as viaturas, sejam outras ferramentas.

Quais são as maiores dificuldades que enfrenta?

Por ordem: orçamento, dinheiro, receita. O fundamental era haver mais dinheiro, isso é para qualquer organismo público. Podíamos fazer um trabalho mais qualificado, resolver os problemas mais rapidamente.

A ANAFRE (Associação Nacional de Freguesias) tem defendido muito a ideia da transferência de mais competências para as juntas de freguesia. Concorda?

Se vierem acompanhadas de meios, defendo a ideia. Tudo tem um custo. Se conseguirmos quantificar realmente quanto custa uma competência e se essa verba for transferida, com folga para se lidar com imprevistos, aí valeria a pena. Porque as juntas de freguesia são realmente instrumentos próximos das populações e dos problemas. Agora não se podem atribuir competências desacompanhadas de verbas, aí estamos a desqualificar o serviço.

Um assunto que está na ordem do dia, o processo que o Sport Algoz e Benfica está a atravessar, em risco de encerrar. Como é que a Junta vê esta situação?

Temos acompanhado e reunido com a Direção e com a presidente da Direção, Ana Paula Carmo,  e vemos a situação com preocupação. Esta é a associação mais antiga da freguesia, com 87 anos de história, 12ª filial do Benfica. Quase todos os algozenses têm uma história relacionada com este clube, uns praticaram desporto, outros estiveram em festas e atividades sociais, é uma associação transversal a toda a comunidade. Ocupa um espaço emblemático e é esse sentimento de perda que está presente.

A Junta não pode substituir-se aos corpos sociais da associação, não temos uma solução que permita preservar o clube na sua plenitude, no lugar onde se encontra.

Há algo que a Junta possa fazer?

Monetariamente não temos capacidade, são 125 mil euros, é o que a Direção apela à comunidade. O que se coloca, na minha opinião, é em termos de espaços. Nós temos espaços cedidos ao clube para duas atividades desportivas, o boxe inglês que é praticado no salão da Junta de Freguesia, três vezes por semana, e o grupo de petanca que está nas instalações da antiga Escola C+S do Algoz. Não só tem uma casa anexa onde guardam o material, como têm um campo construído e é lá que praticam. Mas o desafio financeiro terá de ser resolvido pelos sócios e pelo Sport Lisboa Benfica. É uma casa dos benfiquistas, não é só dos algozenses, e nesse sentido também acho imperativo saber qual a tomada de posição do clube em relação ao desafio que a filial atravessa.

O que suceder com o Sport Algoz e Benfica será sempre uma soma do caminho das diferentes Direções. Há uma responsabilização coletiva, passou muito tempo e houve muitos protagonistas ao longo destes anos de história, o resultado é uma soma de partes. A grande questão que se coloca é, qual será o desfecho? Não sei. Sei naquilo que podemos ajudar e quais os limites à nossa ajuda. Foi-nos feita uma solicitação, que está em análise, para cedermos um espaço, de forma temporária, para parte do acervo e espólio do clube. Haverá a possibilidade de encontramos um espaço que terá de ser avaliado pelo Executivo, pela Assembleia de Freguesia e pela própria Direção para perceberem se vai ao encontro das suas necessidades. Se cedermos esse espaço, tem de haver consciência que ele terá as suas condições e debilidades, se for aceite será da responsabilidade da Direção, nós não temos condições para promover melhorias no tempo que se impõe.

Olhando para a freguesia de uma forma ambiciosa, como gostava de ver o futuro da freguesia nos próximos anos?

Prosperidade. Espaços públicos classificados, espaços verdes, de lazer, ajardinados, onde as pessoas reconquistem o orgulho de serem algozenses. Há pessoas que ainda o têm, como eu. Mas todas essas novas pessoas que aqui estão, gostava que tivessem orgulho em dizer, eu sou do Algoz.

Ouvi muito tempo, “o Algoz não tem nada”. É uma frase crónica e a questão é que o Algoz tem muita coisa.

Não tem tudo e estamos longe de chegar a esse ponto, mas o Algoz ainda tem alguma coisa. De uma forma ambiciosa gostava que as pessoas tivessem essa postura. Gostava que houvesse mais cobertura social, que houvesse menos dificuldades sociais, seja nos acessos seja nos consumos, gostava que fosse uma comunidade mais segura e que, percebendo as dificuldades porque passam quer os bombeiros, quer a GNR, fossem restabelecidos os postos que já tiveram, que as pessoas sentissem que esses instrumentos estavam próximos e que  se sentissem seguras por isso, se sentissem protegidas. Gostava que as pessoas tivessem mais participação cívica, nos movimentos associativos, na vida política, autárquica, gostava que as assembleias fossem mais participadas, que as pessoas contribuíssem com as suas ideias, trouxessem soluções e não só os problemas.

Gostava que o Algoz fosse um lugar de espontaneidades. Já houve um período em que as pessoas se organizavam espontaneamente e isso perdeu-se muito, as pessoas ficam à espera que a coisa seja feita. Há muitas pessoas com capacidade de fazer coisas e gostava que isso acontecesse. Gostava que o Algoz fosse um lugar de juventude, fosse vivido de forma jovem. Acho que a empreitada do Município de Silves, da construção do polidesportivo vai no sentido certo, nesse futuro que ambiciono e nesse sentido posso já adiantar que o Município está de parabéns. E é isso: que a freguesia do Algoz fosse um lugar de felicidade e de plenitude.

Uma última pergunta, que tenho vindo a fazer, no final do seu mandato o que gostaria de ouvir dizer e como gostaria de se sentir? 

Da minha equipa, das pessoas que confiaram em mim e que são muitas, da Sónia, do Ruben, do Orlando, da Rita, do Sérgio, do Rui, da Ângela, gostava de ouvir, “valeu a pena”. Valeu a pena o esforço que fizeram, a entrega. Da população não espero ouvir nada, basta-me sentir que estão mais felizes.

Uma coisa que gostava de sentir, era que o espaço de debate das assembleias municipais fosse diferente, falta uma construção participada. Eu percebo o questionamento, a confrontação que o espaço de uma assembleia é e deve ser, deve-se confrontar ideias, realidades, problemas, sugestões, tudo certo, mas gostava que fosse como no Algoz.

Eu considero que no Algoz não existe oposição, considero que há um grupo de cidadãos, muito válidos, com ideias. Diria que temos a assembleia de freguesia mais positiva no seu conjunto, é uma assembleia de pessoas que gostam do Algoz, que conseguem conversar e dialogar, todos, os eleitos da CDU, do PS, do Chega, do PSD, da Iniciativa Liberal, há cinco forças políticas representadas naquele espaço mas existe elevação, educação, respeito mútuo, amizade e uma construção. As pessoas são positivas, são proativas, entregam ideias, sugestões e sobretudo dizem que estão presentes, que ajudam, dizem vamos fazer. Conseguimos falar de uma forma plural e isso é uma coisa que ajuda e motiva a fazermos melhor e a fazer por todos.

 

 

 

 

 

 

 

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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