O desassoreamento do Rio Arade e a construção de um espelho de água – construção que garante uma determinada cota permanente de água – junto à cidade são assuntos que voltam periodicamente à ribalta.
O processo de desassoreamento já conheceu muitos anúncios que nunca foram por diante e uma situação semelhante tem acontecido com o espelho de água, que em tempos até teve obra iniciada. Mas o Município de Silves nunca desistiu desta luta, que tem mais de 30 anos, e os sucessivos governantes têm sempre defendido estes projetos. Agora, abre-se de novo uma possibilidade, abordada há dias na sessão da Assembleia Municipal de Silves.

Foi na sessão do dia 27 de dezembro de 2022, que se falou do projeto que a Câmara Municipal de Silves pretende realizar, a construção de um espelho de água junto à cidade de Silves.
Este projeto foi acarinhado por vários autarcas silvenses e data do mandato do presidente socialista Francisco Matos (1991-1993), a primeira tentativa da construção. No jornal “Voz de Silves”, encontramos a descrição do dia, em janeiro, quando “as máquinas entraram pelo rio adentro e começaram uma limpeza de cascalho e lodo, a fim de criar um espelho de água que dê outra imagem ao Arade”.
O objetivo da obra era criar um “espelho de água” que mantivesse o “espaço fluvial numa cota” e fazer um “muro de proteção em pedra nas margens”, o qual se prolongaria por cerca de 95 metros. O projeto incluía também “uma rampa para barcos” e estava orçado em 5.000 contos (cerca de 25 mil euros), dos quais 4.000 (cerca de 20 mil euros) seriam pagos pelos Serviços Hidráulicos do Guadiana e o restante pela autarquia silvense.
Segundo o presidente Francisco Matos dizia na altura: “é a intervenção possível neste momento, e pretende sensibilizar entidades para o que se pode fazer no Rio…”
No entanto, esta obra ficou apenas pela limpeza ao fundo do rio e o espelho de água não foi construído. O executivo camarário seguinte, que entra em 1993, com o presidente da CDU, José Viola, decide candidatar a fundos comunitários um projeto mais ambicioso que, além do espelho de água, compreendia o desassoreamento de parte do Rio, a revitalização das margens e a eventual construção de uma praia fluvial.
Em março de 1996, a Câmara de Silves apresenta a candidatura ao projeto “Acessibilidade Fluvial. Desassoreamento do Rio Arade e Revitalização Marítima das Margens – 1ª fase” . O investimento global previsto seria de 210 mil contos (cerca de 1 milhão de euros), sendo a participação comunitária de 157 500 contos ( cerca de 785 mil euros).
O projeto foi aprovado a nível comunitário, mas não a nível nacional, e o secretário de Estado do Ambiente, do Governo socialista de então, José Sócrates, explicava as razões: “Este projeto, apesar do seu inegável interesse, não foi ainda aprovado em virtude da prioridade que foi definida em termos políticos para os investimentos a realizar no âmbito do “Programa de saneamento” e “Selagem de lixeiras”, “Programas das ETAR’S” e “Programas Integrados em Áreas Protegidas”.
Uma oportunidade perdida… mas em março de 1998, numa tenda montada para o efeito, nas margens do Rio Arade, era assinado um Protocolo entre a Direção-Geral de Portos, a Direção-Geral do Turismo, o Fundo de Turismo e as Câmaras Municipais de Silves, Lagoa, Portimão e Monchique, com vista à elaboração de um plano conjunto para a revitalização do Arade.
Em 1997, tinha havido uma nova alteração política no executivo autárquico, e a nova presidente do PSD, Isabel Soares, guardava na gaveta o projeto do executivo anterior e dizia: “O projeto anterior, em termos de área a requalificar, só contemplava o concelho de Silves. Era mais barato, menos ambicioso e mais difícil de ser exequível (…) era de cerca de 800 mil contos, um projeto que tinha apenas um dique e um desassoreamento até dois quilómetros a jusante da cidade. Este novo projeto é mais caro e, evidentemente, muito mais ambicioso. Mas penso que é um projeto que poderá vir complementar aquilo que vai ser feito em Portimão. A intervenção na zona ribeirinha de Portimão e a criação da marina exigem também que este projeto seja desenvolvido porque é um projeto complementar”.
No entanto, como se sabe, também este protocolo não teve qualquer desenvolvimento.
Uma nova fase poderá ter surgido com o PRR – Plano de Recuperação e Resiliência, também conhecido como “a bazuca”. A 11 de setembro de 2020 foi aprovado pelo Conselho Regional da CCDR Algarve a “Estratégia de Desenvolvimento Regional – Algarve 2030”, que define os investimentos públicos prioritários até 2030, numa lista que inclui algumas propostas apresentadas pelos municípios. A Câmara de Silves volta a insistir no desassoreamento do Rio Arade e vê essa proposta incluída no plano que prevê o desassoreamento do Arade como um contributo para reforçar as potencialidades do terminal de cruzeiros e porto de Portimão: “Infraestrutura portuária de Portimão, no rio Arade – O terminal de cruzeiros e porto de Portimão reveste-se de uma importância estratégica acrescida no curto prazo, com a reintrodução e consolidação da ligação marítima com a Madeira e Marrocos e, no médio prazo, como fator potenciador do setor turístico, e de novos investimentos na reparação naval. Esta infraestrutura deve integrar soluções limpas e sustentáveis do ponto de vista energético, para minimização de consumos e custos de contexto. O desassoreamento do rio Arade, até Silves, contribuirá igualmente para afirmar as potencialidades da infraestrutura portuária e o seu contributo para complementar e diversificar a oferta turística.”
Desta forma e com o objetivo, um tanto arrevesado, de fomentar o turismo em Portimão, o desassoreamento poderá vir a concretizar-se, caso o Governo assim o entenda.
Noutro plano, o Município de Silves mostra-se decidido a tentar avançar com a construção do espelho de água, apresentando uma verba de 80 mil euros, inscrita no Orçamento 2023, para a elaboração de um projeto, como foi dito pela vice-presidente da Câmara Municipal, Luísa Conduto Luís, na Assembleia Municipal. Caso se reúnam as condições para a concretização do espelho de água, face aos preços atuais, a autarquia estima que seja necessário um investimento superior a 2 milhões de euros. Mas tudo dependerá do estudo que será feito e das soluções técnicas que possam vir a ser encontradas para que Silves tenha o seu espelho de água permanente.






