Luís de Camões e João de Deus, três séculos os separam
Vamos ao encontro destas duas figuras que marcaram os seus séculos para os futuros da cultura Portuguesa, Europeia, Américas, etc. Eles passaram pelos seus tempos, em poucas alterações política e religiosa. LUIS DE CAMÕES, nas Caravelas, nas torturas dos sistemas: real/religioso. Foram tempos para mudanças seculares… JOÃO DE DEUS, foi nas mudanças da modernidades: política e do ensino, falecendo a duas décadas da implantação da República. Um republicano em monarquia.
CAMÕES não fugiu aos hábitos portugueses na ignorância do tempo Barroco e nos que se seguiram. Nas minhas publicações, citando : “OS SÉCULOS DOS CLÁSSICOS”, recordo e aponto o desfasamento, ao menos, em dois séculos, sobre Camões.
Viemos ao Camões, ao Poeta, dos Lusíadas, da epopeia erudita, sem o primitivismo heroico e religioso das epopeias populares, apesar de todo o ambiente epopaico em que, naturalmente, eclodiu. O ambiente do maravilhado espanto foi a descoberta dos caminhos do Oriente, com os eventos contados em medos e em audácias. O Homem que os celebrou tinha a formação clássica e experiência da vida marinha e aventurosa, nesse desdém característico dos poderes dos tempos da ignorância absolutista; nessas duas clausuras: Poder e Religião.
João de Deus um português avançado pelo século XIX. Passou e estudou, na Universidade de Coimbra. Homem que deixou um trabalho de resistência pela educação, na maioria dos jovens Portugueses; numa percentagem absoluta de ignorância analfabética. E, para uma rápida explicação, o Dr. João de Deus, licenciado em Direito, pela única Universidade Portuguesa, Homem cuja existência entendeu o seu País analfabético. Não se lhe conhece, no seu estudo, em DIREITO, essa função prioritária. A sua mente, a sua moral, a sua consciência não se perderam nesses caminhos de interesse pessoal. É certo que produziu essa flama para um futuro contrário às mentalidades, em século XIX, nessa continuação durante a ditadura fascista, portuguesa.
Em Março de 2007, publiquei em “Terra Ruiva”, o título: “João de Deus o Excluído -Camões o Aventureiro”. Um breve excerto: “João de Deus foi um exemplo de cidadão… Admirado pelos maiores valores da cultura portuguesa, do seu século : Eça de Queiroz, Cesário Verde, Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Manuel Teixeira Gomes, entre tantos cidadãos, não só nacionais, admiraram aquele Português, pobre de interesses e rico de inteligência, um Homem desigual…
Numa afirmação pessoal do Poeta-Educador: “Eu podia falar todas as línguas / dos Homens e dos Anjos/Logo não tivesse caridade/ Já não passava de um metal que tine / de um sino vã que soa / Podia ter o dom de profecia/ saber o mais possível/ ter fé capaz de transportar montanhas. /logo que eu não tivesse caridade/ já não valia nada !.”
Para quem conhece e estuda a Educação em Portugal (ficando na metade do século XIX), sabe o que representou o Pedagogo PORTUGUÊS nessa luta, no sarcasmo dos “Senhores”. Mas nem todos, nessa evidência…
Em 193 , o Poeta ganha o seu primeiro busto, em Portugal, cidade de Faro. A cidade não ganhara, até então, nenhum monumento estatuário – civil- até à terceira década do século XX, a não ser um Obelisco, ainda em tempo monárquico, Julho de 1910. Até hoje, esse acto regista-se como a maior homenagem portuguesa ao Pedagogo Messinense… O Estado Novo não aceitou, de bom grado, homenagear, uma figura que foi do Republicanismo. Mas a força foi maior do que a da política de 1930. Os Algarvios do tempo, muitos ligados ao ensino escolar, levaram a sua avante : homenagear o “PAI” do ensino, da CARTILHA MATERNAL. Há o registo na imprensa regional: “O Algarve” e “Correio do Sul”- 8/03/1930, Admirável !
Recentemente, 29/04/2021, publicou-se “Entrevista à História _ Joao de Deus”. Fui levando o meu conterrâneo em plurais lições. Nessa continuidade. Em alegrias poéticas declamámos o poema. Retenho um apontamento de Ester Lemos– 1952: “JOÃO DE DEUS ocupa um lugar à parte na poesia do seu tempo, e distingue- se nitidamente dos bardos ultra-românticos que o antecederam. Se a actividade de Pedagogo lhe granjeou o carinho e a gratidão do País, de que foi considerado benemérito, a obra lírica valeu-lhe, igualmente, a rendida admiração dos seus conterrâneos e um dos primeiros lugares na História do Ensino e da Poesia portuguesa. O lirismo de João de Deus é considerado por muitos críticos como expressão perfeita do próprio génio lírico nacional, tendo sido equiparado ao de CAMÕES, pela capacidade do voo espiritual, aliado ao fervor da sua natureza, vivamente sensível.”
Vamos ao encontro do livro “Campo de Flores”, lá está o poema, simplesmente “CAMÕES”: “Camões comparado / Aos mais escritores, /Nem entre os maiores/ Foi sempre igualado / Qual deles deu brado/ Com tantos primores ? / tais frutos e flores/ De engenho inspirado ? / Com graças tão finas/ Ciência tamanha ? /Estâncias divinas ! / Qual deles lhe ganha ? / Os mais são colinas/ Ele é a montanha !








