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História & PatrimónioSociedade

A Interioridade Seca

Rocha de Sousa
Última Atualização: 2015/Dez/Qui
Rocha de Sousa
11 anos atrás
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Dia 3 de Setembro, Silves deveria ter saudado a história de si mesma — não tanto na severidade curta das distinções desportivas, sem escrutínio plural capaz de dar a ver a qualidade das referências formadoras de cada quadro civilizacional. Este exiguidade recorrente parece duplicar o lado massificante da globalização na vida comunitária.

Em certo sentido, já quase ninguém sabe se Deus existe e de que morte padece o homem, crente do excesso e do nada, cada vez mais espelho de si mesmo. As modernas tecnologias têm sobretudo imprimido velocidade a tudo em volta, atravessando os olhares e cegando as multidões das grandes metrópoles. Jovens magros, usando óculos redondos para a miopia, penduram telemóveis dos ouvidos. A Sul e a Ocidente as guerras crescem, parecem planetárias, traçam o retrato do horror, produzindo genocídios, abrindo covas comuns, empurrando multidões para longínquos campos de concentração.

No Médio Oriente apagaram-se em sangue as primaveras. Muçulmanos acusados no Egipto. A Crimeia foi entretanto anexada pela Rússia e a guerra abala a Ucrânia. O auto-proclamado Estado Islâmico, combate e degola milhares de muçulmanos e de cristãos. Ou corpos de outras raivas, devastando a Síria, provocando também trágicas fugas do território, migrações sem conta. O Mediterrâneo tem servido de túmulo a milhares de pessoas que o atravessam em embarcações superlotadas, pagas a preço de ouro aos grupos de traficantes. E a Alemanha tem sido um destino obsessivo dessa gente, talvez por um imaginário carregado de utopias em vez de virgens, um odor de riqueza, boa vida, casa e direitos. Longe, imperativos, os talibãs ajudam rancorosamente tais êxodos, proibindo olhar a imagem, escutar a música, ler poesia, cantar música laica, que as mulheres abram um pouco a rede da burca.

Esta terrível sinopse da nossa preocupante contemporaneidade lembra-nos um tempo ainda próximo — anos 60 do século XX, na Europa sobretudo — tocando a nostalgia das artes, dos criadores, gente como Sartre, Camus, Huxley, Bergman, Tarkovsky, Antonioni, entre muitos outros, os poetas, os músicos, um solene respeito pelo extenso património gerado nessa época e noutras mais distantes. E logo mais guerras, descolonizações, tudo começando a desfazer-se em vagas silhuetas, obras descartáveis, as tais tecnologias que mudavam muita coisa mas resvalavam por sulcos que abriam fortes negações entre os valores e o tempo certo de pensar as coisas.
Era neste sentido, enquanto revia o rosto de Maria (em O Estrangeiro), que fui ouvindo os meus passos nas ruas desertas de Silves e esperando pelo quadro das notícias sobre o programa comemorativo do dia desta cidade, 3 de Setembro, memórias que pensei por mim e fui sabendo o que outros pensavam do que já conheciam.

O desporto faz parte de qualquer civilização, da antiguidade aos nossos dias. Certas relações que nos ligam umbilicalmente à terra onde nascemos, ou que amamos de forma particular, envolvem a lembrança profunda de quem somos e o sentimento de pluralidade genealógica de vidas, de famílias, de partidas e chegadas. Silves tem um peso histórico desde as idades da sua implantação neolítica, da sua geografia e fecundidades, entre os séculos dos outros à sua conquista pelo portugueses e Cruzados. A par de Sevilha e dos poetas que aí viveram. Na linha da civilização árabe ao tempo, modos de ser, de desenvolver, de criar, de inventar o futuro. As artes e os Jogos. Mais tarde Castela e os portugueses, 1640, a liberdade para as grandes buscas entre continentes, padrões e fortalezas longe, India, África, América, idas e vindas, novos achamentos, os que ficavam amando e difundido novos modos de ser.

E à medida que o tempo se desvanecia, as populações, acossadas por outros desastres principais, entrou em desvanecimento, trabalhando a terra próximo e começando a aprender o ritmo ou a direcção dos actos emigratório pelos caminhos entre bosques, montanhas e veredas. A nossa história é bem clara quanto a isso. Como nós, muitos povos, no decurso dos séculos, produziram diásporas imensas: Portugal (Silves, desde há muito) são reais para cima de oito séculos, aqui e por mil paragens do mundo. Lembro a gesta da cortiça, das hortas, dos pomares, dos passeios das famílias, num certo dia de Maio, em busca da espiga. Lembro-me e sei que os valores do concelho de Silves integram toda essa história, do país, da emigrações, da terras repovoadas, do antigo cinema onde se via Cocteau, as grandes companhias de teatro, além das Sociedades Recreativas.

Entre jornais e cidadãos mascarados, de súbito capazes de citarem um belo soneto de lírica camoniana travando-se de mãos e olhos na nesga da máscara-
Não é saudosismo populista. É história. É cultura. Está por ali, às mãos de todos nós. A 3 de Setembro ou em 25 de Abril.

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PorRocha de Sousa
Natural de Silves. Professor Universitário ( aposentado) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde foi docente. Membro da Academia Nacional de Belas Artes. Com larga atividade artística em vários campos, da pintura, ao cinema, do vídeo à literatura, Participou em dezenas de exposições, em séries de arte para a RTP, tem publicadas vários livros e é colaborador do Jornal de Letras.
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